Arquivo da Categoria: Porque ela existe.

A cópula.

Túlio e Maria Andrade

fizeram amor

apenas uma vez

antes de se casarem

foi na manhã do casamento

benzeram-se antes

de consumar o acto

depois tiveram de se casar

na capela da Academia Militar

 

Maria Andrade

vivias com as avós

ambas surdas

(os pais estavam na terra

isto é

debaixo da terra)

e com a cadela Laika

 

A cadela Laika

era estéril

mas fora operada

para não ter

cachorrinhos

e já fizera a menopausa

 

Porém

como Santa Isabel

estava grávida

e como Maria

não havia sequer

cão

(era um milagre

uma coisa que acontecia

Paulo vai pela estrada de Damasco

e deixa de ser Saulo)

 

Dessa primeira vez

que fizeram amor

foi na casa

de Maria Andrade

com as avós

do lado de lá

da parede

e a cadela Laika

do lado de lá

da porta

 

Não tiveram medo

de ser importunados

mas Maria Andrade

pelo sim pelo não

fechou a porta

do seu quarto

à chave

e deixou a chave

na fechadura

a tapar o buraco

da fechadura

 

O barulho

da máquina

a lavar

o lençol de baixo

e o lençol de cima

aspergidos

do sangue

de Maria Andrade

era o do mar

 

Adília Lopes, in Obra.

A princesa de braços cruzados.

– Não quero trabalhar, nem estudar, o que eu quero é namorar. – disse a princesa e cruzou os braços.

Dormia de braços cruzados e tinham de lhe dar de comer porque a princesa só podia abrir os braços para abraçar o namorado e não havia nenhum namorado para ela.

Quando se acabou o dinheiro, acabaram-se as criadas e acabou-se a comida. A princesa morreu de fome, muito suja, mas sempre de braços cruzados.

E nem os cangalheiros nem os médicos legistas lhe conseguiram descruzar os braços porque nem os cangalheiros nem os médicos legistas eram o namorado da princesa de braços cruzados porque não havia nenhum namorado para ela.

Foi conservada em formol dentro de um frasco de vidro transparente para ser mostrada aos visitantes do Museu de História Natural. Na placa que dá informações sobre o conteúdo do frasco está escrito em latim: “só descruzará os braços quando lhe aparecer um namorado”. Todos no Museu têm a esperança de que um dia um visitante saiba latim e seja o namorado da princesa de braços cruzados.

Mas a empregada do balcão do bar do Museu, menos positivista do que o resto do pessoal, resolveu fazer o mesmo que a princesa dos braços cruzados. Por isso não há bicas para ninguém.

in Obra, de Adília Lopes.

Mais uma história da Gata Borralheira.

Era uma vez o Príncipe que tinha dormido com a Gata Borralheira. Durante o baile no palácio apeteceu a ambos deixar de dançar e irem para a cama um com o outro. E foram. Mas, à meia-noite, a Gata Borralheira saiu a correr da cama do Príncipe e esqueceu-se do soutien atrás de si.

O Príncipe não gostava do seu antepassado que tinha obrigado todas as mulheres do principado a descalçar o pé direito ou o esquerdo. O Príncipe não se lembrava ou a história era omissa quanto a ser o pé esquerdo ou o pé direito. Achava uma atitude grosseira, arrogante, pornográfica, de mau gosto.

Então o Príncipe para encontrar a Gata Borralheira não obrigou todas as mulheres do principado a despirem-se diante dele e a calçar o soutien. Meteu o soutien na gaveta das recordações e decidiu fazer amor com todas, uma por uma, velhas e novas, feias e bonitas, aleijadas e não aleijadas. E foi fazendo.

Quando fez amor com a madrasta e com as duas filhas da madrasta, sentiu-se mal. Jurou para nunca mais. Porque as três eram pelintras, chupistas, feias e fidalgas. E isso tudo traduzia-se no calculismo e no fingimento com que faziam amor. O Príncipe chegou a pensar que em vez de pénis tinha um godemichet implantado no baixo ventre de tal modo a madrasta e as duas filhas da madrasta o usaram e se serviram dele. Agoniado depois de fazer amor com as três, foi à casa de banho vomitar.

