À solta.

É tão bom andar descalço, em casa, claro. Na rua não consigo. Já na terra é outra coisa. Eu lembro-me de andar descalço na terra mas já foi há umas décadas valentes. Adorava chegar a casa e meter-me na banheira, completamente cheio de terra, dos pés à cabeça, literalmente. Agora há uns movimentos, com uns nomes que eu nunca vou conseguir fixar, que transmitem a ideia que devemos andar descalços na terra para sentirmos umas energias… e tal… para nos encontrarmos com… não sei quem… e tal…

É bonito saber que existem pessoas que comungam estas ideias mas eu comecei o texto a falar de andar descalço porque durante o período de confinamento, sempre que alguém saía à rua para fazer algum tipo de compra de bens essenciais, quando chegava a casa deixava os sapatos à porta. Quem nunca? Acho que noventa por cento das casas portuguesas tiveram um amontoado de sapatos junto à porta de saída durante este tempo todo de confinamento e que ainda hoje continua. Os portugueses que têm espaço em casa, com um hall de entrada generoso o que é que fizeram? Investiram numa sapateira, certo? Nas redes sociais só viam modelitos de sapateiras… umas mais apetitosas do que outras. Umas coloridas, outras em madeiras nobres. Algumas sofisticadíssimas e outras feitas com os materiais que estavam mais à mão. Enfim, foi uma ideia que se disseminou e, na minha opinião, ainda bem porque às vezes somos mesmo altamente influenciáveis pelas redes sociais e, neste caso, cá em casa deixamos entrar a ideia muito facilmente. Já andávamos saturados de trazer a rua nos sapatos, cá para casa. Vai daí, encomendamos uma sapateira, daquelas normais, com espaço para dezasseis pares. Somos quatro cá em casa e cada um vai gerindo o espaço que tem disponível na sapateira da casa. É uma sapateira comunitária mas com hierarquia. O pai e a mãe, mais velhotes, têm direito a ficar com as duas prateleiras de cima e as crias, possuidoras de uma pujança lombar muito superior à dos progenitores, ficaram com as prateleiras mais abaixo. E a coisa tem corrido muito bem. Para além da rua ficar à porta, andamos mais tempo descalços, com os pés mais soltos, o que é fantástico. Não é que a infância retorne mas, com as mazelas próprias da idade, sentir os pezinhos soltos e bem apoiados…não tem preço.

Uma canseira.

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Eu vou para velhinho. Não há como negar. É a lei da vida. Não há mesmo como negar. Acontece a todos. O caminho a percorrer é o mesmo para todos. Para brancos, negros, amarelos, vermelhos, pobres, ricos, remediados, boas pessoas, más pessoas, coxos, magros, gordos, altos, baixos, pessoas que usam óculos, pessoas que gostam de ter relações sexuais todos os dias, padres, políticos, vigaristas, assassinos, tresloucados, alcoólicos, viciados na batota, pessoas que andam e saltam, naturistas, moralistas, possuídos, possuídos por trás, possuídos pela frente, vegetarianos, amigos das focas, plantadores de cannabis, arrumadores… e podíamos estar aqui a tarde toda a enumerar todo o tipo de pessoas deste mundo, não podíamos? podíamos, mas não me parece. Apesar de não estar aquele tempo maravilhoso, que esteve na semana passada, que convida ao relaxe, à bebida espirituosa, ao deleite e à conversa descontraída, há toda uma parafernália de palavras que têm de saltar para o teclado… bonito, não? Também acho. Quando é chegada a hora do azeite eu não poupo. Para além de caminhar para velhinho, deslizo em azeite. Puro azeite transmontano, que essa modinha do azeite alentejano é para inglês ver…

Bem, a agulha está sempre a fugir do trilho traçado (faz-me lembrar a minha vida) e não é fácil dar a mão à vida e trazê-la para onde pensamos ser o melhor caminho. OMG, que rebuscado. Não era essa a minha intenção. Apenas pretendia dizer que ando sempre à procura do meu caminho e depois saiu uma frase moralista. E eu esforço-me por não ser moralista, nem paternalista… embora confesse que, com duas filhas adolescentes, me sinta tentado em protegê-las… embora saiba que esse não é o melhor caminho… mas quem nunca? OMG, outro lugar comum???

Esqueçam o parágrafo anterior!

Vou recomeçar.

Eu vou para velhinho. Não há como negar. É a lei da vida. Não há mesmo como negar. Acontece a todos. Lembram-se? Exactamente. Foi como comecei o texto. E sabem porque é que comecei o texto assim? Porque queria continuar a escrever sobre a minha vida. Sim, quem vai para velhinho tem tendência a esquecer o dia a dia e a lembrar-se dos pormenores de há cinquenta anos atrás. Estranho? Não me parece. Quem tem pais mais velhinhos do que eu, percebe o que eu estou a dizer. E eu estou nesse limbo (e não, não estou doente, nem vou morrer em breve), apenas quero deixar registada uma parte da minha vida. E esse registo é complexo. Não aparece assim, do nada. Tem que ser triturado, mastigado, até sair cá para fora. E agora está-me a dar o sono. E ainda tenho que ir ao ginásio, fazer os telefonemas costumeiros, ir ao ginásio (sim, vou pela primeira vez), tomar banho, fazer o jantar, continuar no escocês e finalmente ver um episódio a escolher entre as muitas séries que ando a ver.

