Eram cem paspalhões, a correr…

giraffe

Fiquei mais parvo do que aquilo que costumo ser. Digamos que sou um parvalhão instruído. Instruído porque gosto de estar em cima dos acontecimentos mas, sempre, com aquele espírito do verdadeiro parvalhão. Entre parvalhão e paspalhão… venha o diabo e escolha. Por mim, escolho o parvalhão. Tem mais a ver comigo. Ponto.

Para piorar a situação, sou um parvalhão nascido e criado na bela cidade do Porto. Já não bastava o facto de ser parvalhão como ainda tinha de acrescentar outro facto: ser tripeiro. Um parvalhão tripeiro! Não tem jeito, pois não? A maior parte dos portugueses acha que não tem jeito nenhum. Se eu fosse como eles também não ia achar, certamente… Mas não sou como eles. Eu sou um parvalhão tripeiro. Não sou um trengo qualquer.

Todo o parvalhão, sendo tripeiro ou não, tem as suas manias, os seus tiques e gosta de implicar com alguns aspectos da vida quotidiana. Quem não conhece um verdadeiro parvalhão que implica com isto e com aquilo? Eu conheço muitos. São os meus colegas de parvalhice… aqueles com quem eu me identifico melhor… e com esses não existe aquela cena do regionalismo… do ser tripeiro e cenas do género. É uma cena mais universalista, mais cosmopolita. Somos parvalhões do mundo. Sabemos acolher todos os parvalhões deste mundo, este mundo que é tão pequeno e que todos os dias nos enriquece com uma nova parvoeira…

Mas todo o parvalhão tem a sua ética. Não se pode ser um parvalhão fútil e desregulado. Assim corre-se o risco do parvalhão se transformar num verdadeiro paspalhão. O que é mau. E é mau porque o paspalhão não consegue perceber quais são os seus limites nem qual é o seu lugar. O paspalhão é uma merda desinteressante. Não é parvalhão quem quer mas quem pode. Ponto.

Olho para cima e ponho-me a reler o texto. Facilmente chego à conclusão de que sou mesmo parvalhão. Vinte e três linhas para começar a abordar o tema??? Não será muita linha??? Não! Afirma convictamente o parvalhão que há dentro de mim! Nada disso! É necessário compreender o contexto onde o parvalhão se enquadra. Daí as vinte e três linhas, certo???

Depois disto tudo, passamos para o tema. O tema não é nada parvo! É estúpido! O tema é motivo de vergonha. Vergonha até para um parvalhão que não tem nada a ver com o assunto. Um parvalhão que se limitou a assistir. E há sempre um parvalhão a assistir. É um clássico (e não vou começar a enumerar clássicos…)! Que assistem silenciosamente, esmagados perante tanta paspalhice.

Eu sei! Ainda não fui ao tema. Faz parte do modo de funcionamento do verdadeiro parvalhão e eu sou, mesmo, mesmo, verdadeiro. Não sou a fingir, por isso, há que ter uma dose de paciência, que é outra das condições para desenvolver em harmonia o verdadeiro espírito do parvalhão. Parvalhão que é parvalhão é paciente. Sabe esperar. Sabe que o seu momento irá acontecer. É isso que nos distingue dos paspalhões.

Depois disto tudo, será que é difícil perceber a diferença entre um parvalhão e um paspalhão? Se calhar ainda é! Se calhar vou ter mesmo de exemplificar. Não gosto nada de exemplificar porque posso ser confundido com um paspalhão. Mas como parvalhão, tenho de apelar ao meu sentido corajoso. Tenho de correr riscos…

Alguém assistiu ao que se passou durante este domingo desportivo? Foi um domingo de futebol. Para não variar, o país fica em suspenso, com um jogo de futebol. Não percebo muito bem porquê, mas isso sou eu, que sou um parvalhão. As televisões fazem reportagens e mais reportagens sobre tudo e mais alguma coisa que esteja relacionada com o jogo de futebol. Até parece que querem que não pensemos em coisas menos apropriadas… Filmam tudo. Desde o mais ranhoso dos adeptos até aos mais chiques. Normalmente o parvalhão nunca é entrevistado ou filmado. Até parece que nos topam à distância. Mas filmam outras coisas. O que devem e o que não devem. Claro que o parvalhão, que é parvalhão, gosta que filmem o que não devem. É um dos tais clássicos que não vou enumerar aqui, mas que gostam, lá isso gostam.

E neste domingo desportivo as televisões filmaram todas a mesma coisa, ou pelo menos as imagens apareceram em todas as televisões. Cem rapazes a correrem. Todos vestidinhos de preto. Todos aos tropeções mas a correrem com vontade. Os rapazes levavam tudo à frente. As imagens não tinham som mas eu consigo imaginar os impropérios que aquela massa de cem rapazes conseguia propagar durante a correria. Não havia som mas havia imagem. Uma imagem assustadora. Vergonhosa. Condizente com o paspalhão que dirige uma instituição que, se não é centenária deve andar lá perto, é merecedora de todo o respeito.

Eu tenho para mim, que naquela instituição desportiva, também devem andar por lá uns valentes parvalhões, iguaizinhos a mim, que não se identificam com estas condutas paspalhonas e que vão saber distinguir os verdadeiros parvalhões da escumalha. Esses, eu gostava de conhecer, nem que fosse para passar uma noite a dizer parvalhices…

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