Na casa de banho vomitou. E encontrou a Gata Borralheira a limpar a retrete. Como o Príncipe não foi a tempo de vomitar na retrete, vomitou no chão. A Gata Borralheira limpou o vomitado sem enjoos. Porque o Príncipe e a Gata Borralheira tinham-se reconhecido mutuamente imediatamente. Não foi preciso fazerem amor porque a cumplicidade que os unia era evidente para ambos aos olhos e ao sorriso de ambos.

O Príncipe levou a Gata Borralheira imediatamente para o palácio montados ambos num mesmo cavalo branco. E a madrasta e as duas irmãs suas filhas e irmãs da Gata Borralheira ficaram por entre os vidros e as cortinas danadas e furiosas e sem perceberem nada porque eram as três tão burras que nunca percebiam nada de nada.

O soutien voltou a ser usado algumas vezes pela Gata Borralheira porque a Gata Borralheira era poupada, percebia muito de afrodisíacos e era tão fetichista como o Príncipe.

in Obra, Adília Lopes.

A sereia das pernas tortas.

Era uma vez uma mulher que tão depressa era feia como bonita.

Quando era bonita, as pessoas diziam-lhe:

– Eu amo-te.

E iam com ela para a cama e para a mesa.

Quando era feia, as mesmas pessoas diziam-lhe:

– Não gosto de ti.

E atiravam-lhe com caroços de azeitona à cabeça.

A mulher pediu a Deus:

– Faz-me ou bonita ou feia de uma vez por todas e para sempre.

Então Deus fê-la feia.

A mulher chorou muito porque estava sempre a apanhar com caroços de azeitona e a ouvir coisas feias. Só os animais gostavam sempre dela, tanto quando era bonita como quando era feia como agora que era sempre feia. Mas o amor dos animais não lhe chegava. por isso deitou-se a um poço. No poço, estava um peixe que comeu a mulher de um trago só, sem a mastigar.

Logo a seguir, passou pelo poço o criado do rei, que pescou o peixe.

Na cozinha do palácio, as criadas, a arranjarem o peixe, descobriram a mulher dentro do peixe. Como o peixe comeu a mulher mal a mulher se matou e o criado pescou o peixe mal o peixe comeu a mulher e as criadas abriram o peixe mal o peixe foi pescado pelo criado, a mulher não morreu e o peixe morreu.

As criadas e o rei eram muito bonitos. E a mulher ali era tão feia que não era feia. por isso, quando as criadas foram chamar o rei e o rei entrou na cozinha e viu a mulher, o rei apaixonou-se pela mulher.

– Será uma sereia? – perguntaram em coro as criadas ao rei.

– Não, não é uma sereia porque tem duas pernas, muito tortas, uma mais curta do que a outra. – respondeu o rei às criadas.

E o rei convidou a mulher para jantar.

Ao jantar, o rei e a mulher comeram o peixe. O rei disse à mulher quando as criadas se foram embora:

– Eu amo-te.

Quando o rei disse isto, sorriu à mulher e atirou-lhe com uma azeitona inteira à cabeça. A mulher apanhou a azeitona e comeu-a. Mas, antes de comer a azeitona, a mulher disse ao rei:

– Eu amo-te.

Depois comeu a azeitona. E casaram-se logo a seguir no tapete de Arraiolos da casa de jantar.

 

in Obra, de Adília Lopes

Adília Lopes.

Rosa dentro da rosa dentro da rosa

azulejo iluminura filigrana

joelhos nuca sovacos unhas

não quero quebrar

o dom de estar viva

a doçura dos mistérios

o dom do teu corpo

o teu cheiro a tua voz

o teu olhar o teu sorriso

as minhas lembranças de ti

beijo repetidas vezes

a tua boca fechada

estás debruçado sobre mim

e sorris-me

somos bons um para o outro

posso ter filhos de ti

sabemos isso

 

in Obra.

Adília Lopes. Porque hoje é segunda feira.

