Adília Lopes. Porque hoje é segunda feira.

Havia uma pessoa

que convidava outras pessoas

para lanchar com ela

ela fazia pudins complicados

tão complicados

que eram precisas mais duas pessoas

para os fazer

o que é muito perigoso

porque se três pessoas fazem a mesma coisa

ao mesmo tempo (mais ou menos)

ou morre a mais velha ou morre a mais nova

ela por esperar muito os convidados

arranjou as coisas de maneira

a ser sempre a do meio

entretanto as criadas iam morrendo

mas os convidados não apareciam

ela chegou mesmo a suspeitar

que nunca os tinha convidado

ou que nunca os tinha conhecido

comia ela os pudins com a criada que sobrava

e às vezes com uma barata

as criadas não achavam bem a barata

em cima da mesa

e a barata deixou de aparecer

ela com o desgosto passou a viver de maneira perigosa

fazia de maneira que as duas criadas

fossem ambas mais velhas do que ela

ou ambas mais novas

mas eram sempre as criadas a morrer

até que um dia sem ter feito nada por isso

morreu

então as criadas abriram a porta do armário

onde tinham fechado a barata

e a barata saiu de lá

muito magra

a caminhar a custo

e à medida que os convidados

iam aparecendo os convidados

iam pedindo desculpa às criadas

 

in “Obra”. Adília Lopes.

Adília Lopes.

Sou mulher

sou colher

sou boca

sou nova

sou velha

sou mãe

sou irmã

sou cristã

sou tua

sou minha

ai alminhas

ai maminhas

Santa Teresinha

do Menino Jesus

doutora da Igreja

Santa Teresa

de Jesus

doutora da Igreja

utopias de Charles Fourier

harmonias de Joseph Fourier

in Obra.

Adília Lopes

Rosa dentro da rosa dentro da rosa

azulejo iluminura filigrana

joelhos nuca sovacos unhas

não quero quebrar

o dom de estar viva

a doçura dos mistérios

o dom do teu corpo

o teu cheiro a tua voz

o teu olhar o teu sorriso

as minhas lembranças de ti

beijo repetidas vezes

a tua boca fechada

estás debruçado sobre mim

e sorris-me

somos bons um para o outro

posso ter filhos de ti

sabemos isso

 

in Obra.

Adília Lopes. Revisitada em Julho de 2009.

“Em 81 disse à Drª Manuela Brazette, psiquiatra, “Eu sou feia”. Ela disse-me “Não é ser feia. Não há pessoas feias. Não tem é atractivos sexuais”. Lembrei-me então do homem que em 74, tinha eu 14 anos, se cruzou comigo no Arco do Cego. Lembrei-me do homem, da cara do homem vagamente, mas lembrei-me muito bem do que ele me tinha dito ao passar por mim. Tinha-me dito “Lambia-te esse peitinho todo”. Lembrei-me também da meia-dúzia de outros homens que durante a minha adolescência me tinha dito quando eu passava “Coisinha boa” e “Borrachinho”. Ainda hoje me sinto profundamente agradecida a esses homens. Pensei que eles estavam a avacalhar, que eram uns porcalhões. Mas quem estava a avacalhar era a Drª Manuela Brazette, ela é que é uma porcalhona. Acho que um homem nunca consegue ser mau para uma mulher como outra mulher.”

in Obra.

De vez em quando, volto.

Milly chéri

tenho coisas

para te dizer

de viva voz

cartas de amor

nunca mais

agora só escrevo

cartas comerciais

Não quero

ter filhos

gosto muito

de foder

contigo

e com outros

mas de bebés

não gosto

uma vez

por outra

tem graça

mas sempre

não

os bebés deprimem-me

se engravidar

faço abortos

por muito

que me custe

e custa-me

muito

(um bebé é dom

do Espírito Santo)

Ficas

no castelo de Beja

e eu aqui

no convento

com vento

(as janelas

fecham mal

estão empenadas)

há uma passagem

subterrânea

como nos romances

que liga

castelo e convento

podemos fechá-la

não te quero

no convento

o outro é o Céu

com peúgas

e cuecas sujas

Antes de chegares

pensava assim

mesmo que Milly volte

não quero foder

nunca mais quero foder

o feitio das unhas dos pés

e a implantação dos cabelos

na nuca

do meu Milly chéri

mais tarde

ou mais cedo

vão-me meter nojo

nunca mais danço

nunca mais dou beijos

mas quem não pensa

em foder

está fodido

mas agora

quero foder contigo

Portanto Milly chéri

és muito bem vindo

a mulher (eu)

deixa

pai e mãe

e apega-se

ao homem (tu)

e são ambos

uma carne

in Obra, Adília Lopes

Adília ficou sem título.


Só depois de ler
Barthes
é que Camila
ficou a saber
que o dedo da masturbação
é o médio
até aí tinha usado
sempre
o indicador
experimentou também
o polegar
e viu que todos serviam
meu menino
seu vizinho
pai de todos
fura bolos
mata piolhos
depois de perder a virgindade
experimentou
com um tubo de Cecrisina
metido num Durex Gossamer
também servia
mas isto nada
tem a ver com o amor
tem a ver com o escrever
e com o pintar
e dá menos satisfação
a menos que Camila
se lembre de Jénia
e da penetração
então usa
só os dedos
e serve
para adormecer

Adília Lopes