Arquivo da Categoria: A bela da arte.

Herberto Helder. Flash.

Há dias em que basta olhar de frente as gárgulas

para vê-las golfar sangue. É quando

a pedra está a prumo, quando a estaca

solar se crava atrás das casas e amadurece

como uma árvore.

Mas também ouvi a água bater directa

nas trevas. Por um abraço do sangue eu estava

condenado

ao extravio mortal. Era um dom que me fundia

à substância primária

do terror.

E à riqueza e energia. E à tremenda

doçura humana. Vejo algerozes escoando a massa

das cúpulas, a forma, supremas rosas de pedra

rotativa.

 

E que leão me beijou boca a boca, juba e cabelo

trançados numa chama única?

Esse beijo afundou-se-me até às unhas.

Aparelhou-me para besta

soberba, para o sono, o brilho, a desordem

ou a

carnificina. De que leite ardido, de que matriz

ou opulência terrena,

nos vem a danação? Se a pedra

tem uma raiz buscando a vida em que teias de carne,

há em cima um Deus agudo,

de fenda no casco, e braços tão abertos que apanha todo o basalto,

como uma estrela elementar. Atrás

das rosáceas

desabrochadas. Do movimento de estátuas

arcangélicas plantadas no refluxo

da pedra. Boca:

bolha de sangue.

 

E há uma palpitação soturna, uma

delicadeza no cerne: o osso vertebral que assenta

ao meio, no ânus:

o falo — e em torno

gira a catedral. Lenta dança de Deus, da escuridão

para o alto.

 

O leve poder da lua apenas queima os olhos.