Arquivo mensal: Janeiro 2019

Vou deixar para depois porque não sei… ainda… o assunto…

Final de tarde, a ouvir Gus Gus e a pensar na vida. O ingrediente necessário porque pensar na vida custa e não há nada como um belo sheik para soltar tudo aquilo que temos de mais primitivo dentro de nós. Assim, de repente, parece assustador. Será que o rapaz é mesmo primitivo? Assustador? Pensam vocês, que se limitam a ler estas palavras sem me conhecerem de lado nenhum… já que presunção e água benta eu posso distribuir como quero e, assim, achar que tenho outras pessoas para além dos meus amigos chegados que perdem o seu tempo a ler estes textozinhos do coração… e esses sabem que eu sou tudo isso e mais alguma coisa.

Devia estar a fazer outras coisas. Devia estar a elaborar um teste para História da Arte mas… não me apetece. Está meio feito e amanhã ainda é dia, por isso, e como os dias estão a crescer vou pensar que a vida são dois dias, dos grandes.

E volto a olhar para trás.

Para a minha vida.

Para onde eu fui olhar. Tenho sempre um embaraço enorme de falar sobre a minha vida. Acho mesmo que é um daqueles complexos judaico-cristão que me meteram na cabeça quando eu era pequenino. Deve ter ficado gravado cá dentro. É preciso muito azar porque, logo eu, que não tenho nada a ver com a moral judaico-cristã… Mas não consigo olhar para trás sem me sentir inibido. E não consigo mesmo perceber porquê. Os meus pais nunca foram de missas e quando eu fugi da catequese e o padre foi lá a casa queixar-se eles nem sequer me repreenderam à frente do mano da batina… e nunca mais me disseram para eu ir receber os ensinamentos… porque sabiam que eu queria mesmo era ir ver os jogos do Ramaldense, sim, esse clube mítico da cidade do Porto onde começou a jogar o Humberto Coelho… No Ramaldense os jogos eram sempre animados, muita sarrafada e muito vernáculo. Muito melhor que a cena do mano da batina. Adorava ir ver aqueles jogos. Estamos a falar de há muitas décadas atrás, era eu ganapo, que andava na rua e brincava na rua. Esta era a parte infinitivamente (esta palavra não me parece muito acertada mas é o que se arranja…) superior aos tempos de hoje. Podíamos não ter nada de jeito, uns sapatos para o ano inteiro, uns calções pelo joelho, umas camisolas daquelas que não lembram ao diabo e um cabelinho cortado à se te apanho… (sim, começa por um efe…) e andávamos à guna nos eléctricos e à fruta nas quintas do Porto… digamos que foi uma infância sem grandes coisas, sempre encardido e com as unhas cheias de terra… mas com um sorriso enorme. Foram outros tempos, nem melhores nem piores do que os actuais. Foram os meus tempos.

Acho que o problema é outro.

Tenho vivido a vida de uma forma intensa. A minha vida. É a única que eu tenho. É intensa para mim. Que posso fazer? Pode ser tudo o que os outros quiserem mas para mim é a minha realidade. Acho que é assim para toda a gente. Temos a mania que somos especiais. Que temos qualquer coisa de je ne sais pas quoi…? e que os outros não têm… no meu caso sei que os outros têm mas que eu também tenho. Que se vai fazer? Parece uma verdadeira contradição com os ditos cujos preconceitos judaico-cristãos mas, no meu caso, não são porque eu tenho a consciência do que sou, só não gosto de o mostrar… a tal parvoíce JC…

Mas é uma parvoíce própria da minha geração. Sim, sou daquela geração que estava imediatamente abaixo daquela que governou o país durante estes quarenta e tal anos e que não teve a possibilidade de lá chegar porque aquela malta toda agarrou-se ao poder e de lá nunca mais saíram. Se eu pensar de uma forma meramente egoísta, facilmente chego à conclusão que ainda bem que tal não sucedeu, que não tive hipótese. A maior parte dessa malta que se apoderou do país sem estar minimamente preparada deu cabo disto tudo. Não é inveja. É apenas a constatação de um facto. Este país é um país de corruptos devido a esta classe política que nos (des)governa e a minha geração assistiu sempre a tudo isto de bancada, por isso estou de consciência tranquila, pobre mas de consciência mais do que tranquila.