Pode não ter interesse. É sobre a minha vida.

Meio litro de cerveja. Fresquinha e a borbulhar. Depois de duas horas ao sol, a torrar, não há nada melhor do que uma cerveja muito fria. Nos dias anteriores andei a beber limonada. Também não desgosto. Mas hoje… hoje estive ao sol e a ouvir música. Música dos anos oitenta. Sim, toca a todos. Momentos de nostalgia, quem nunca os teve? Pois, bem me parecia. Mas adiante. Como trabalhei da parte da manhã, agora a ideia era mesmo esticar-me na espreguiçadeira e ficar por ali a ouvir música. O problema consistia em conseguir ter acesso às músicas que me apeteciam ouvir. Nada de muito especial (Cure, Cramps, Sound, Carmel, Virgin Prunes, Fall, Phsycadelic Furs, Cult, Talking Heads e por aí fora) e a solução foi o Spotify, o dos tesos como eu, com publicidade pelo meio e que só dá mesmo com acesso à internet. Para já foi assim, depois logo se verá se vale a pena passar para a conta premium.

E gostei. Aliás, gostei muito de estar ali esticado, com os phones, alheado do mundo e a pensar na minha vida. Na minha vida desta altura. Eu não posso dizer que tive várias vidas, como os gatos. A minha vida é que teve várias vidas, todas elas muito boas. Do passado ao presente, não me posso queixar pois sou um ser humano com muita sorte na vida. E não estou a falar de dinheiro ou sucesso social ou o que quiserem chamar. Estou mesmo a falar da vida, vivida com intensidade e sempre muito bem acompanhado por pessoas que me marcaram intensamente. Praticamente não tive momentos negros na minha vida. Tirando a morte do meu pai, não me lembro de nenhum período mau e a vida foi sempre decorrendo com maior ou menor dificuldade (sim, eu nunca vou ter uma vida desafogada em termos financeiros) e tudo se foi compondo com o tempo. Mas voltando atrás, esta vida vivida nos anos oitenta, foi uma rica vida.

Eu nasci em 1961, sim esse número mágico que se lê das duas maneiras: direito e de pernas para o ar. E quem não sabe, o próximo ano em que tal voltará a acontecer será o de 6009, um pouco distante mas que, para aqueles que acreditam na reencarnação, poderá vir a ser o seu ano de eleição… Mas o meu ano de nascimento basta-me para saber que a minha vida vai ser uma vida em cheio… Quando fiz vinte anos era um rapaz que corria, saltava barreiras e era bom naquilo. Só fazia atletismo e sonhava fazer vida daquilo. Era treino pela manhã e novo treino pela tarde. Raramente faltei a um treino e era, como ainda sou hoje, muito disciplinado e organizado nas tarefas que me proponho realizar. Não parece, pois não? Mas sou. E podia ter ido longe se não fosse um conjunto de circunstâncias que me deixaram desapontado e saturado (fui obrigado a ir para a tropa, treinava na terra e tinha que ir a Lisboa para correr na borracha…e não evolui por causa disso tudo) e desisti. Não me arrependo de ter desistido. Trabalhei como fiel de armazém na Pelikan, a das canetas, e que já não existe. De seguida fui para Londres, trabalhar. Regressei e estive um ano na companhia de teatro “Os Comediantes” que me encheu as medidas pelas diversas experiências que vivi, de terrinha em terrinha (Portugal e Espanha), a montar e desmontar o espectáculo, a viver com pouquíssimo dinheiro, mas feliz. Foi nesta época que foram lançadas as bases do meu primeiro casamento… conheci a artista plástica Isabel Padrão, que nesta altura ainda era estudante, e casamos uns anos mais tarde. Não durou muito. Foi mesmo um casamento curto. Coisas da vida. Foi um relacionamento completamente diferente de todos os que tinha tido pois passei a ter contacto com um outro mundo, completamente desconhecido para mim. Já não me bastava ter tido aquela vivência arrebatadora do mundo do teatro e passei para o mundo dos artistas plásticos, com as suas taras e manias… como canta o nosso Marco Paulo…

O que é certo é que com estes abanões todos a minha vida lá foi continuando, sem grandes pressões, um bocadinho para onde estava virado e consoante as necessidades. Fui novamente para Londres fazer um dinheiro, fui não, fomos os dois e depois eu ainda fiquei por lá mais uns tempos, sozinho, para voltar e começar a trabalhar numa secretaria de uns Bombeiros Voluntários, como escriturário… sim a vida dá muitas voltas e estive por lá três anos. Pelo meio entrei em Belas Artes, para tirar Pintura, estudava de dia e passei a trabalhar nos Bombeiros à noite, todos os dias até à meia noite. Às sete e meia da manhã já estava a apanhar o autocarro para chegar às aulas às oito e meia. E sim, raramente cheguei atrasado porque sou disciplinado… e não gosto de dormir muito, por isso, saltar da cama não me custa.

