Peço desculpa! É um texto autobiográfico! Quem achar que sim, passe à frente!

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Quero crer. Quero acreditar. Que o que me vai na alma não é uma crise existencial… com os cinquenta já lançados. Os momentos de reflexão sempre existiram na minha vida. Quero mesmo acreditar que este será mais um. Reflectir sobre a nossa vida é um acto soberano. Só nos diz mesmo respeito a nós, se o conseguimos levar avante ou se nos encolhemos e deixamos andar. Para mim são sempre momentos solenes… porque tenho a mania que tudo é muito sério… uma palermice tão grande como as que vou por aqui escrevendo. As reflexões não têm nada que ver com o grau de seriedade que queremos impor aos assuntos da nossa vida. Adiante.

A minha vida é igual à de tantas outras. Cheia de altos, baixos, altos e mais altos e baixos novamente. Se eliminarmos um dos cinco picos anteriores, sobram quatro, tal e qual a minha vida, que é feita de quatro polaridades. Ou seja, sou mesmo quadripolar. E consigo ser diferente em todas as variantes da quadripolaridade: Ser humano que vive em família; ser humano que trabalha; ser humano que ama e tem prazer; ser humano que vive em sociedade. Assim à primeira vista, o que ressalta mesmo é a parte do ser humano… é muita necessidade em afirmar que se é um ser humano… Adiante.

E estas quatro polaridades são todas independentes. Há quem afirme a pés juntos que não senhora… que estão todas interligadas… que fazem todas parte do mesmo ser humano… venha o diabo e escolha porque eu não quero saber do que andam para aí a dizer, não digo das minhas polaridades, mas das dos outros… Das minhas sei eu. Quero dizer, eu bem que tento reflectir sobre elas para ver se consigo chegar a uma conclusão mas… às vezes… não é fácil! Adiante.

E algumas destas polaridades andam mal. Andam pela rua da amargura. Posso escolher uma delas e começar a desbobinar. Ou posso pegar numa ponta e levar tudo à frente. Tanto faz ou tanto se me faz. Vou ouvir Supertramp, sim Supertramp, e depois decido. Foi uma cena nostálgica que me apareceu à frente. Não tenho culpa. Sou um ser humano.

Adiante.

Começando por uma ponta, só porque eu gosto de pontas. Família. O núcleo duro é como o algodão, não engana. O sangue fala sempre mais alto. Umas vezes, o sangue, pode correr aos soluços, parecendo que as veias estão entupidas e com a perspectiva de que o fluído vai mesmo bloquear. Que o sangue vai deixar de correr e que cada um vai seguir o seu caminho. É verdade. Quem nunca passou por momentos em que não reconhece o sangue que está do lado de lá? Quem nunca achou que o sangue que está do lado de lá tem um gosto diferente do nosso? Mas que é igual ao nosso. Será que só acontece comigo? Não me parece. A família é isto mesmo. Sangue. Umas vezes esguicha por tudo quanto é lado e outras vezes corre tranquilamente nas veias, sem sobressaltos. E nos entretantos, o ser humano, o verdadeiro ser humano que eu sou, tem vida própria. Tem de continuar a viver. Tem de continuar a lidar com o sangue que lhe corre nas veias. E um diz assim. O outro diz assado. Mas não pode ser assim? Ou assado? Tanta pergunta e tanta resposta por dar. Porque é que isto tudo não é fácil? Pelo menos um bocadinho mais fácil. O bocadinho necessário para que eu consiga encontrar o meu equilíbrio. A minha paz e possa correr nas veias tranquilamente.

Adiante.

Trabalho. Porque será que, depois da família, tinha de vir o trabalho? Se pensar bem, família e trabalho deveriam ser duas polaridades positivas. Mas não são. O trabalho, como meio de subsistência tornou-se uma frustração. Eu sou professor há mais de vinte anos. Não quero saber ao certo se são vinte e dois ou vinte e três. Não me adianta. O mais importante são os meus alunos. Cada vez mais. Quero acrescentar alguma coisa de positivo à vida dos meus alunos. Se conseguir plantar uma sementezinha, de pensamento divergente na cabeça dos meus alunos já me posso dar por muito feliz. O ensino está transformado numa coisa esquisita… e eu não vou perder muito mais tempo a discutir o assunto. Isso fica para os entendidos… eu quero que eles vão todos à MERDA, que eu vou continuar como até aqui, a trabalhar, a dar o meu melhor para que os meus alunos cresçam, para que a minha escola continue a crescer.. O resto, e como não posso dizer palavrões, quero que vá dar uma volta ao bilhar grande.

E depois tenho outro tipo de trabalho. Não, não ando a fazer horas extras. É antes aquilo que é o meu trabalho. Os meus desenhos. Aquilo que me dá prazer. Um prazer que não me traz sustento. E esta polaridade não pode ser confundida com a do prazer, a do corpinho… Nada disso. Este prazer tem sido inesperado mas muito intenso. Foram as ilustrações de dois livros. Dois livros de sangue. Dois livros que mexeram muito comigo. Escritos por quem me corre nas veias para aquelas que são as minhas veias. Pronto. Ok. É demasiado rebuscado. Mas hoje vai ser assim. Ponto. Não quero saber.

