Não gosto desta senhora, mas desta vez, esteve bem.

EDUCAÇÃO: OS CRITÉRIOS DA EXCELÊNCIA

Lídia Jorge, no Público

A titularidade foi dada a professores bons, excelentes, maus e muito
maus. Não premiou nada, porque baralhou tudo.

1. Ficarão por muito tempo célebres os braços-de-ferro que Margaret
Thatcher manteve com os sindicatos do Reino Unido, como conseguiu
vencê-los, e como à medida que os humilhava, mais ia ganhando o
eleitorado do seu país. Na altura a primeira-ministra britânica era a
voz da modernidade liberal, criou discípulos por toda parte, e ainda
hoje, apesar do negrume da sua era, há quem se refira à sua coragem
como protótipo da determinação governativa. Mas neste diferendo que
opõe professores e Governo, está enganado quem associa o seu perfil ao
de Maria de Lurdes Rodrigues. Se alguma associação deve ser feita – e
só no plano da determinação -, é bom que o faça directamente com a
pessoa do primeiro-ministro.
De facto, a equipa deste Ministério da Educação tem-se mantido coesa,
iniciou reformas aguardadas há décadas, soube transferir para o plano
da realidade as mudanças que em António Guterres foram enunciadas como
paixão, conseguiu que o país discutisse a instrução como assunto de
primeira grandeza, fez habitar as escolas a tempo inteiro, fez ver aos
professores que o magistério não era mais uma profissão de part-time,
arrancou crianças de espaços pedagógicos inóspitos, e muitos de nós
pensámos que a escola portuguesa ia partir na direcção certa. Quando
José Sócrates saía com todos os ministros para a rua, nos inícios dos
anos lectivos, via-se nesse gesto uma determinação reformista que
augurava um caminho de rigor. Não admira que o primeiro-ministro
várias vezes tenha falado do óbvio – que era necessário determinar
quem eram, na escola portuguesa, os professores de excelência. Era
preciso identificá-los, promovê-los, responsabilizá-los, outorgar-lhes
credenciais de liderança. Era fundamental que se procedesse à sua
escolha. Mas a sua equipa legislou sobre o assunto e infelizmente
errou.

2. Errou ao criar, de um momento para o outro, duas categorias
distintas, quando a escola portuguesa não se encontrava preparada para
uma diferenciação dual. A escola portuguesa tinha o defeito de não
diferenciar, mas tinha a virtude de cooperar. O prestígio do professor
junto dos alunos e dos colegas não era contabilizado, mas era a medida
da sua avaliação. Pode dizer-se que era uma escola artesanal que
necessitava de uma outra sofisticação. Mas, para se proceder a essa
modificação com êxito, era preciso compreender os mecanismos que a
sustentavam há décadas, e tomar cuidado em não humilhar uma classe
deprimida, a sofrer dia a dia o efeito de uma erosão educacional que
se faz sentir à escala global. Só que em vez da aplicação cuidadosa e
gradual de um processo de mudança, a equipa do Ministério da Educação
resolveu criar um quadro de professores titulares, a esmo, à força e à
pressa. No afã de encontrar a excelência, em vez de se aplicar
critérios de escolha pedagógica e científica, aplicaram-se critérios
administrativos, de tal modo aleatórios que deixaram de fora grande
percentagem de professores excelentes, muitas vezes os responsáveis
directos pelo êxito pedagógico das escolas.
O alvoroço que essa busca de um quadro de excelência criou está longe
de ser descrito devidamente. Basta visitar algumas escolas para se
perceber como a titularidade está distribuída a professores bons,
excelentes, mas também a maus e muito maus, e foi negada a professores
competentes. Isto é, criou-se um esquema que não premiou nada, porque
baralhou tudo. Os erros foram detectados por muita gente de boa fé, em
devido tempo, mas o processo avançou, a justiça não foi reposta, nem
sequer a nível da retórica política. Pelo contrário, aquilo que a
razão mostrava à evidência foi sendo desmentido, adiado,
ridicularizado, ou desviado para o campo da luta sindical dita de
inspiração comunista.

