Tem dias assim. Andava eu muito descontraído pelo Ikea, vendo umas camas aqui, uns sofás acolá, observando uns copos e umas panelas, quando de repente ouço: oh menino, oh menino. Primeiro achei que não seria nada comigo… por razões óbvias… mas afinal era mesmo para mim. Era uma senhora, que deveria ter uns cinquenta anos… portanto, da minha idade… que me estava a chamar para que eu ajudasse a ver um preço de uma chávena de café. Lá fui eu a sorrir. Mas a sorrir por duas razões: a primeira foi por causa do menino, claro está. A segunda foi mais hilariante. É que eu não levava os óculos e, com esta idade, não consigo ler as letrinhas pequeninas… tal como a senhora também não conseguia… mas lá estiquei o braço com o preço bem viradinho para mim e… inventei um preço que me pareceu real… fiz um comentário acerca das vantagens da chávena ser em metal e lá continuei para a secção dos candeeiros. Feliz e contente, a assobiar.
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Isto já não é como antigamente.
Eu sei lá menina, só sei que depois de uns dias tão bons e tão bem passados, tinha de começar a semana da pior maneira. Logo a abrir, com uma avaria do nosso carrinho pequenino. Novamente para a oficina e nem quero ver o que por aí vem. Carros japoneses… já eram e são iguais aos outros… avariam na mesma e à mesma cadência. Palpita-me que será desta vez que vou ter de comprar outro carro, pequenino e baratinho, porque não dava jeitinho nenhum meter-me numa despesa assim. Azar do caraças!
Vida dura.
Por falar em papeis. Como se não bastasse a saga dos aviõezinhos… agora tenho de arrumar a minha secretária. Que está ainda mais cheia de papeis, rascunhos, duplicados, capas… também tenho uma impressora, um furador que fura tudo fora do sítio, um agrafador que encrava, uma resma para a impressora, canetas, tesouras, colunas de som, um relógio que não sei muito bem o que lá está a fazer, livros, recibos de contas já pagas (as que estão por pagar ficam junto da porta de saída…), um saquinho com raízes de mandrágora (que um dia vão servir para fazer um chá precioso…), o belo copo de colecção com a bela da garrafa de malte, um portátil, um pilhão e mais não sei que mais. No fim sobra um espacinho para eu conseguir chegar ao teclado. Já não é mau, mas não é vida.
Aviõezinhos de papel.
Pronto. Avaliação do desempenho docente concluída. Avaliações concluídas. Alunos que iniciam os estágios amanhã. Ate fico com uma ligeira sensação de leveza, tal e qual uma freeze de limão, à espera de ser bebida. A pior parte do ano lectivo já passou, agora só falta a outra parte, a mais chata, aquela dos papeis e mais papeis. A minha escola gosta muito de papeis. Ama os papeis. Ficamos todos a sonhar com papeis e mais papeis. Sonhamos que nos embrulhamos em papeis, diversos tipos de papeis: coloridos, brilhantes, reciclados, de linhas, quadriculados, vegetais e outros que tais… Isto para não falar nas grelhas. A minha escola gosta muito de grelhas. Também sonhamos com grelhas. Grelhas de avaliação, grelhas de avaliação da avaliação, grelhas disto e grelhas daquilo, grelhas para enfiar no dossier… Uma verdadeira parafernália de grelhas e, qualquer dia, estamos a fazer umas grelhinhas para medir o tamanho das maminhas e das pilinhas de todos os colegas. Parece-me bem, por uma questão de estatística… mas cansa!
I start a joke.
Aliás, eu pergunto-me como vai ser possível elaborar um documento de auto-avaliação? Como é que eu vou conseguir auto-avaliar-me? Principalmente quando estou a ouvir Nick Cave? É bonito de se ouvir. Já não é tão bonito ter de me auto-avaliar. Não faz parte da minha forma de estar na vida. Nunca fez e interrogo-me porque é que tenho de o fazer agora. Quando as teclas me fogem e eu tenho dificuldade em encontrá-las.
Repetimos (com sotaque espanhol).
Amanhã recomeça o reviralho. Estou atoladinho de trabalho… que não consegui pôr em dia… porque tive outras coisas mais importantes para fazer. Hoje tem sido um dia muito proveitoso e só parei agorinha, para dar umas passas no meu cigarro electrónico, beber uma água fresca, comunicar um pouco com os dois seres humanos de pequena estatura que circulam cá por casa e dar uns beijos e uns apalpões na minha rica senhora que também anda entretida a fazer qualquer coisa que eu desconheço. Vai ser uma semaninha muito nesta onda. Tirando este pequeno pormenor, verifiquei que me esqueci de desejar a todos uma boa pascoa. É normal, mas não significa que deseje a todos uma má pascoa… só que, como não ligo absolutamente nada a esta coisa das procissões e dos andores e dos compassos e dos beijos nas cruzes e toda essa parafernália religiosa, esqueço-me dos outros, dos que ligam, por isso, mais vale tarde do que nunca: espero que tenham tido uma boa pascoa.
Radar.
Não, não estou em estado de choque pelos cinquenta anos. Estou mesmo de férias… e sem vontade de exercer qualquer tipo de actividade e, como se vê pelo discurso, com pouquíssima inspiração para escrever qualquer coisita interessante. Por isso e por outras coisas, vou aproveitar esta semana para ir à praia porque na próxima vem chuva e vou ter de preparar a papelada toda para a minha avaliação, que vai ter aulas assistidas e tudo… não sei muito bem para quê… mas tem mesmo de ser. Até lá… descanso, muito descanso.
Com pouca energia.
Desde ontem à noite que estou de cama. De molho. Com arrepios e cheio de frio. Com uma gripe daquelas, que não fazem sentido nesta altura do ano. Depois de umas suadelas valentes, que o meu amigo aspegic me fez dar, estou francamente melhor e amanhã já devo ir trabalhar. Para terminar o dia o nosso querido líder demite-se. A vida continua, mas sem ele a coisa vai ter menos piada…
Só saio daquela escola às 18.35…
Não estou fechado para balanço, mas a meditar…
Tenho andado com umas vontades. Não são vontades conhecidas. São umas vontades de fazer umas coisitas muito pessoais. Nada de mais, mas que me iriam dar algum consolo. Sem querer entrar naquele discurso da idade, mas já entrando, olho para trás e vejo muita satisfação pela vida que já vivi, mas também vejo algumas oportunidades desperdiçadas. Oportunidades poderá não ser bem a palavra exacta porque não gosto da palavra em si, pelo simples facto de me parecer estar sempre intimamente ligada com oportunismo. Manias. Mas, de facto, poderia ter feito mais, muito mais e com mais intensidade. Não calhou mas também não sofri grande coisa por isso mesmo, nem vou sofrer. Pelo contrário. Muito menos queria entrar na onda de “para a frente é que é o caminho” pois também não tenho pachorra para pessoas assim. É o que tiver de ser e assim será.








