Assim correm os dias…

sadomaso

Apesar de não estar em horário de trabalho, estou na minha escola. Porquê? Porque tenho que fazer horas até tornar a entrar e não dá lá muito “jeito” tornar a ir a casa para voltar novamente. Lá fora está um tempo muito fraquinho e a vontade em sair é pouca, de maneira que fico pela sala de professores. Este ano lectivo calhou-me ter de ficar na escola durante todo o dia três vezes por semana. Vou tentando não ficar muito desmoralizado por ter tantos buracos no horário e ter de passar tanto tempo na sala de professores. Normalmente trago um livro. Já pensei em trazer o material necessário para ir desenhando mas fico sempre com a impressão de que vou ser interrompido muitas vezes e, assim, não consigo trabalhar. Ler um bom livro está muito bem. Dormir nos sofás também é uma alternativa, mas só para descansar os olhos. Tem de ser uma soneca muito breve porque os sofás são de péssima qualidade e, se ficar muito tempo na posição torcida em que tenho de descansar… corro o risco de não me conseguir levantar…

Mas são horários de professores e quem anda nesta vida sabe perfeitamente que este tipo de horários podem acontecer. No entanto, ao fim de umas horas enfiado numa escola é necessário  sair do espaço físico, arejar um pouco e quando tal não sucede, corre-se o risco de atingir um grau de saturação que não é nada desejável para um bom desempenho.

Quem está por fora do sistema de educação vai logo achar que são queixas de barriga cheia. Vai afirmar a pés juntos, de preferência com uma jura… que conhecem muitos professores que não fazem nenhum… que todos eles ganham rios de dinheiro e que são verdadeiramente privilegiados. Argumentos deste género, próprios de quem não faz a mínima ideia do que está a falar, não devem ser levados a sério por quem for minimamente… sério. Mas estes argumentos são, pasme-se, para serem levados a sério. Sim, sério. Porque são os argumentos da maioria dos portugueses. Este tipo de argumentos foram construídos e alicerçados na cabeça das pessoas desde o tempo em que Maria de Lurdes tomou conta do escritório… Começou por tomar algumas medidas que visavam disciplinar uma classe que sempre foi corporativista e que sempre se deixou representar por um homem de bigode que nunca esteve muito interessado noutras questões para além das relacionadas com o… guito… direitos… e, acima de tudo, com a sua agenda política. Não me custa nada ser confundido com um reacionário qualquer por não concordar com os sindicatos, quero lá saber dessas minudências… Não sou contra os sindicatos. Devem existir para discutirem as questões laborais. Nada mais do que isso. Se me conseguirem explicar qual a competência que um sindicalista tem para discutir a avaliação do desempenho docente… Ok, poderão e terão, com toda a certeza, o direito de expressar a sua opinião mas não me parece que poderão ser os principais e, praticamente únicos, interlocutores de discussão destes assuntos. Mas foram e têm sido os sindicatos os representantes de peso… dos professores. Com os resultados que estão à vista: uma opinião pública, em uníssono, contra a cambada de privilegiados que andam pelas escolas. Quer queiramos quer não, esta é a realidade. Há uma grande, para não dizer colossal, animosidade contra os professores.

Há quem me ache meio parvo e se calhar sou mesmo parvo de todo mas não sou burro, apesar de ter umas orelhas grandes para ouvir melhor, uns olhos enormes para ler melhor e uma boca grande para poder falar melhor… consigo perceber que, nos tempos que correm, difíceis, com muito desemprego e gente a passar por dificuldades, existe uma ideia generalizada de que os professores não querem trabalhar e só querem receber os seus altos ordenados…

Consigo passar por cima da inveja. Pessoas que invejam uma classe pelos seus ordenados… não me parecem boas pessoas, principalmente porque não é uma profissão cuja finalidade seja ganhar dinheiro. Vejamos. Eu trabalho há vinte e poucos anos como professor. Trago para casa mil trezentos e poucochinhos euros. Não me parece que seja um ordenado principesco, Ok. Há muito boa gente a ganhar seiscentos, quinhentos e muitos outros não ganham nada. Pois há. Mas eu não tenho culpa disso. Faço o meu trabalho. Esforço-me por ser um bom profissional. Esforço-me por conseguir acrescentar alguma coisa positiva à vida dos meus alunos. Esse é o meu trabalho e devo ser pago por isso. Não tenho complexos em relação ao trabalho. Diferentes tarefas implicam diferentes remunerações.

Quem conseguiu chegar até aqui… é uma pessoa corajosa… mas que deve estar a ficar com uma noção errada da minha pessoa… (os meus conhecidos já sabem o que a casa gasta…) e a achar que eu só penso no guito… Não é bem assim. Claro que penso no guito, como toda a gente que tem contas para pagar, filhos para criar e comida para colocar na mesa. Tenho mesmo de pensar no guito e tornei-me num perito em contas de cabeça. Esse é um lado da questão mas não é o mais importante, pelo menos para mim. O que me custa mais na actividade que desenvolvo profissionalmente é sentir-me completamente menosprezado. Sentir que o meu esforço não é reconhecido. Saber que o papel de um professor não é respeitado. Saber que em muitas escolas um professor pode ser insultado e agredido sem que nada se faça para o proteger. Perceber que a opinião, o espírito crítico e o pensamento divergente estão cada vez mais afastados das salas de aula. Verificar diariamente o monte de papelada… Contar o número interminável de alunos na sala de aula… enfim…

É difícil continuar a acreditar que é possível ensinar, que é possível acrescentar qualquer coisa de positivo ao universo de um aluno, que seja, mas essa é uma luta diária, que merece ser vivida por todos aqueles que se deslocam para as escolas deste país…

2 thoughts on “Assim correm os dias…

  1. Outra Mafalda

    Ruizito… só verdades…mas a sua nobreza estará seguramente em não dar razão de contentamento a tudo ou todos os que o querem ver derrotado mas sim em manter essa energia que sempre teve em ser bom educador… Muitos nos julgam porque não estão no terreno ou na nossa pele…
    Espere o tempo ignorando-o e passará mais depressa. Medite.
    Alegre-se que o 1º período está moribundo… e o 2º já traz maior luminosidade.

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