Nesta altura, com vinte e tal anos, achamos que temos o rei na barriga e o mundo aos nossos pés. Era um rapaz um pouco extravagante. Tanto andava com o cabelo todo esticado para o céu, como cheio de brilhantina. Tanto usava umas calças coloridas com um blazer aos quadrados que não correspondia minimamente, como andava de preto ou fato e gravata. Era para onde estava virado. E eu virava-me bem. Não tinha, nem tenho, manias, mas já nessa altura me esforçava por não julgar ninguém por aquilo que aparenta mas dava-me gozo aparecer desalinhado… coisas da juventude. E dançava. Dançava como se não houvesse amanhã e da maneira que só um corpo jovem, atlético e saudável consegue. E vibrava com as músicas… que estive a escolher hoje… daí a nostalgia. E não é que ache que ser nostálgico seja mau. Para mim sempre foi bom recordar o que vivi pois não vivo preso ao passado.

Equilíbrio, precisa-se!

Primeiro dia de trabalho presencial. Depois de dois meses a trabalhar em casa, finalmente fui para a escola. Não quero parecer irresponsável mas estava a precisar de sair de casa para ir trabalhar. Fui na minha bela Scarabeo, com a borboleta mais velha. Os dois a levarmos com a brisa da manhã, nas calmas, a saborear a estrada. Eu sei que muito provavelmente ela ia a enviar mensagens pelo telemóvel mas como estava nas minhas costas… não vi nada… e por isso vou acreditar que ela estava no mesmo nível do nirvana que eu e que a viagem foi maravilhosa.

Chegado à escola deparei-me com um aparato de medidas que me deixaram tranquilo. Medição da temperatura à entrada, de seguida peguei numa máscara. Isto tudo à vez e com uma distância de dois metros, mais coisa menos coisa. Os alunos foram sujeitos às mesmas medidas e quando entram são logo direccionados para as respectivas salas. Sentam-se espaçadamente e quando entrei na sala ficaram a olhar para mim com a curiosidade de quem nunca me tinha visto com uma máscara… e eu a olhar igualmente para eles com ar de estranheza. Passou rapidamente. Eram os meus alunos e rapidamente quebramos o impasse. Vamos ter mesmo que nos habituar a este tipo de cuidados. Mas custa. Custa dar uma aula de noventa minutos sempre a falar. Sim, não parece, mas eu falo pelos cotovelos e não, não é phalo pelos cotovelos. Aliás, já tinha saudades de falar, falar pelos cotovelos. Como sabido e mais que sabido, cá em casa eu não tenho muitas oportunidades de dizer duas frases seguidas. Não tenho muitas hipóteses, por assim dizer, de expressar os meus sentimentos… elas não deixam.

E quando acabou lá viemos para casa, novamente montados na bela Scarabeo 500 GT, felizes e contentes, com uma bela costeleta do Barroso à espera, para depois passar pelas brasas na espreguiçadeira com uma musiquinha a condizer. Vida difícil.

Era para ser uma crónica. Era.

Porque será que me lembrei hoje, logo hoje, de escrever? Por ser dia 13, número do azar? Por ser dia 13 de Maio, o dia mais “religioso” de Portugal? Por ser o dia 13 primo do dia 13 de março e do dia 13 de abril? Quer-me parecer que esta última hipótese é mesmo aquela que me faz acreditar que a vida existe… para além do meu mundo… Sim, este dia 13 marca a minha existência e a de muitos outros portugueses. Faz dois meses que estou enfiado em casa, como tantos milhares de portugueses.

É realmente um dia marcante mas tem sido difícil. Apesar de ser um privilegiado, tem sido difícil. E se começar a pensar a sério no assunto vou ficar deprimido, como já fiquei bastantes vezes durante este período. Tem sido frequente. As lágrimas quererem aparecer. Não deve ser só comigo. Tenho a ligeira sensação que andamos todos mais sensíveis. Mais isolados e descompensados. E mais crus. Pelo menos eu apercebo-me que sou capaz de dizer coisas… de uma forma mais crua, que podem, eventualmente, ser mal entendidas. Quem nunca? Mas nunca atingi ou ultrapassei os limites… mas não é fácil vivermos tanto tempo uns com os outros. O ser humano precisa de espaço.

Escrito há quinze dias… e ficou a meio…

Boys don`t cry . Esta coisa de estar em casa há tanto tempo tem mexido com uma parte do cérebro. Ainda não sei a extensão da mexida mas que tem mexido, lá isso tem. Apenas consigo identificar alguma inércia. Fico danado com o facto de, por vezes, não ser tão perspicaz e activo como gostaria. Não é que seja lá muito perspicaz e muito activo por natureza mas como tenho tempo para pensar gosto de imaginar que o sou. Não é por nada. Mas gosto de me entreter a pensar na vida, na vidinha. Na minha vidinha, porque a dos outros não me diz respeito e quem sou eu para opinar sobre o que as outras pessoas pensam/dizem/escrevem/pintam/cantam ou lá o que quer que seja. Sou pequenino. Mas tenho uma certeza. Somos todos pequeninos. Estamos todos, ou quase todos, enfiados em casa com medo de morrer, a pensar que a vida é tão efémera e que a devemos aproveitar ao máximo. Bem sei que as generalizações são perigosas mas se não for o caso então estou muito enganado acerca do sentido da vida… Oh my god, que só me consigo lembrar da Vida de Brian.

Adiante.