Havia uma pessoa

que convidava outras pessoas

para lanchar com ela

ela fazia pudins complicados

tão complicados

que eram precisas mais duas pessoas

para os fazer

o que é muito perigoso

porque se três pessoas fazem a mesma coisa

ao mesmo tempo (mais ou menos)

ou morre a mais velha ou morre a mais nova

ela por esperar muito os convidados

arranjou as coisas de maneira

a ser sempre a do meio

entretanto as criadas iam morrendo

mas os convidados não apareciam

ela chegou mesmo a suspeitar

que nunca os tinha convidado

ou que nunca os tinha conhecido

comia ela os pudins com a criada que sobrava

e às vezes com uma barata

as criadas não achavam bem a barata

em cima da mesa

e a barata deixou de aparecer

ela com o desgosto passou a viver de maneira perigosa

fazia de maneira que as duas criadas

fossem ambas mais velhas do que ela

ou ambas mais novas

mas eram sempre as criadas a morrer

até que um dia sem ter feito nada por isso

morreu

então as criadas abriram a porta do armário

onde tinham fechado a barata

e a barata saiu de lá

muito magra

a caminhar a custo

e à medida que os convidados

iam aparecendo os convidados

iam pedindo desculpa às criadas

 

in “Obra”. Adília Lopes.

Adília Lopes

Rosa dentro da rosa dentro da rosa

azulejo iluminura filigrana

joelhos nuca sovacos unhas

não quero quebrar

o dom de estar viva

a doçura dos mistérios

o dom do teu corpo

o teu cheiro a tua voz

o teu olhar o teu sorriso

as minhas lembranças de ti

beijo repetidas vezes

a tua boca fechada

estás debruçado sobre mim

e sorris-me

somos bons um para o outro

posso ter filhos de ti

sabemos isso

 

in Obra.

Adília Lopes. Revisitada em Julho de 2009.

“Em 81 disse à Drª Manuela Brazette, psiquiatra, “Eu sou feia”. Ela disse-me “Não é ser feia. Não há pessoas feias. Não tem é atractivos sexuais”. Lembrei-me então do homem que em 74, tinha eu 14 anos, se cruzou comigo no Arco do Cego. Lembrei-me do homem, da cara do homem vagamente, mas lembrei-me muito bem do que ele me tinha dito ao passar por mim. Tinha-me dito “Lambia-te esse peitinho todo”. Lembrei-me também da meia-dúzia de outros homens que durante a minha adolescência me tinha dito quando eu passava “Coisinha boa” e “Borrachinho”. Ainda hoje me sinto profundamente agradecida a esses homens. Pensei que eles estavam a avacalhar, que eram uns porcalhões. Mas quem estava a avacalhar era a Drª Manuela Brazette, ela é que é uma porcalhona. Acho que um homem nunca consegue ser mau para uma mulher como outra mulher.”

in Obra.

De vez em quando, volto.

Milly chéri

tenho coisas

para te dizer

de viva voz

cartas de amor

nunca mais

agora só escrevo

cartas comerciais

Não quero

ter filhos

gosto muito

de foder

contigo

e com outros

mas de bebés

não gosto

uma vez

por outra

tem graça

mas sempre

não

os bebés deprimem-me

se engravidar

faço abortos

por muito

que me custe

e custa-me

muito

(um bebé é dom

do Espírito Santo)

Ficas

no castelo de Beja

e eu aqui

no convento

com vento

(as janelas

fecham mal

estão empenadas)

há uma passagem

subterrânea

como nos romances

que liga

castelo e convento

podemos fechá-la

não te quero

no convento

o outro é o Céu

com peúgas

e cuecas sujas

Antes de chegares

pensava assim

mesmo que Milly volte

não quero foder

nunca mais quero foder

o feitio das unhas dos pés

e a implantação dos cabelos

na nuca

do meu Milly chéri

mais tarde

ou mais cedo

vão-me meter nojo

nunca mais danço

nunca mais dou beijos

mas quem não pensa

em foder

está fodido

mas agora

quero foder contigo

Portanto Milly chéri

és muito bem vindo

a mulher (eu)

deixa

pai e mãe

e apega-se

ao homem (tu)

e são ambos

uma carne

in Obra, Adília Lopes

Adília ficou sem título.


Só depois de ler
Barthes
é que Camila
ficou a saber
que o dedo da masturbação
é o médio
até aí tinha usado
sempre
o indicador
experimentou também
o polegar
e viu que todos serviam
meu menino
seu vizinho
pai de todos
fura bolos
mata piolhos
depois de perder a virgindade
experimentou
com um tubo de Cecrisina
metido num Durex Gossamer
também servia
mas isto nada
tem a ver com o amor
tem a ver com o escrever
e com o pintar
e dá menos satisfação
a menos que Camila
se lembre de Jénia
e da penetração
então usa
só os dedos
e serve
para adormecer

Adília Lopes