Chaves 1

Gosto da cidade de Chaves. Não será novidade, mas o facto de estar amantizado com uma indígena também ajudou a redescobrir aquela região transmontana.
Gosto de estar no campo, longe da confusão, a ouvir os passarinhos, a comer a fruta directamente das árvores. De tudo isto posso usufruir quando sou convidado para a Quinta do Sobralhal, que fica numa aldeia perto de Chaves e que é propriedade da família Cruz.
Vejo Chaves por dois prismas. O primeiro tem a ver com as pessoas, o lado bom das relações humanas. O segundo também tem a ver com as pessoas, o reverso da medalha, de estarem isoladas das realidades actuais.
As pessoas daquela região são, portanto, causadoras de tudo o que é bom e de tudo o que é mau. Isto tudo ao mesmo tempo, o que não deixa de ser curioso.
É uma região com potencialidades imensas e, no entanto, facilmente se constacta que essas potencialidades não são devidamente exploradas e se tornou numa região que passou ao lado…
O isolamento de que foi vítima não é desculpa para todos os males, mas ajudou um bocadinho no atraso das mentalidades. A massa pensadora esvaiu-se à procura de outras realidades e tornou aquela terra numa nostalgia imensa de vivências que não voltam nunca.

6 thoughts on “Chaves 1

  1. manticora

    Amigo Pedro
    O país está cheio de transmontanos em lugares de decisão. O próprio PM tem raízes transmontanas. O que nunca se assistiu foi a tomadas de decisão que visassem o desenvolvimento daquela região. Para mim, acho que este esquecimento está intimamente ligado ao fraquísssimo poder reenvindicativo das pessoas dessa região. Por natureza são muito metidas para si mesmas, fruto de um isolamento centenário, ou milenar, como quiserem, e aceitam as tragédias resignadamente.
    Tiraram-vos a linha do comboio, que se pagava a si própria se fosse explorada como linha turística, e o que disseram? Nada. A auto estrada, que tanto alívio me dá quando vou com a família, só agora é que está a ficar pronta. Tantos exemplos que se podem enumerar. O poder local, independentemente das cores, que não me interessa, é o principal elemento divisionista. Entre a classe política da região só existe guerrilha, não há uma linha condutora para a região. Não se organizam em lóbie. As coisas são mesmo assim e tem de se fazer uso da inteligência, que existe, como é óbvio, mas que está dispersa. E não me digam que são discriminados porque os transmontanos estão em tudo o que é lugar de decisão, só que os que lá estão são da geração antiga que quer que se mantenha essa ideia do pastor e não quer levar o mal para a sua terra através da auto estrada.

  2. Anonymous

    Amigo Rui,

    As potencialidades ainda cá estão, não serão “potenciadas” enquanto os desígnios nacionais rondarem os interesses locais da capital (OTA, TGV, TUNEIS) e não os do País. Não rentabilizamos essas ditas potencialidades, repara no caso floresta. Os nossos vizinhos espanhóis têm modelos de gestão de florestas e exploração das mesmas(criam postos de trabalho). Por aqui, só abrimos a “época de incêndios”e contabilizamos as áreas ardidas (maior ou menor que no ano anterior). Isto é apenas um exemplo, entre muitos outros.
    Esse isolamento físico que falas, foi minimizado grandemente pela dita “IP4-estrada da morte”, um eixo de ligação a Espanha vital para o País que todos sabemos como foi construído. Aliás os dois eixos de ligação a Espanha (Europa) foram construídos de uma forma irresponsável, com declives exagerados para pesados e traçados defeituosos. Relembro que serão estes os eixos de escoamento de pessoas e mercadorias para a Europa, já que a ferrovia tem sido esquecida. Afinal essa massa pensadora que existe noutras realidades não delineou uma estratégia para o País. Portugal parece um barco inclinado para direita, que se afasta cada vez mais da Europa desenvolvida a caminho das democracias da América do Sul.

    Os poucos que resistem, já não representam votos para a ditadura dos partidos. Se a margem sul é um deserto…imaginem Trás-os-Montes…
    Continuem com a imagem romântica da TV do pastor e o seu rebanho…ah! Sem água sem electricidade…numa caverna. E claro que nunca vimos o mar…nem na TV(não temos)

    Pedro

  3. meteamorfode

    Fracos em letra redonda, sabem todos honrar a grandeza verdadeira. E a prova é que o lá têm, a esse trágico inventor de tragédias (CAMILO), entronizado no coração das fragas, a receber o carinho eterno da terra onde foi menino e génio. Bateram-lhe realmente nas romarias, mas deram-lhe o maior bem que se pode ter:
    O nome de Transmontano, que quer dizer filho de Trás-os-Montes, pois assim se chama o Reino Maravilhoso de que vos falei.

  4. meteamorfode

    Às vezes agridem-se uns aos outros com tamanha violência que parecem feras. Mas olhados de perto esses nefandos crimes, vê-se que os motiva apenas uma exacerbação de puras e cristalinas virtudes, que só não são teologias porque Deus não quer.
    Fiéis à palavra dada, amigos do seu amigo, valentes e leais, é movidos por altos sentimentos que matam ou morrem.
    Ufanos da alma que herdaram, querem-na sempre lavada, nem que seja com sangue. A lendária franqueza que vem nos livros, é deles, realmente. Mas radica na mesma força interior que, levada à cegueira da exaltação, pode chegar ao assassínio. Bata-se a uma porta, rica ou pobre, e sempre a mesma voz confiada nos responde:
    – Entre quem é!

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