Tenho andado a pensar na minha vida passada. Não quero saber de planos para o futuro. Tenho andado às voltas com o meu passado. Não tenho a percepção que o mesmo esteja a acontecer com as outras pessoas. Frequento algumas redes sociais e não me tenho apercebido deste tipo de preocupações. Também não quero saber, nem me interessa por aí além aquilo que as pessoas pensam em determinados momentos da vida delas e da minha vida. Os tempos são muito personalizados e raramente coincidentes, por isso não há necessidade de fazer grandes filmes sobre o impacto que aquilo que escrevemos tem nas pessoas que nos rodeiam. Já li tanta coisa que na altura em que li não representou nada, nem tiveram impacto na minha vida, e que passados uns tempos tive a oportunidade de reler e aí foi completamente diferente. Acontece. Frequentemente.

Adiante.

Quem nunca “botou” a mão na consciência e ficou a pensar nos períodos menos bons da sua existência? Eu “boto” muitas vezes a mão na consciência. Também “boto” a mão em muitos outros sítios. Uns mais prazenteiros e outros nem por isso. Mas, sim, eu já magoei muitas pessoas. Bem, também não foram assim tantas. Mas as que magoei foram importantes para mim. E nesta altura do texto, convém explicar que a palavra “importância” também não pode ser considerada uma atenuante. São pessoas para as quais até posso nem sequer ter sido importante para elas e por isso aquilo que é importante mesmo, pelo menos para a minha consciência, é que as magoei enquanto seres humanos. Está a ficar tudo muito rebuscado. Aliás, essa é uma característica do ser humano. Complicar. Rebuscar. Tudo para conseguir encontrar um caminho suave. E eu não sou mais do que os outros seres humanos.

A ver vamos…

Nova etapa se avizinha com o início das aulas online. Vai ser uma nova experiência para a qual a maior parte dos alunos e professores não estavam preparados e que vai exigir uma dose enorme de bom senso porque os condicionamentos técnicos vão ser constantes. As experiências que se foram realizando ao longo destes dias foram úteis para se perceber que é impossível dar uma aula inteira online. Terão de existir pausas, o chamado trabalho assíncrono para que as tarefas possam ser realizadas offline pelos alunos e retomadas mais tarde para correcção e discussão das matérias. A ver vamos…mas que não vai ser fácil, lá isso não vai.

Nos entretantos fui descansando, dentro do possível porque a cabeça, nestas circunstâncias, não pára e é necessário conseguir encontrar algum equilíbrio para não ficarmos todos chéchés. Cá em casa somos quatro. Não é fácil encontrar algum sossego com duas adolescentes em casa. Felizmente elas, à semelhança de grande parte dos adolescentes deste país, viveram este período mais pela calada da noite. A vida delas tem vindo a começar quando a minha acaba. Vou para a cama relaxar e de seguida dormir e é quando elas começam a bombar, naquelas tretas de adolescentes… e depois? Depois, tenho dormido que nem um cuco e acordado cedo, bem cedinho, pelas sete da manhã e é o silêncio, silêncio absoluto. É nesta altura do dia que mais me rende. Leio ou vejo uns episódios das séries que ando a ver. E ultimamente ando a ver muita coisa HBO Europe. Séries fora da americanice do costume. Vi uma Israelita, uma Sérvia e uma Checa. Gostei muito, completamente diferentes no ritmo, na fotografia e no enredo. Depois vi uma sobre a vida do Saddam, estou a ver The Deuce e ao mesmo tempo vou vendo Tiger King. Tenho para uns tempos. Tirando isso, vou mantendo a forma física com abdominais, agachamentos e flexões, trinta de cada e chega, antes do banho. A treta da forma física é uma expressão de auto-convencimento porque o físico já está na fase descendente e não vou ser nenhum Sandokan, cheio de músculos. Se na juventude nunca quis trabalhar esse lado, por opção, agora, nem que quisesse a coisa lá ia. Mas convivo diariamente com o assunto de uma forma pacífica.

E lá vai passando a minha quarentena, igual a tantas outras, com música assim e assado. Fiquem bem.

Vou passando o tempo, assim…

Success. Acabei agora de ver esta série Sérvia. Gostei. Apesar de não gostar do povo Sérvio, por razões históricas recentes, pelas imagens adorei a cidade de Zagreb e, por aquilo que vi, não me importava de viver lá. Estive lá há quarenta anos atrás. Dizer que estive lá…é uma força de expressão pois estive em trânsito para Belgrado para participar numa Taça de Clubes da Europa em Atletismo. Outros tempos. O muro de Berlim ainda não tinha caído e nem sequer se sonhava com isso e, apesar da antiga Jugoslávia não ser um país alinhado, notava-se uma grande influência de leste. Belgrado, daquilo que me foi permitido ver naquela altura também tinha aquelas avenidas largas, construções de edifícios altos onde moravam pessoas, com amplos espaços verdes envolventes. Pareceu-me uma cidade quase criada de raiz e devidamente pensada e ordenada. Estou a falar da parte nova da cidade. Enfim, outros tempos.

