Vou deixar para depois porque não sei… ainda… o assunto…

Final de tarde, a ouvir Gus Gus e a pensar na vida. O ingrediente necessário porque pensar na vida custa e não há nada como um belo sheik para soltar tudo aquilo que temos de mais primitivo dentro de nós. Assim, de repente, parece assustador. Será que o rapaz é mesmo primitivo? Assustador? Pensam vocês, que se limitam a ler estas palavras sem me conhecerem de lado nenhum… já que presunção e água benta eu posso distribuir como quero e, assim, achar que tenho outras pessoas para além dos meus amigos chegados que perdem o seu tempo a ler estes textozinhos do coração… e esses sabem que eu sou tudo isso e mais alguma coisa.

Devia estar a fazer outras coisas. Devia estar a elaborar um teste para História da Arte mas… não me apetece. Está meio feito e amanhã ainda é dia, por isso, e como os dias estão a crescer vou pensar que a vida são dois dias, dos grandes.

E volto a olhar para trás.

Para a minha vida.

Para onde eu fui olhar. Tenho sempre um embaraço enorme de falar sobre a minha vida. Acho mesmo que é um daqueles complexos judaico-cristão que me meteram na cabeça quando eu era pequenino. Deve ter ficado gravado cá dentro. É preciso muito azar porque, logo eu, que não tenho nada a ver com a moral judaico-cristã… Mas não consigo olhar para trás sem me sentir inibido. E não consigo mesmo perceber porquê. Os meus pais nunca foram de missas e quando eu fugi da catequese e o padre foi lá a casa queixar-se eles nem sequer me repreenderam à frente do mano da batina… e nunca mais me disseram para eu ir receber os ensinamentos… porque sabiam que eu queria mesmo era ir ver os jogos do Ramaldense, sim, esse clube mítico da cidade do Porto onde começou a jogar o Humberto Coelho… No Ramaldense os jogos eram sempre animados, muita sarrafada e muito vernáculo. Muito melhor que a cena do mano da batina. Adorava ir ver aqueles jogos. Estamos a falar de há muitas décadas atrás, era eu ganapo, que andava na rua e brincava na rua. Esta era a parte infinitivamente (esta palavra não me parece muito acertada mas é o que se arranja…) superior aos tempos de hoje. Podíamos não ter nada de jeito, uns sapatos para o ano inteiro, uns calções pelo joelho, umas camisolas daquelas que não lembram ao diabo e um cabelinho cortado à se te apanho… (sim, começa por um efe…) e andávamos à guna nos eléctricos e à fruta nas quintas do Porto… digamos que foi uma infância sem grandes coisas, sempre encardido e com as unhas cheias de terra… mas com um sorriso enorme. Foram outros tempos, nem melhores nem piores do que os actuais. Foram os meus tempos.

Acho que o problema é outro.

Tenho vivido a vida de uma forma intensa. A minha vida. É a única que eu tenho. É intensa para mim. Que posso fazer? Pode ser tudo o que os outros quiserem mas para mim é a minha realidade. Acho que é assim para toda a gente. Temos a mania que somos especiais. Que temos qualquer coisa de je ne sais pas quoi…? e que os outros não têm… no meu caso sei que os outros têm mas que eu também tenho. Que se vai fazer? Parece uma verdadeira contradição com os ditos cujos preconceitos judaico-cristãos mas, no meu caso, não são porque eu tenho a consciência do que sou, só não gosto de o mostrar… a tal parvoíce JC…

Mas é uma parvoíce própria da minha geração. Sim, sou daquela geração que estava imediatamente abaixo daquela que governou o país durante estes quarenta e tal anos e que não teve a possibilidade de lá chegar porque aquela malta toda agarrou-se ao poder e de lá nunca mais saíram. Se eu pensar de uma forma meramente egoísta, facilmente chego à conclusão que ainda bem que tal não sucedeu, que não tive hipótese. A maior parte dessa malta que se apoderou do país sem estar minimamente preparada deu cabo disto tudo. Não é inveja. É apenas a constatação de um facto. Este país é um país de corruptos devido a esta classe política que nos (des)governa e a minha geração assistiu sempre a tudo isto de bancada, por isso estou de consciência tranquila, pobre mas de consciência mais do que tranquila.

E não é por isso que sou melhor.

Nem pior.

Afinal, eu é mais bolos.

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