A imagem, senhores, a imagem…

A semana passada li uma pequena notícia, acho eu que foi no Público online, que dava conta dos resultados de uma sondagem feita recentemente. Qual era a sondagem? Qual? Essa mesma! Era mesmo sobre a contagem do tempo de serviço dos professores. Queriam saber se o povo português concorda com a contagem do tempo de serviço para efeitos de progressão de serviço, mais concretamente sobre os nove anos, quatro meses e dois dias! Assim, a frio! Sem contextualização de qualquer espécie! Aliás, contextualização? Muitos devem ter-se questionado acerca de uma eventual contextualização sobre este assunto… mas para quê? A pergunta era bem clara… e SETENTA por cento da população portuguesa respondeu que NÃO, não senhora, os professores não devem ser tratados de forma diferente.

Apesar de não ser bem esta a pergunta, esta ideia foi o mote da caixa de comentários… Ok, já todos sabemos que as caixas de comentários são verdadeiros antros de estupidez, cretinice e inveja… e não digo isto por causa dos resultados e respectivos comentários serem no sentido oposto que eu acho que deveriam seguir. Apenas sei do que estou a falar pois, quando tenho algum tempo, entretenho-me a ler o que nas caixas de comentários deste país à beira mar plantado se vai escrevendo… e acreditem que é hilariante pois espelham o que realmente se passa na cabecinha de muita gente.

E SETENTA por cento é muita gente, são quase o equivalente aos sete milhões de portugueses que professam a mesma ideia, a mesma fé… onde é que eu já ouvi qualquer coisa semelhante…? (piadinha fácil e trista sobre benfiquistas e digna de uma caixa de comentários…). Seguindo com o assunto, todos sabemos que as sondagens são altamente manipuláveis e que valem o que valem mas, neste caso, não devemos andar muito longe da verdade, ou seja, não me admiro nada que esta malta toda pense assim e que esteja contra a classe docente. Já não é de agora. É como aquele anúncio do brandy Constantino “A fama que vem de longa…” coisa para os mais velhos saberem…

Esta atitude contra a classe docente tem-se vindo a enraizar na sociedade portuguesa faz muito tempo. Começou tudo com as “férias”… Ah e tal, os professores têm “férias” no Natal, depois têm “férias” na Páscoa e acabam em beleza com as “férias grandes”… Quem anda nesta vida, sabe perfeitamente que não é nada assim e quem tem realmente férias são… os alunos… esses mesmos personagens que são a razão de ser professor. Sem eles, não são precisos professores, certo? Por outro lado, são também os alunos, os tais que precisam mesmo de férias, que ficam em casa, sozinhos, sem nada para fazer e que deixam os pais à beira de um ataque de nervos porque não sabem como resolver o problema. Seria mesmo bom que em vez de estarem em casa, vá-se lá saber a fazerem o quê… os mantivessem nas escolas, sossegaditos e sem aborrecer ninguém… Mas não pode ser…

E a animosidade começou por aí. Depois passou para os altos ordenados que os professores auferiam que, na realidade, não são como as pessoas acham e só no final da carreira têm valores acima da média. Nos tempos que correm, a maior parte dos professores do quadro não vão, sequer, ficar perto do topo da carreira precisamente por causa do tempo que esteve congelado não contar para a progressão. Mas voltando à questão remuneratória, as pessoas esquecem-se que grande parte dos professores tem ou teve que percorrer centenas de quilómetros para poder trabalhar, muitas vezes com duas casas para pagar porque a distância entre a sua habitação e o local de trabalho é enorme e têm mesmo que por lá ficar… com prejuízos enormes em termos familiares, emocionais e monetários pois não têm qualquer tipo de subsídios ou ajudas… fossem eles deputados ou juízes…

A imagem construída acerca dos professores foi sofrendo acrescentos… diversificados… e, na minha opinião, plantados por determinados interesses instalados na profissão. A classe docente sempre foi conhecida por não ser unida, demasiadas cabeças pensantes que não conseguem perceber qual o rumo a tomar perante os desafios que ao longo dos tempos foram surgindo.. Já todos nós conhecemos aquela expressão “Em terra de cegos, quem tem olho é rei”… Foi mais ou menos isto que sucedeu. Cada um virado para seu lado e quem ganha força? Quem? Precisamente! O homem do bigode que agora tem barba! Paulatinamente foi levando a água ao seu moinho, defendendo os interesses de uns quantos e com uma agenda política bem definida, não necessariamente de acordo com as necessidades e aspirações da classe docente. Fazer carreira sindicalista tem destas coisas… e o poder sobe à cabeça…

Os sindicatos são extremamente importantes no conjunto mas não podem ser incompetentes. Porque o são! Têm uma data de pessoas a trabalhar, sem componente lectiva, como é o caso do homem do bigode que agora tem barba, e não fazem o trabalho como deve ser. Passando por cima de anos e anos de baboseira sindical, não faz sentido para ninguém o que se tem registado durante as pretensas reuniões com o ME, nomeadamente a última, em que saíram de lá sem qualquer alternativa ou outra proposta que não fosse a de irmos todos de férias e depois, em setembro, logo se veria… Não foram capazes de apresentar uma conta real sobre o custo das progressões, por quantos anos se deveria dividir a dita cuja da progressão? Eu não me revejo neste tipo de posições. Como eu, a maior parte dos professores com quem vou trocando ideias. Muito mais agora que surgiu um novo sindicato, alternativo a este mecanismo instalado e que veio dar um abanão como já não se via há muito tempo. Esta malta nova, deste novo sindicato, tem um discurso diferente, menos cassete e mais objectividade e pretende dar uma outra imagem, uma nova imagem, dos professores.

Vamos esperar para ver, até porque hoje era suposto acontecer mais uma reunião institucional…

  • Nota: eu não sou filiado no STOP ou em qualquer outro organismo.

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