Hoje, enfiado em casa, vou-me limitando a viajar agarrado a um ecrã…

Florbela Espanca Espanca

Eu quero foder foder

achadamente

se esta revolução não me deixa

foder até morrer

é porque

não é revolução nenhuma

a revolução

não se faz

nas praças

nem nos palácios

(essa é a revolução

dos fariseus)

a revolução

faz-se na casa de banho

da casa

da escola

do trabalho

a relação entre

as pessoas

deve ser uma troca

hoje é uma relação

de poder

(mesmo no foder)

a ceifeira ceifa

contente

ceifa nos tempos livres

(semana de 24×7 horas já!)

a gestora avalia

a empresa

pela casa de banho

e canta

contente

porque há alegria

no trabalho

o choro do bebé

Adília Lopes – Obra

Quase de férias?

Tempos estranhos. Acabei a última reunião de avaliação online… Em tempos normais estaria aos saltos e aos abraços a todos aqueles que conseguisse apanhar porque… estaria a entrar num período de descanso… e desta vez… quem me dera estar a trabalhar. Nunca me passaria pela cabeça viver uma situação destas. Nem a mim nem a ninguém.

Todos aqueles que conseguirem ultrapassar este momento difícil vão viver a vida de uma forma diferente. Tenho a certeza que toda esta experiência vai marcar positivamente todos aqueles que não vivenciarem uma morte próxima, de um parente ou de um amigo. Para esses vai ser muito difícil.

Esta experiência, se não fosse trágica seria digna das mais aventuranças e transmitida de pais para filhos, mas tenho a impressão que vamos querer esquecer uma parte disto tudo. O que irá ficar nas nossas memórias? Pois, essa é que é a questão. O ser humano é pródigo em esquecer muito facilmente as experiências passadas. Para o bem e para o mal. Basta olharmos para a história e percebemos que nunca aprendemos com os erros e raramente sabemos valorizar o que de realmente positivo vivenciamos. Uma pena.

Domingo à tarde.

O que estou a ouvir? A um domingo à tarde é essencial ouvir um sheik. Eu vou para o sheik. Há quem vá para outras cenas musicais… Gostos não se discutem! Não tem importância. O importante mesmo é que estamos num domingo e é essencial manter alguma espécie de rotina. É o que mais me está a custar. Ontem fiquei pelo quarto durante quase todo o dia… foi estranho. Ok, que vi uma temporada quase toda “zero, zero, zero” era o seu nome e gostei de estar isolado a ver episódio atrás de episódio mas… não é lá muito saudável. E não, nem sequer pensem que estou maluquinho de todo que nem sequer saio do meu pijama… Nem pensar! Isso seria mesmo muito mau. Banhinho e vestimenta a condizer para o dia que começa é um ritual que não vou conseguir abdicar. E antes do banhinho… abdominais, pernas e flexões. Faço trinta de cada… porque já sou velhinho e não quero ficar sem uma perna ou um braço à custa de tanto exercício… Mas apesar de manter o mínimo de rotinas… acabei por ficar no quarto enfiado, longe da minha realidade familiar. Ok. Toda a gente anda com graçolas sobre as qualidades e o virtuosismo da vida de casal… e eu confesso que, no início, ainda perdia algum tempo a rir-me com as piadas que os portugueses tão bem constroem em cima da desgraça… é que este povo sempre teve essa capacidade, a de brincar com o que de pior acontece… lá isso é verdade.

Hoje, passados não sei já quantos dias de confinamento voluntário, começo a pensar que devemos levar as nossas relações muito a sério. Não cometer erros que se possam vir a revelar fatais é fundamental. Cá em casa, como em muitas outras casas, temos que encontram um equilíbrio geracional… porque somos dois adultos e duas adolescentes… e não é fácil. Apesar de sermos ambos professores e, por isso mesmo, termos algum traquejo em lidar com seres humanos de idade inferior e experiência reduzida… em casa, tudo aquilo que vivenciamos diariamente numa escola… de pouco serve porque numa escola temos sempre um intervalo ao fim de noventa minutos… em casa…?

Não é fácil. Se já não era, agora muito menos…

Pois, o raio do título! (metido em casa 24/7, pode ser?)

Começar um texto e ter que lhe dar um título… não faz nada o meu género. Sim, porque toda a gente tem um género… O meu ainda não percebi qual é. Ao fim de praticamente cinquenta e nove anos ainda não percebi o que ando por aqui a fazer, do que ando à procura, para onde vou… Mas isso, agora, não interessa nada.

Estamos todos há demasiado tempo em casa. Começamos a perder a lucidez. Começamos a entrar num estado de realidade virtual. Não é fácil estar enfiado numa casa. E cada um tem a sua casa. Com as pessoas que lá estão enfiadas. O espaço físico também varia mas isso não é o mais importante. Cada casa terá a sua realidade. Viver essa realidade é que é o verdadeiro desafio. O que fazer durante tanto tempo fora das rotinas a que estávamos habituados. Refazer as nossas relações com as pessoas que nos rodeiam. Repensarmos as nossas prioridades.

Tenho vontade de escrever umas caralhadas com as letras todas. Tenho vontade. Mais vontade. E depois respiro com mais força, fecho os olhos e penso: que caralho de texto azeiteiro que estou para aqui a escrever. O balhamedeus.

