Arquivo mensal: Fevereiro 2019

A vida é uma perfeita palermice. Já repararam?

Mas afinal, o que é que andamos aqui a fazer. Já sabemos que vamos todos morrer. Todos nós sabemos que o caminho é sempre o mesmo. Quero dizer, vai dar sempre ao mesmo sítio, não é verdade? E no entanto… cá andamos nós à procura. Não se sabe lá muito bem do quê. Nascemos e vamos crescendo, por ali fora, por um caminho desconhecido, até começarmos a ter alguma consciência do que é a vida. E alguma é mesmo a palavra certa porque na realidade apenas tentamos não andar aos encontrões, às pisadelas e às cotoveladas por esse mundo fora. Digamos que não é fácil. Mas que tentamos, lá isso é verdade. Quem é que nunca se pôs em frente ao espelho, pelas sete da manhã, depois de tomar o belo do banho matinal, a questionar o mundo e a afirmar convictamente que o dia vai ser mesmo do outro mundo? Com convicção! Bem, eu não quero parecer convencido e expert em estatística mas quer-me parecer que uma grande parte dos seres humanos que fui conhecendo ao longo da minha vida, pelo menos uma vez na vida, pensaram assim, nem que fosse apenas quando acordaram com alguém ao lado que… não perceberam lá muito bem como apareceu… por ali… São cenas que acontecem. Mas voltando atrás, porque senão a coisa vai descambar em conteúdo sexual pouco explícito e dúbio, o que não é nada aconselhável.

O que importa, mesmo, e apesar de ser completamente inexplicável. O que importa mesmo é que acreditemos que o dia de amanhã vai ser mesmo do outro mundo. Não interessa mesmo nada que todos saibamos que vamos morrer da mesma maneira. Não adianta nada, mesmo nada. Com o tempo vamos aceitando os dogmas que são da nossa conveniência. O meu verdadeiro dogma não tem nada a ver com a religião. Aliás, a religião é uma cena que me aborrece profundamente. Não consigo perceber como não se consegue viver para além da religião. Quero dizer. Não consigo perceber como foi possível o ser humano chegar ao ponto de viver em função ou condicionado, como quiserem chamar, pela religião. Bem sei que é uma conversa para mangas, as mangas da túnica de Jesus… larguitas…

Mas Jesus não é para aqui chamado.

Ao longo da minha vida fui percebendo que cada ser humano aprende a encontrar o caminho que é mais conveniente para si. Mais aconchegante. Onde se sente mais confortável. É legítimo. Ou não é? Claro que é. Aliás, tenho a ligeira impressão de que ninguém é melhor do que… o outro… E se eu não tenho a capacidade mental para aceitar os dogmas religiosos das outras pessoas não poderei pensar que, só por isso, sou muito melhor do que elas.

Continuo a parecer um adolescente tardio.

Mas é o que dá trabalhar o dia inteiro. Chega-se a casa cansado. Com vontade de nem sequer ouvir uma mosca das pequeninas. Mas a vida não é bem assim, pelo menos para quem não acredita em dogmas religiosos…

Quando a vida anda para trás.

Começar um texto com uma negação, seja ela qual for, não me parece o mais adequado mas, mesmo assim, não posso deixar de realçar que a minha vida não anda assim tanto para trás. Tenhamos saúde e boa disposição e tudo o mais são penars, como dizia o outro. Claro que em momentos menos bons todo o ser humano tem tendência para achar que a sua vida é um repositório de coisas más. Na realidade não será bem assim. Tendemos a exagerar. Principalmente quando as coisas correm mal com o nosso bem estar. E o que é o bem estar? Quando se leva uma vida modesta, como é o meu caso, em que os pequenos prazeres são feitos de pequenos nadas… que me vão deixando à tona… mas que se vão perdendo… e me deixam desesperado…

Caramba! Caramba! Caramba! É uma palavra que quase já não se usa e que pode passar por meio idiota, então repetida três vezes, mas… que traduz o meu estado de espírito! A de um perfeito idiota a olhar para a vida com os olhitos daquele boi que olha para um palácio, só que menos encorpado.

Por vezes tenho a nítida sensação de que continuo um verdadeiro adolescente, tardio, mas adolescente. Não consigo controlar as minhas emoções e vivo tudo na flor da pele. Levo sempre tudo muito a peito. Sinto tudo com muita intensidade e, obalhamedeus, já não há paciência para pessoas assim. Mas eu continuo um personagem de excessos. Se falo, falo em excesso. Se danço, danço em excesso. Se penso naquilo, penso em excesso. Se é para comer coisas boas, é para comer em excesso. Se bebo, bebo em excesso. Se me entrego, entrego-me em excesso. Qualquer dia morro. Não tem nada que saber. Dizem os cientistas que os exageros fazem mal. À saúde. Dizem eles. Que devemos ter cuidado, a partir de uma certa idade. Dizem eles. Que devemos ouvir o belo sheik dentro dos limites aconselhados. Aconselhados? E então as vibrações a mexerem com o corpo? Dizem eles. Se abrir uma cena escocesa tente não passar de metade. Metade? Ok. Mas para quê? Para ficar a meio? E depois? O devaneio? Onde é que ele vai parar?

Não gosto de pensar assim.

É uma coisa que me aborrece.