Para que conste.

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Ok. Este não será o sítio ideal para falar sobre a minha vida profissional.

Também não vou desvendar nenhum segredo.

Nem sequer pretendo abordar a relação que tenho com a entidade patronal e que regula a minha actividade.

Sou apenas um professor. Cansado. Não quero saber de mais ou menos razões. Apenas quero que me deixem fazer o meu trabalho. Tranquilamente.

Sou um entre muitos.

Eu não devo nada a ninguém. Apesar de me sentir cansado, levanto-me diariamente com a mesma vontade que tinha há vinte e cinco anos atrás, quando comecei a trabalhar nesta área. Estar com os alunos ainda é bom, ainda me faz sorrir e ainda me faz sentir especial. Continuo a ser um priveligiado, sem dúvida.

O meu cansaço é outro.  O que me cansa é ter que fazer contas de cabeça. Contas para isto e para aquilo. Contas para mais isto que não estava previsto e para aqueloutro que terá de ficar para outras calendas. Cansa-me e desgasta-me não poder usufruir da vida que me resta. Cansa-me e desilude-me a vida que vou tendo. Ter duas crianças em idade de descoberta, que não podem descobrir tudo aquilo que achamos que elas poderiam… descobrir… não é nada bom. E não estou a falar de bens materiais, embora as viagens tenham um preço, mas estamos a falar de vivências básicas que não lhes podemos proporcionar, como uma ida ao teatro, um espectáculo, um concerto ou um mero jantar num local mais especial e encantador. Não temos dinheiro para este tipo de acontecimentos…

 

Ok! Podemos sempre pegar numa manta e numa bola e fazer um picnic no meio da mata, comer o belo do arroz de frango, beber dois litros de vinho e dormir uma sesta enquanto as crianças jogam às cartas… mas acabamos de sair da estação invernosa… e nem isso conseguimos fazer…

Isto não é viver. É cansaço. Cansaço puro.

O que nos vale?

As pessoas que nos rodeiam!

Era aqui que eu queria chegar.

Porque as pessoas são o mais importante que podemos encontrar nesta vida.

E não! Não estou numa qualquer seita psicoincubadoradequalquercoisa… deusmelivre…

Acho mesmo que as pessoas são o que de melhor podemos encontrar neste mundo. Eu tenho tido a sorte de encontrar boas pessoas. Sou um felizardo. Não me canso de o afirmar!

Por esta razão é que foi extremamente difícil para mim concorrer. Ao fim de vinte anos na mesma escola. Não estou lá há dois anos. São mesmo vinte anos! Tenho raízes na minha escola. Não no sentido de controlar seja lá o que for, muito pelo contrário, nunca sei as novidades… e apenas tento ser um bom profissional, mas criei as minhas raízes com as pessoas boas que a minha escola tem. E agora custou. Pese embora a ideia que não vou sair porque apenas concorri para uma escola e não vou conseguir vaga mas foi uma decisão muito custosa. Tinha que tomar esta decisão porque estou cansado de não ter dinheiro e se mudasse para mais perto sempre conseguia gastar menos uma pipa de massa em transportes. Também tinha de tomar esta decisãom porque estou a ficar velhote e com menos capacidade para me meter em cima de uma mota, em pleno inverno, para ir trabalhar para conseguir gastar uma outra pipa de massa, mais pequena mas não menos importante. Isto é cansaço, puro cansaço.

Ah, e tal, até parece que se está a tentar justificar perante as pessoas de quem gosta para o facto de ter concorrido… Não, não estou. Essas pessoas sabem que eu vou continuar o mesmo, como também sabem que eu não devo nada a ninguém e se sair da escola vou estar sempre presente.

E para quem teve a paciência de chegar até aqui, já agora, se carregar aqui poderá usufruir de duas horas de um belo sheik, admoestado por um velhote, menos velhote do que eu, mas que faz muito mais sucesso do que eu.

4 thoughts on “Para que conste.

  1. GuGu

    No my friend, não estás a ficar velho, velhos são os trapo, isso são cousas que andam a rondar o cérebro. Já agora eu li até à palavra “aqui” e gostei da bela da imagem. Parabéns

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