O texto começa de uma maneira e acaba… diferente…

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Eu bem que gostava. Gostava de ser diferente. Gostava de ser uma rapariga. Mas com as manias de rapaz. Então para quê querer ser um outro género? Essa é a pergunta evidente. Podia responder porque sim. Mas acho que não seria nada satisfatório. Tudo tem uma razão de ser. Por isso, este meu desejo em ser uma rapariga também tem uma explicação. Quer dizer, é mais uma visão daquilo que um rapaz gostaria de fazer se fosse rapariga. Sendo ainda mais básico e específico, diria que o meu desejo é sobre aquilo que um rapaz gosta nas raparigas e aquilo que não gosta. Pronto, é isso. Eu percebo a desilusão. O texto começa muito prometedor e acaba miserável e cheio de lugares comuns. É assim a vida, a nossa vida…

Pois bem, se eu fosse rapariga gostava da bela unha pintada, de vermelho. Gosto do vermelho na unha. Também gosto de outras cores mas as cores berrantes têm, obrigatoriamente, de fazer conjunto com uns sapatos e roupa de acordo. Na unha não gosto de indecisões. Aliás é umas das poucas coisas que não gosto nas raparigas… a indecisão… primeiro que se decidam… aquilo custa… e isso deixa-as… não é bem infelizes… é mais ansiosas… Uma perda de tempo total. Se eu fosse o Jesus, mudava isto.

Sem querer começar a enumerar as poucas coisas que não gosto nas raparigas, seria bom insistir na unha vermelha. Normalmente, a unha pintada de vermelho está associada a uma alma pesada. A uma personalidade intensa, pelo menos para mim. É raro vermos uma rapariga nova com a unha pintada de vermelho. É mais azul, verde esmeralda ou coisa que o valha. Unha pintada de vermelho é de uma outra galáxia… neste caso seria a minha galáxia.

E se eu me permitir seguir o raciocínio?

O que é que combina na perfeição com a unha pintada de vermelho? Roupa interior! Lingerie! Até pode ser na língua que acharem mais apropriada! Tanto me faz. O que não me deixaria indiferente, se eu fosse rapariga, seria a escolha das ditas peças de sugestão imediata e facilitadoras da coisa. Vamos partir do princípio obscuro de que eu sou mesmo uma rapariga, só para facilitar a escrita, ok?

Quando era uma rapariga nova, eu gostava de roupa interior branca, imaculada. O branco dá aquela sensação de power, de verdadeira força da natureza que consegue mover montanhas. O branco dá uma noção de volumetria que é imparável. Dá o poder de conseguir domesticar o olhar de quem está do outro lado. Ocupa espaço e isso é bom. Muito bom.

Gosto de pensar naquilo que estou a conseguir fazer sentir, por assim dizer… Aliás, eu vim a este mundo para… fazer sentir… essa é a parte boa de ser uma rapariga  que usa roupa interior branca. Mas fazer sentir só quando eu disser… sim… já pode ser… o branco permite esse fingimento. Permite transmitir uma imagem de pureza. Uma pureza inatingível…

Pronto, é uma cena (falando agora à rapaz) que teve e deu os seus frutos. Está ligada a um período que todas as raparigas atravessam. Em que necessitam sentir que os rapazes andam com a cabeça à roda, literalmente, só de as verem passar… Não acho que o jesus deva meter o bedelho neste assunto. Faz parte do processo de crescimento.

Dá-me a impressão que o texto nunca mais vai chegar à parte da unha vermelha em conjunto com a roupa interior adequada… Pois não! Uma rapariga que é rapariga passa por muitos processos de crescimento e enriquecimento pessoal… Digamos que não foi do pé para a mão que eu me tornei uma rapariga de unha vermelha, assumidamente. Custou. Custou muito. Dei muitas voltas sem perceber o que andava a fazer. Dei outras voltas a saber perfeitamente o que andava a fazer. Umas vezes foi bom. Outras foi mau, para esquecer. E depois apareceram umas assim assim… E porquê?

Pois, essa é aquela pergunta valiosa que nos estados unidos de uma coisa qualquer vale um milhão de dólares. Basicamente, a resposta está relacionada com o facto dos rapazes não perceberem minimamente para que serve uma roupa interior. Muito menos uma roupa interior branca. Que nos faz sentir poderosas e arrebatadoras. É triste, pensam as outras raparigas minhas amigas e solidárias, até ao momento em que não precisam de partilhar momentos intensos… com este ou aquele… (jesus devia meter o bedelho neste assunto da partilha… partilhar rapazes não é pecado!). Os rapazes da mesma idade, nem sequer reparam na roupa interior… é como se não existisse… É muito triste, eu sei, daí ter procurado sempre por rapazes mais velhos… que saibam dar valor… ao que é realmente importante! E o que é importante? Isso mesmo: Uma rapariga de roupa interior branca, capaz de arrebatar o mais indefeso e tímido rapaz da  rua dele.

Fui assim durante uns tempos.

Depois deixei-me andar.

Umas vezes mais confiante, outras menos. Fui misturando a roupa interior. Branca, cor de pele, branca, às vezes preta. Conforme a disposição e a vontade… mas sempre com a convicção de me sentir uma rapariga capaz mexer com o sentimento, aquele que interessa. E rapariga que é rapariga, sabe qual é o sentimento que interessa.

Até que chegou um dia, qual dia de sonho, em que me deixei de tretas. Foi um dia em que decidi não perder mais tempo com pormenores que não interessam ao senhor, um tal de jesus, e passei a fazer apenas aquilo que me dá, realmente prazer. Não foi fácil. Mas foi bom. Passou a ser muito melhor. Passou para outra dimensão. E sempre com roupa interior preta. Com a unha pintada de vermelho.

Voltamos ao início do texto.

Foi aqui que tudo começou.

Seria, pois, o introito para iniciar o meu desejo de ser uma rapariga porque uma rapariga não se esgota nas suas escolhas da roupa interior… Mas o texto vai longo…

PS. E este texto foi escrito ao som desta musiquinha.

PS.. Eu sei, repito as musiquinhas. Até pareço uma rapariga a repetir-se…

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