E não é por isso que sou melhor.

Nem pior.

Afinal, eu é mais bolos.

O título é o menos importante.

Começo a olhar para trás. Não é por cima do ombro porque não devo nada a ninguém. É mesmo para o que ficou para trás. Do que vivi e não vivi. E é bom olhar para trás.

A minha vida é como tantas outras. Somos tantos, mas tantos que até me custa estar para aqui a escrever como se fosse o único ser humano neste raio de planeta. Não sou mesmo e mais vale continuar a escrever sem pensar nisso. É assim e pronto (na Póvoa de Varzim diz-se prontos, mas isso agora também não interessa nada) mais vale fazer de conta que este assunto não passa de um dogma. Sim, tal e qual aqueles que a igreja Católica Apostólica Romana nos foi impingindo ao longo destes séculos de existência DC.

Aliás, acho mesmo que todo o ser humano faz de conta que é único. Original e inigualável. Sem sombra de dúvida. Afinal andamos todos cá para isso. Para sermos reconhecidos pelos outros seres humanos. Quem não gosta de uma palmadinha nas costas? De um afago do ego? De uma relação sexual com direito a cigarro no final e a olhar para as estrelas? Quem? Pois é! Todos! E o mais incrível é que também vamos todos para o mesmo local aprazível. Independentemente da raça, credo, clube (claro que quem for do fêcêpê tem direito a um extra…) idade, do tipo de bigode, descontos de irs, tamanho daquilo, se o rabo é gostoso, nada disso interessa. Vamos mesmo para o espaço. O espaço é um termo fofo. Não chateia ninguém. Ninguém sabe o que se lá passa. Pode ser bom ou mau. Pode ser frio ou quentinho. Às vezes tem luz outras vezes é escuro. Pronto. É como nós quisermos pensar que seja. Portanto, fica ao critério de cada um. Se formos optimistas e com verdadeiro sentido positivista vamos achar que o espaço é realmente o local ideal para nós. Se não formos assim, positivistas, também não me interessa mesmo nada e quem for assim que se desenrasque porque eu não quero saber de pessoas negativistas…

Mas voltando ao início.

Olhar para trás nesta fase da minha vida é fantástico. Eu sei que muita gente odeia esta palavra, e eu estou incluído, mas não consigo encontrar outra. Tenho pena mas não consigo. Posso acrescentar que a cena fantástica é na minha cabeça e que, se calhar, mais ninguém vai ter paciência para tentar perceber este fenómeno fantástico… por isso a coisa fica entre nós.

Assim, de repente (na Póvoa escreve-se derrepente mas eu adoro a Póvoa de Varzim…) dá-me a nítida sensação que as pessoas vão achar que estamos na presença de mais um maluquinho, e eu adoro a palavra maluquinho tal como adoro a Póvoa de Varzim, que está a libertar os seus sentimentos, tal e qual um adolescente do final do século vinte… que vive os seus dias perfeitos a achar que o mundo é um local bem frequentado… E eu fui um desses adolescentes.

Nasci em 1961. Aquele ano que se lê de pernas para o ar ou da maneira normal e que dá sempre o mesmo… sim é um ano longínquo mas bonito e especial. Porquê? Porque eu nasci em 1961. Bem sei que nasci na companhia de muitos outros milhões de seres humanos mas, todos esses, não interessam ao menino Jesus ( na Póvoa diz-se Alfredo mas isso não interessa nada agora…) e por isso acho que sou um velhinho (como diz o meu fofinho colega de trabalho) que necessita de algum sheik especial, como eu.

E continuando a achar que a minha vida merece ser contada… fico a pensar que posso escrever sobre o assunto… um dia destes…

Provavelmente…

Nove meses se passaram, mais coisa menos coisa, desde que escrevi por estas bandas. Tem sido recorrente. Ao longo dos dois últimos anos não tenho tido disponibilidade mental para escrever, seja lá o que for. Não é que tenha deixado de pensar nas coisas, no mundo, mas fui perdendo o hábito e agora estou como o tolo no meio da ponte… acabo com isto ou continuo?

Logo se verá!

Para já vou escrevendo e no final do texto… Logo se verá!