3. O segundo instrumento ao serviço da excelência não teve melhor
sorte. Era preciso inaugurar nas escolas uma cultura de
responsabilidade que até agora fora relegada para determinismos de
vária ordem, menos os estritamente pedagógicos, o que era um vício da
escola portuguesa, pelo menos até à publicação dos rankings. Mas aí,
de novo, a equipa do Ministério da Educação funcionou mal. Se os
campos de avaliação do desempenho dos professores estão mais ou menos
fixados, e começam a ser universais, os parâmetros em questão foram
pensados por mentes burocráticas sem sentido da realidade, na pior
deturpação que se pode imaginar em discípulos de Benjamin Bloom,
porque um sistema que transforma cada profissional num polícia de
todos os seus gestos, e dos gestos de todos os outros, instaura dentro
de cada pessoa um huis clos infernal de olhares paralisantes. Ninguém
melhor do que os professores sabe como a avaliação é um logro sempre
que a subjectividade se transforma em numerologia. Claro que não está
em causa a tentativa de quantificação, está em causa um método
totalitário que se transforma num processo autofágico da actividade
escolar. Aliás, só a partir da divulgação das célebres grelhas é que
toda a gente passou a entender a razão da pressa na criação dos
professores titulares – eles estavam destinados a ser os pilares dessa
estrutura burocrática de que seriam os pivots. Isto é, quando menos se
esperava, e menos falta fazia, estavam lançadas as bases para uma nova
desordem na escola portuguesa. Como ultrapassá-la?

4. Não restam muitos caminhos. Ultimamente, almas de boa fé falam de
cedência de parte a parte. Negociação, bondade, comissões de sábios. A
questão é que não há, neste campo, nenhuma justiça salomónica a
aplicar. O objecto em causa não é negociável. Tendo em conta uma
erosão à vista, só a Maria de Lurdes Rodrigues, que sabe que foi longe
de mais, competiria dizer “Não matem a criança, prefiro que a dêem
inteira à outra”, mas já se percebeu que não o vai fazer. Obcecada
pela sua missão, que começou tão bem e está terminando mal, quererá ir
até ao fim, mesmo que do papel dos mil quesitos que alguém engendrou
para si só reste um farrapo. É pena. Depois de ter tido a capacidade
de pôr em marcha uma mudança estrutural indispensável para a
modernização do ensino, acabou por não ser capaz de ultrapassar o
desprezo que desde o início mostrava ter em relação aos professores.
E, no entanto, numa política de rosto humano, seria justo voltar
atrás, reparar os estragos, admitir o erro sem perder a face. Ou
simplesmente passar o mandato a outros que possam reiniciar um novo
processo.
De facto, em Portugal existem vários vícios na ascensão ao poder. Um
deles consiste em não se saber entrar no poder. Pessoas sem perfil
técnico, ou humano, aceitam desempenhar cargos para os quais não foram
talhados. Parece que toda a gente gosta de um dia dizer ao telefone,
no telejornal, “Papá, sou ministro!”, com o resultado que se conhece.
Outro é não se saber sair do poder. Houve um tempo em que Mário Soares
ensinou ao país como os políticos saem no tempo certo, para retomarem,
quando voltam a ser úteis. Os grandes políticos conhecem a lei do
pousio. E o objecto da disputa deve ser sempre mais alto do que a
própria disputa. É por isso estranho e desmedido o que está a
acontecer.

5. José Sócrates deverá estar a pensar que pode ter pela frente um
golpe de sorte – Margaret Thatcher teve a guerra das Falklands – e até
pode vir a ter uma maioria absoluta outra vez. Aliás, pelo que se ouve
e vê, a frase da ministra da Educação “Perco os professores mas ganho
o país”, cria efeitos de grande admiração junto duma população ansiosa
por ver braços-de-ferro no ar, sobretudo se eles vierem do corpo de
uma mulher. Não falta quem faça declarações de admiração à sua
coragem, como se a coragem prescindisse da razoabilidade. E até é bem
possível que a Plataforma Sindical um dia destes saia sorridente da 5
de Outubro com um acordo qualquer debaixo do braço, como já aconteceu.
Mas a verdade é que, a insistir-se neste plano, despropositado,
está-se a fomentar uma cadeia de injustiças e inoperâncias que só a
alternância democrática poderá apagar. Se José Sócrates pediu boas
soluções e lhe ofereceram estas, foi enganado, e deveria repensar nos
seus contratos. Mas se ele mesmo acredita neste processo kafkiano, é
uma desilusão, sobretudo para os que confiaram na sua capacidade de
ajudar o país a mudar. Neste momento, entre nós, a educação tornou-se
uma fábula

2 thoughts on “Não gosto desta senhora, mas desta vez, esteve bem.

  1. admin Autor do artigo

    Caro Porfírio
    Não sendo, nem de longe nem de perto, o objectivo deste blogue trazer para aqui os problemas relacionados com os professores, ou a educação (só quando me apetece), fico muito agradecido pelo seu contributo, que veio dar uma visão diferente da “coisa”.

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