Arquivo mensal: Maio 2019

Texto sem imagens. Sim. Sem imagens.

Quatro dias se passaram. Quatro dias? Nos tempos que correm é uma distância temporal muito curta para o meu gosto. Escrever o que quer que seja com a distância temporal de quatro dias é um risco enorme. Corro mesmo o risco de ainda parecer mais inócuo do que aquilo que já sou. Alturas houve em que achava que devia escrever todos os dias. Palermices de um cinquentão decadente. Com o tempo fui aprendendo que não adianta escrever seja o que for. Ninguém vai ler. Por isso, e como percebi que escrever é um assunto pessoal, passei a ter o meu tempo…pessoal. De acordo com as minhas vontades.

Com as minhas vontades?

Quero dizer! Com as vontades que posso partilhar neste espaço. Não vou, nem posso, descambar porque sou professor numa escola pública e, noblesse oblige. Mas a minha sorte é que ninguém vem cá ler… ou, pelo menos, quem vier cá espreitar sabe ao que vem… no entanto… não posso posso falar dos meus desejos sexuais mais íntimos ou das vontades escondidas. Não seria compreendido. Todos sabemos disso. Eu bem queria acreditar que não receberia qualquer tipo de crítica se me pusesse para aqui a falar da intensidade muscular que o sexo anal exige ou da dificuldade em respirar quando o sexo oral é mais intenso do que o costume. São assuntos susceptíveis de más interpretações. Todos sabemos que o sexo oral faz parte da rotina de qualquer adulto mas não fica nada bem imaginar que determinada pessoa que conhecemos muito bem tem como prática habitual o sexo oral.

Sexo oral:

“Sexo oral consiste em toda a atividade sexual no qual ocorre estímulo dos genitais com a boca, a língua e com a garganta. Quando é feito no homem normalmente é chamada felação/Fellatio e quando é feito na mulher se chama cunilíngua/Cunnilingus.”

Como será que vamos cumprimentar essa pessoa?

Tenho um amigo (e não vou especificar se era grande amigo ou amigo normal, ele vai saber) que tinha umas cenas regulares com um outro amigo, que não eu…

Pás… pás… pás… aquilo era sempre a aviar mas quando chegava à hora do sexo oral… a coisa corria sempre mal porque a tal companhia regular, era casado, e tinha filhos, e não queria chegar a casa e ter que beijar os filhos com a mesma boca que tinha andado na desgraça do sexo oral…

Não é delicioso?

Já se imaginaram?

Pois.

Somos todos tão diferentes…

Mas dentro da diferença todos nós, como verdadeiros sucedâneos da cultura judaico cristã temos que nos resguardar das cenas… somos todos muito modernos quando a coisa toca na bunda dos outros…

O sexo é um verdadeiro não assunto. Andamos todos a pensar nesse assunto, o do sexo, mas parece que ninguém se sente “confortável” para se meter de bruços e tratar do verdadeiro… assunto…

E eu nem percebo muito bem porque é que estou a perder tempo com este não assunto. No fim de contas, o que eu quero mesmo é ir acabar de fazer uma bela de uma francesinha, com um molho super picante, que me vai levar ao céu e, quem sabe, às estrelas.

Ainda faltam oito anos!

O ano lectivo está a chegar ao fim. Mais um! À minha conta, são quase trinta. Não são muitos, não são poucos, são alguns… são bastantes menina. Há muito boa gentinha que tem mais, muitos mais, anos de serviço no ensino. Eu comecei tarde. Trabalhei noutros sítios antes de vir para o ensino, foi o que me valeu e me deu a sanidade mental para me meter nesta embrulhada. Fui atleta a tempo inteiro. Fui fiel de armazém. Fui emigrante na restauração. Fui actor numa companhia de teatro com muita itinerância (Os Comediantes). Fui escriturário numa secretaria de uns Bombeiros Voluntários. Fui estudante trabalhador. Fui vivendo intensamente. E, finalmente, tornei-me um professor. Foram cinco anos de formação superior mais dois anos de formação específica, num estágio com aulas na faculdade e outras aulas assistidas. Fiquei com a certeza que a minha aprendizagem foi consistente. E assim comecei o meu percurso no ensino. Cheio de vontade.

Há trinta anos atrás era tudo muito diferente. Para o bem e para o mal.

Eu era muito menos sonhador do que sou hoje. Naquela altura a tarefa era muito menos exigente. Não estou a falar pedagogicamente ou dos conteúdos que tínhamos que ensinar. Nada disso. Estou a falar da matéria prima. Os alunos eram mais, como hei-de dizer, mais sumarentos. Eram seres humanos mais completos e a relação era mais intensa. Não quero cair no erro de dizer que eram melhores. Seria uma palermice. Apenas eram muito diferentes dos alunos que hoje nos aparecem nas salas de aula. Acima de tudo sinto falta do sentido crítico. Hoje a coisa é muito esbatida. Aparece um ou outro que sai do padrão normalizado a que esta juventude nos tem vindo a habituar. São mesmo diferentes. E é por isso que eu acho que estou muito mais sonhador. Continuo a acreditar que vou conseguir chegar a meia dúzia deles. Sim, eu sei. Pode parecer muita presunção da minha parte achar que sou um ser humano especial e que tenho uma capacidade extrasensorial… que vai fazer chegar a luz aos ditos cujos… Mas, digam lá o que quiserem, eu acho mesmo que, para eles, tenho que acrescentar alguma coisa. Se não for assim, se não acreditar que tal é possível, mais vale ir para um retiro espiritual, para o meio das freiras, nossas amigas, e pensar no sentido da vida.

Isso sou eu.

Mas como eu há muitos mais.

Muitos mais professores que não se limitam a passar conhecimento.

O ensino é muito mais do que isso.

Seria uma longa conversa…

Voltemos ao início do texto.

O ano lectivo está a chegar ao fim. Foi um longo ano. Um ano de aulas, de exposição, de discussão, de muito trabalho, de tudo aquilo que uma disciplina como a minha implica. Mas também foi um ano marcado pela falta de reconhecimento que esta profissão merece. Eu não necessito que me digam que sou muito importante para a sociedade porque eu sei que a importância é sempre relativa e há sempre os imprescindíveis… mas foi apenas o culminar do não reconhecimento. Tem sido um percurso desencorajante. As expectativas iniciais de quem começa esta carreira. A colagem a uma imagem de boa vida. De quem passa a vida em férias. Dos ordenados altíssimos mas que na realidade não são mais do que normais. As agressões de que os professores são vítimas. Os insultos de pais e alunos. A falta de condições de trabalho. Todo este emaranhado de ruído à volta dos profissionais da educação cansam-me. Muito.

A sociedade, ou pelo menos aqueles que não fazem a mínima ideia de como funciona a educação em Portugal, acham que o caminho não se faz com os professores. Um dia vão perceber.