É uma coisa que eu gosto de fazer. Empurrar com a barriga para a frente e resolver o que tenho que resolver quando me apetecer. Eu sei. É um defeito! Mas, se fosse só esse… seria bem mais feliz. Não é que não seja feliz. O que me aborrece é chegar a esta idade (quase sessenta anos), perceber que o caminho ainda está longe e que a minha condição de ser humano é apenas sofrível. Tenho a sensação que o tempo me começa a fugir. E não, não é nenhuma crise de meia idade (avançada)… é antes ter a noção de que ainda perco muito tempo com coisas e assuntos que não interessam nem ao menino Jesus. Esse mesmo. O que nasceu de uma senhora virgem (e não se zanguem comigo porque não fui eu que criei essa história… é assim e não se fala mais no assunto). Já dizia o tal senhor que nos devemos amar. Na parte da multiplicação… acho que devemos ter mais calma… aprender a contar pelos dedos…

Lá está. A mania de contextualizar tudo e de querer ter um discurso coerente leva-me ao devaneio. Não o sexual, que seria bem mais engraçado, mas àquele devaneio que só nos faz perder tempo nesta vida. E acreditem que eu sou bem objectivo. Agora imaginem se eu não fosse objectivo. Em vez destas catorze linhas de introdução já estariam escritas umas vinte e oito ou coisa que o valha. O interesse no raio das linhas seria o que cada um lhes quisesse dar mas, assim, eu sempre posso aligeirar o sofrimento da leitura.

É verdade. Vou fazer aquilo que toda a gente gosta de fazer.

Já perceberam?

Claro!

Vou falar da minha vida!

Quem não tem um espelho em casa? Daqueles bonitos. Daqueles que são quase como que uma alma gémea e para o qual falamos baixinho (não vá a pessoa que acorda todos os dias do outro lado da cama ouvir) e nos convencemos que somos mesmo do outro mundo…

Passamos a vida a querer ser ouvidos.

E eu não sou diferente…

Quer dizer, não exageremos porque como eu não há mais ninguém!

Eu sei. Por vezes comporto-me como um verdadeiro adolescente tardio. Já sem borbulhas mas com a mesma vontade… daquilo… da eterna descoberta… daquilo… de poder falar… daquilo…

Obalhamedeus!

Eu comecei o texto a pensar que ia escrever sobre a minha próxima viagem… e estou a escrever sobre… aquilo… a pensar… naquilo… e com a consciência de que devo concentrar-me naqueloutro…

Ajudai-me senhor que eu quero voltar a trilhar o caminho.

Sim, eu vou fazer uma viagem.

Vou a Cracóvia. Cumprir uma vontade com muitos anos. Não foi difícil convencer os personagens que habitam cá por casa. Muito pelo contrário. Sempre quiseram poder lá ir. O morcão era mesmo eu que não me decidia a marcar tudo (mas o morcão, por ser demasiado objectivo, fazia contas à vida e só agora é que foi possível marcar e pagar tudo…) mas lá vamos nós.

Está-se mesmo a ver o que lá vamos fazer… Não vai ser só divertimento. Claro que vamos lá para visitarmos os campos de extermínio nazis porque é bom que nunca esqueçamos o que é que aquelas pessoas fizeram. Sim. Eram pessoas como nós, que foram levadas num movimento colectivo de anormalidade e histeria e que deixaram vir ao de cima o que de pior tinham dentro delas. A não esquecer!

Este é o lado sério da cumbersa… O meu lado sério. Que é pequeno. Todo o resto do meu ser não é sério. Não é para ser levado a sério. Só me dá vontade de rir. Mas que posso eu fazer? Já lá vão cinquenta e sete linhas de pura objectividade…

Tentando.

Segunda feira, da parte da tarde, é quando eu tenho sossego. Estou no escritório. Pareço um homem a fazer o que quer. As adolescentes estão a estudar? enfiadas nos respectivos quartos. A minha rica senhora (sim, um termo que já não utilizava há já algum tempo) está a trabalhar e eu? eu aqui a escrever palermices. Com prazer.

Por falar em prazer. Já deu para perceber que as imagens não são as do costume… acabaram-se as imagens sobre… aquilo… por falar… naquilo…