Sim, eu também tenho os meus momentos difíceis. Não parece, pois não? Pareço um rapagão forte de ideias e cheio de rumo na vida. Mas a realidade é outra. Se calhar como a grande maioria das pessoas que eu não conheço. Mas eu sou um rapaz normal. Sim, um rapaz. Não posso usar a expressão “rapaz”? Vem cá alguém para me bater? És tu, que vens cá para me bater, dar pancada a sério, por ter usado a palavra “rapaz”? Julguei! Hoje estou forte. Sinto-me um rapaz forte. Por isso, cuidado comigo!

Voltando ao que realmente é importante. Sou um rapaz… bem, queres ver… normal.

Ok. Vou mesmo ter que esclarecer esta cena do rapaz.

Rapaz = Homem entre a infância e a adolescência; garoto; moço.

Perceberam?

No meu caso, em plena adolescência.

Sim.

Ora pensem bem o que foi a vossa adolescência.

As vossas emoções eram assim? Ou assim? Se calhar sonhavam assim?

As emoções de um adolescente são sempre à flor da pele. As minhas também. Porquê? Porque eu sou um rapaz normal. Continuo com esta energia e com esta vontade de viver. Se é a melhor maneira de viver, se é a melhor maneira de sentir ou, porventura, a melhor maneira de ser companheiro, não sei nem nunca vou saber. Todos vamos acabar por morrer com aquela sensação de que poderíamos ter feito diferente. Ok, ainda não cheguei às portas de Brandemburgo e, quando lá chegar, pensarei no assunto… mas nos entretantos… vou olhando para trás, para a minha vida, com a vontade de perceber o que raio ando aqui a fazer e não querendo ser repetitivo, tenho a consciência de que a minha vida foi o que foi e a mais não sou obrigado… por isso, antes que o nosso amigo alemão me ataque, quero dizer ao mundo que “Não me arrependo de nada“, que consigo viver com os meus fardos e com os meus pesadelos. Há sempre um preço a pagar e o meu chega, invariavelmente, quando me deito e penso naquilo que foi o meu dia.

E agora vou preparar a mesa que hoje, o jantar, foi a minha rica senhora quem teve o privilégio de executar.

Estou de volta.

Já deu para perceber porque é que estou de volta. E não. Não é por causa do confinamento às quatro paredes a que estamos destinados por estes tempos difíceis. Simplesmente concertaram-me o blogue, por dentro… pois estava infectado (nem de propósito) com um vírus e constituía um perigo para quem abria a página. Espero que não tenha mexido o funcionamento dos vossos computadores. Para mim é mais fácil ficar em casa do que concertar estas cenas difíceis da informática ou lá o que lhe quiserem chamar.

Estou em casa. Sim, é verdade. Tal e qual milhares de outras pessoas.

Cá por casa vamos tentando encontrar algumas rotinas. É difícil. Uma das novidades cá por casa é eu não cozinhar todos os dias e a todas as horas. Repartimos as idas à cozinha. É bom para ambos. Quando não é a minha vez posso estar mais relaxado e com tempo para me deixar arrastar naquilo em que me meti. Por exemplo, hoje ao meio dia vai ser a minha rica senhora que vai fazer uns medalhões, com puré e um molho espesso que só ela sabe fazer (eu sou mais bruto no que toca aos molhos…) e acompanha um puré… Vai ser bom.

Entretanto eu estou aqui, no blogue, a tentar escrever o que me vai na alma. Sim, eu sei. O que me vai na alma? São muitos dias em casa e eu também tenho direito aos momentos de verdadeiro azeite. Ser um azeiteirola e começar a escrever palavras fofas. Não sendo cristão, sempre posso acrescentar: seja o que Deus quiser (Deus com letra grande, que o respeitinho é muito lindo. Então nesta hora de aperto…) e espero voltar ao meu normal…

Neste momento, o meu normal passa por estar acompanhado por um copo, pequeno, de vodka, de uma garrafa que comprei no freeshop há cerca de um mês. Sim, foi na nossa última viagem e não se percebe como é que a garrafa se manteve intacta até esta data. Deve ter sido o meu décimo sexto sentido que me levou a guardá-la para momentos mais importantes na minha vida.

Sim, este momento é importante.

Mas vamos continuar a ter vida quando este pesadelo terminar.

Eu desconfio que vou ter uma vida diferente, mais redonda (que é como me sinto porque passo a vida a comer…) com um hálito a álcool (que é como me sinto porque passo a vida a… desinfectar as mãos…) com a preocupação de falar mais baixo (e a perceber que a deformação profissional pode mudar as nossas condições de convivência… porque é isso que as minhas filhas me dizem… que falo alto…) porque sou um afortunado por estar confinado a estas paredes mas na companhia da minha família (para quem está sozinho deve ser muito mais difícil e eu sei do que falo) e depois temos os nossos pequenos prazeres.

Tudo bem. Temos que trabalhar. Eu como todos os outros professores temos que ir fazendo aquilo que conseguimos através das plataformas disponíveis, mas essa é uma outra cumbersa… que não é para aqui chamada.