Se perguntarem. Rui Manuel, tu gostavas de deixar de dar aulas para abraçares uma carreira ligada à ilustração e ao desenho? Eu era capaz de responder… “depande”… Se me tirarem vinte anos de cima do corpo e não me puserem duas crianças à guarda… eu sou capaz de aceitar. Aliás, tenho a forte convicção de que era mesmo capaz de aceitar. Outro aliás. Pegava nos lápis, olhava para as veias, para o sangue que por lá corre e era moçoilo para piscar o olho, em jeito de convite: vamos?

Como nada disto é possível. Vou continuar com uma vida dupla. Trabalho como professor para tentar, e trata-se disso mesmo, tentar, pagar as contas ao fim do mês e depois vou fazendo uns trabalhos que me tragam reconhecimento emocional. Pode parecer pouco. Pode. Mas para mim, o facto de ter uma mão cheia de amigos, que gostam do meu trabalho e que me percebem, basta-me, chega-me, e não poderia querer mais.

Adiante, que isto está a ficar complicado e nem sequer a meio chegamos…

Amor e prazer. Se não fosse o raio da música dos Supertramp… a coisa seria muito mais fácil. Mas há sempre qualquer coisa que vem atrapalhar o raciocínio… Ainda para mais esta polaridade é aquela que suscita mais curiosidade. Ou seja, por outras palavras: o que vai o ser humano dizer sobre o seu prazer? Sobre o amor? Eheheheheheheh. É tentador ficar à espera. Ler tudo isto até aqui… Será que vão aparecer pormenores sórdidos?!? Huhm! Quem me conhece?!? Sabe do que eu sou capaz. E eu sou capaz de tudo. Sou capaz de dizer que gosto de sexo em cima das mesas de cozinha… mas isso, esse pormenor, não acrescenta nada de novo. Milhares de cenas porno passadas na cozinha. Quem as não viu? Que sou capaz de afirmar, aqui e agora, de que sou rapaz para fazer o amor de pé… mesmo aos cinquenta  e três anos de idade… contra uma parede qualquer da casa. Quem anda desatento? É o que mais há na filmografia porno. Ou ainda que gosto de sexo anal. O sexo anal está-se a tornar um bocejo que já não se aguenta. Portantos… o que é que se pode acrescentar à polaridade do amor e do prazer? A meu ver, e isso sou eu a falar, nada! Todos nós, que somos seres humanos e andamos neste mundo, gostamos de fazer o amor. Pode ser que esse tal de amor possa ser escorreito, anal ou, vá-se lá imaginar, o que mais… nos pode acontecer… é tudo uma questão de imaginação. Também pode ser uma questão de amor. Ou não?

Sociedade. Ufa. Que isto nunca mais chega ao fim. Também concordo. O raio da vida de um ser humano tem que se lhe diga. É isto e aquilo. Ah e tal, temos que pensar que não somos todos iguais. Que somos todos diferentes. Eu gosto mais por cima e tu gostas de lado… é uma grande porra… termos que pensar sempre nos outros. Por vezes dá aquela vontadinha de mandar tudo às urtigas. Urtigas? Não, não pode ser assim. Temos de achar que a palavra certa é: coexistência. Pacífica? Com facas atrás das costas? Pacífica? Com vontade de esganar toda a gente? Pacífica? Vamos ficar com uma vontade. Uma vontade ENORME de vivermos todos juntos neste mundo. No caso. No nosso caso. De vivermos todos juntos em Portugal, que é um sistema político corrupto, nada edificante, merecedor do nosso desprezo, mas que seja o catalizador do nosso esforço. O esforço para não sermos iguais. Para conseguirmos ser genuínos. E, já agora, se pudermos todos ouvir Supertramp… a coisa pode melhorar… mas também pode… piorar, “depande”.

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4 thoughts on “Peço desculpa! É um texto autobiográfico! Quem achar que sim, passe à frente!

  1. admin Autor do artigo

    Não deixas de ter razão 🙂
    Quanto aos livros da Rosita, ainda há pouco tempo foram apresentados na Rocha, durannte a semana da leitura, com exposição dos desenhos e tudo 🙂 Ainda vendemos seis livrinhos 🙂
    Beijinhos

  2. Maria Teresa Costa e Silva

    Não é exagero. as vidas coerentes e simples são normalmente as que passam despercebidas e contudo, exigem esforço e persistência. Mas passemos à frente…
    Porque não trases os livros da Rosa para vender na biblioteca da Rocha? ou talvez melhor uma apresentação com sessão de autografos?
    Beijinhos para os teus 3 Rs

  3. admin Autor do artigo

    Oh Teresinha 🙂 assim até fico coradito 🙂 É uma simpática comigo e uma exagerada 🙂 Beijinho 🙂

  4. Maria Teresa Costa e Silva

    Tirando as fotos que têm a ver com o teu lado provocatório mas também artistico pois revelam gosto (dentro do género que não é o meu), o texto revela um ser humano fantástico, que se interroga (como todos nós), reflete (como alguns de nós), e demonstra um espirito positivo, combativo, com valores e ideais que não se manifestam na teoria e no bla bla, mas na prática da tua vida (que só muito poucos conseguem). Nada que quem te conhece não sinta e não adivinhe, mas que dificilmente conseguiria expôr.
    Beijinhos
    Maria Teresa

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