Quando eu era pequenino.

Quando eu era pequenino, no meu bairro, tinha a alcunha de “O sonhador”, isto porque passava a vida a brincar sozinho e com umas histórias mirabolantes. Não que fosse bicho do mato, isolado dos outros, muito pelo contrário, andava com eles a roubar fruta, andava à guna nos eléctricos, fazia tudo o que havia para fazer, só que vinha sempre com umas histórias que saiam um bocadinho do contexto deles, porque do meu não.
Por falar em contexto, convém esclarecer que eu cresci num dito “Bairro social”, feito pelo arquitecto Távora e que ainda hoje é objecto de estudo pelos aspirantes a arquitectos. Não quero com isto hierarquizar os Bairros Sociais do Porto, mas o meu era mesmo diferente, na construcção, no ambiente e, apesar de que todos os que lá viviam serem de origem humilde, não havia casos de miséria ou casos sociais graves. Eramos todos remediados e com a noção do valor das coisas, mas sem complexos.
Isto tudo para dizer o quê? Que as realidades de cada um não impediam a harmonia do todo. Eu era o sonhador porque o meu pai sempre teve imensos livros e, tanto eu como a minha mana desde cedo começamos a ler, daí o imaginário ser diferente. Mas naquele grupo de amigos havia de tudo (menos gajas): O Nelo aparecia sempre com umas roupas diferentes, porque os pais eram decoradores; O Gabilas tinha pista de carros porque o pai era director de uma empresa e era o que tinha mais dinheiro, por isso fizemos grandes campeonatos numa pista que saía de um armário (os quartos eram pequenos): O Vilhena era o que tinha mais rotação e o mais maluco; O Cavalão era o da treta, engatatão sempre aprumadinho; O Salvador era o do gamanço, roubava tudo o que um adolescente precisava; O Quinzinho era o artista da bola (o pai era o Vitor Hugo, massagista do Fêcêpê); O Filó e o Calinas eram dois irmãos de rir, que só diziam calinadas, embora o mais novo fosse o mais exuberante; O Lode era o porreiraço que gostava de comer; O Roque era mais reservado mas alinhava em tudo; O Macó tinha sempre fisgas de borrachas virgens; O Vitor tinha os irmãos mais velhos e contava-nos as histórias deles lá no bairro; O Pulhecas era mais novito e alinhava na bola.
Formávamos um grupo muito coeso e aquelas férias grandes de três meses eram passadas na rua, literalmente, só iamos a casa para comer e dormir. Foi muito bom. Uma escola de aprendizagem da vida que muito me ajudou e da qual me orgulho. Só tenho pena de não saber de muitos deles.

1 thought on “Quando eu era pequenino.

  1. meteamorfode

    parecida a historia com a minha infancia, só que eu sei dos meus colegas……uns estão nos c.a.t. outros, ainda, a orientar guito para dar no cavalo…..

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