Eu estou a falar dos nossos prazeres. Daquilo que gostamos mesmo de fazer. Daquilo que fazemos ao longo do dia e, quando estamos com a cabecinha na almofada, nos lembramos de uma doce memória recente. Por exemplo, ontem, quando me virei para a minha rica senhora, poucos momentos antes de adormecer, senti o gosto do merengue de limão que ela fez de sobremesa. Não será a mesma coisa do que fazer o amor, dirão alguns dos puristas que acham que o mais importante é fazer o amor. Fazer o amor bem feito, ainda por cima, que isto de fazer o amor às três pancadas foi no outro tempo. Aquele tempo em que não estávamos confinados às quatro paredes do isolamento e em que…

Fica a interrogação.

E não. Não vale começar a chorar com as oportunidades perdidas. O caminho ainda está para vir. Caminhem.

Nada de maminhas. O assunto é sério…

Nem vos digo, nem vos conto o que estou a fazer agora…

Pronto, não resisto!

Estou a pensar. É curioso, não é? Estar a pensar?

Mas sim, estou mesmo a pensar, na vida. No caso, na minha vida profissional.

Estar a pensar sobre o trabalho só é possível porque a actividade lectiva acabou. Não devia ser assim. Todos nós deveríamos ter tempo, durante todo o ano para pensarmos o nosso trabalho. Todas as profissões são complicadas, cada uma tem a sua especificidade e quero distância daquelas pessoas que se acham no direito de criticarem aquilo que desconhecem. Cada macaco no seu galho. Já todos nós ouvimos esta frase mas, na prática, o povo português gosta de meter o bedelho onde não é chamado.

Eu sou professor e limito-me a ter consciência da falta de tempo para pensar a minha profissão e fico boquiaberto quando vejo, ouço e leio verdadeiros artistas da bola a mandarem uns bitaites sobre a minha profissão e que, na grande maioria das vezes, desconhecem em absoluto como é que a coisa funciona… É triste, mas toda a gente gosta de dizer mal dos professores. Lá terão as suas razões… E não adianta nada alegar que as pessoas que criticam os professores desconhecem a realidade. As razões que levam as pessoas a pensarem assim e a dizerem o que dizem pela boca fora são como o brandy Constantino… a fama já vem de longe…

Reverter a imagem que os professores têm na sociedade portuguesa implicaria uma mudança radical dos actuais protagonistas. E quando estou a falar de protagonistas, refiro-me aos representantes sindicais dos professores. Os outros, os protagonistas do Ministério, limitam-se a cumprir o seu papel, de seguirem as estratégias traçadas há muitos anos. Com isto quero dizer que, esteja quem lá estiver a assinar papeis, o rumo não muda. Os dados foram lançados há muito tempo. Por incrível que pareça a odiosa Lurdes apareceu nas nossas vidas em 2005!!! Sim, passaram catorze anos. Catorze anos sem uma referência a alguma coisa positiva que tenha acontecido na vida profissional dos professores.

Quem espreitar aqui vai ficar com a impressão que a odiosa Lurdes só fez coisas boas. Falta acrescentar muita coisa e não vou ser eu quem o vai fazer… Mas foi no tempo da odiosa Lurdes, uma professora primária, com um doutoramento em sociologia, que exalava raiva contra a classe docente, vá-se lá perceber porquê… e que decidiu mudar todo o cenário.

Para os mais esquecidos, relembro que a odiosa Lurdes apareceu no tempo do engenheiro. Sim, esse mesmo. O que está a braços com a justiça portuguesa por causa de uma data de cenas relacionadas com uns guitos clandestinos… O engenheiro é um tipo a roçar o autoritário. Sempre se arrogou como sendo o detentor da verdade. E rodeou-se de alguns como ele. A odiosa Lurdes foi uma personagem sinistra que que pôs e dispôs do poder que lhe foi atribuído. E decidiu partir a loiça toda. A ideia de partir a loiça toda só se torna proveitosa quando se aplica a situações de corrupção, abuso de poder, mau funcionamento de um sistema, inércia, maus resultados obtidos ou em alguns estados de alma pantanosos… Ah, já me esquecia, e quando se acha que o dinheiro gasto com os professores é exagerado…

Vamos lá ver uma coisa, a reformulação de um qualquer sistema é necessária e desejável. O objectivo de uma reforma será sempre o de conseguir uma melhoria desse mesmo sistema, certo? O impacto social tem que ser positivo. As reformas devem ser pensadas e planificadas tendo em atenção todos os seus interlocutores. Um líder capaz é aquele que consegue levar para a mesa redonda das decisões todas as ideias que pairam sobre o que deve ser reformado, certo?

A odiosa Lurdes era o oposto!

Decidiu sempre de acordo com a sua ideia inicial!

Por muito bem intencionados que sejamos, e não era o caso da personagem, temos que ter a consciência que as nossas opções e ideias podem não ser a melhor solução e que devemos ouvir e pensar nas ideias divergentes para podermos decidir bem.

Não foi o caso!

A odiosa Lurdes fez tudo ao contrário e decidiu mal, muitas vezes mal.

A velha máxima: dividir para reinar. Nunca fez tanto sentido como nesta altura da vida recente do país. Aliás, esta ideia de incentivar os portugueses a virarem-se uns contra os outros começou nessa época e prolonga-se até aos dias de hoje, alargando-se a todo o universo da sociedade, com a diabolização da função pública dum lado e o dito empreendedorismo privado do outro. Simplesmente ridículo mas extremamente eficaz, na óptica dos decisores políticos.

Mas voltando atrás, à odiosa Lurdes, convém esclarecer que a palavra odiosa que escrevo sempre antes do nome da funcionária que serviu a causa pública, tal e qual como eu, não tem uma carga pessoal, bem pelo contrário, o ódio vinha da personagem para fora. Pessoalmente, a personagem era-me indiferente e nunca tive nenhum fetiche de cariz sexual nem seria nunca uma opção viável… Apenas fiquei surpreendido com a nomeação de uma incompetente para um cargo tão sensível como é o de ministro da educação. O engenheiro lá teria as suas razões… o que é estranho pois o homem até era bastante competente…

Vamos lá ver uma coisa. Erros todos nós cometemos, certo? A dimensão do erro e as suas consequências é que nos levam a reflectir e a julgar, pese embora a palavra julgar seja demasiado pesada para o comum dos mortais… mas, o que é certo é que a odiosa Lurdes saiu incólume da trapalhada que conseguiu arranjar no sector… e a imagem que conseguiu prevalecer na opinião pública foi a de uma verdadeira valentona, que conseguiu afrontar uma classe poderosa, montada no seu cavalo alado, qual Pégasus da mitologia grega, com a sua coragem e vontade de vencer…

O povo português vai ser sempre assim. Vai sempre acreditar, uma vez e outra, as vezes que forem necessárias, na canção do bandido. Já não bastava acreditarem no pai natal… no D. Sebastião… A odiosa Lurdes só fez asneira atrás de asneira e sai de cena em braços e aclamada…

As asneiras foram mais do que muitas. Desde a criação de uma nova “situação” na carreira docente, a dos professores titulares; a criação de um sistema de avaliação que não funcionava e que mais tarde teve que alterar para se conseguir aplicar; o congelamento das carreiras; as cotas nos escalões… e, qual cereja no topo do bolo, a politização das escolas.

Venha o diabo e escolha. Até pode vir a prima do diabo escolher que vai olhar para o conjunto e vai sentir dificuldade em escolher. Foi tudo tão mau que, muito francamente, se torna uma escolha extremamente difícil. No entanto, eu fiz a minha escolha. No meu entendimento, a pior mudança que a odiosa Lurdes conseguiu realizar foi a politização do funcionamento das escolas, que ainda hoje se mantém. E porquê esta escolha? Que aparentemente não mexe com os professores? Então, e a avaliação? As cotas? Eu percebo que todas essas medidas sejam o motivo maior para o descontentamento dos professores e que devessem ter sido alvo de uma discussão séria e assumida para se encontrar um novo estatuto da carreira docente. Sim porque esse sempre foi o principal objectivo, não assumido, da odiosa Lurdes que sempre achou que os professores ganhavam muito e trabalhavam pouco.

Se queriam rever o estatuto, deveriam ter sido frontais e sérios, no sentido de acautelarem a justiça na implementação das mudanças. Não o fizeram mas palpita-me que brevemente os actuais funcionários da causa pública irão voltar à carga…

Mas adiante.

Eu sei que não tenho aumentos há dez anos, que a minha vida andou para trás e que, tal como muitos outros, senti dificuldades financeiras devido aos cortes e às expectativas goradas e que nunca vou conseguir chegar ao topo da carreira. Já não sinto frustração quando penso nisso. Sinto até que estou resignado. O que eu não consigo aceitar é a politização das escolas. Não consigo aceitar a replicação de um sistema político para dentro de uma escola. Não consigo aceitar que em muitas das escolas deste país sejam eleitos os directores de acordo com a cor política das autarquias. Passaram demasiados anos até se conseguir arrancar os crucifixos das salas de aula! Uma escola deve ser um local onde todos poderão expressar as suas ideias sem se sentirem coagidos, pressionados ou perseguidos por um qualquer dos seus intervenientes. Vivemos num estado laico e é inconcebível, ainda para mais se tivermos presente a miserável classe política que temos, que os directores sejam eleitos por personagens sinistros que apenas se preocupam em assegurar o poder e os seus interesses.

Eu estou numa escola há vinte e cinco anos, mais coisa menos coisa, e atravessei as duas formas de eleição. Inicialmente eram os professores, funcionários e representantes dos alunos que elegiam o presidente do Executivo, como lhe chamávamos. Depois deixei de poder expressar a minha opinião pois o actual sistema de eleição não contempla o meu voto. Quer dizer, há um conselho geral que é eleito pelos professores que depois é o seu representante numa eleição da qual fazem parte as ditas forças vivas da cidade… uma treta, no fundo, pois as forças vivas são nomeadas pelo poder local e, como tal, são todos da mesma cor. Na minha escola nunca houve atritos de cariz político, desde sempre e justiça seja feita, mas sei de muitas outras em que as pessoas são hostilizadas por serem de outra cor política. Se perdermos um pouco mais de tempo com o assunto também percebemos que as actuais candidaturas ao cargo de director são sempre condicionadas pelo apoio das autarquias e que, se esse apoio não for abertamente declarado, nem vale a pena concorrer, nem que seja o concorrente mais qualificado do país… quem vai ganhar é o outro…

E quem é que começou isto tudo? Quem? A odiosa Lurdes, claro está!

(To be continued)