Daquelas coisinhas, que não lembram ao diabo.

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Escrever um texto a quente, muito quente mesmo, nunca é boa ideia. Não vou estar para aqui a explicar o que é que isso quer dizer, vou antes perder tempo a explicar o que não deveria explicar. É mais forte do que eu. Também não o deveria trazer para aqui, para o meu blogue transsexual, transsensual, transqualquercoisa, porque é assunto de trabalho e, como tal, deveria ficar no sítio que lhe é devido. Mas não consegui controlar-me, não consegui deixar-me ficar inerte:

Estou cansado desta treta toda da avaliação. Estou farto deste desnorte que tem invadido a vida de muitos professores. Não sou mais do que os outros. Tenho os mesmos deveres e os mesmos direitos. Mas estou cansado do diz que diz, do faz que faz, das informações privadas, das contra informações, da intransigência de uns, da ignorância de outros e da palermice de muitos outros. Por tudo isto, decidi que deveria tomar as minhas decisões baseado naquilo que penso sobre o assunto e não na base da “onda” colectiva. Claro está que é sempre necessário perceber que ir para uma reunião geral de escola (quase parecida com as RGA de há uns tempos atrás…) sem uma razoável capacidade de argumentação é um verdadeiro descalabro. Claro está, também, que eu fui para essa reunião sem o tal poder argumentativo. Não porque não tivesse pensado no assunto, muito pelo contrário, até é assunto recorrente cá por casa, mas porque sou um menino, um menino tímido, que não me sei expressar perante uma plateia de verdadeiros talentos da oratória. Faz parte de mim deixar-me ir. Podia ter vindo para casa, para o conforto do lar, já que tinha entregue os meus objectivos individuais durante a tarde, mas não, tinha de ir à dita reunião, ver como paravam as modas. Não o fiz para provocar quem quer que seja, pois não faz parte da minha forma de estar na vida (podia fazer, mas não faz) mas apenas pretendia perceber o que se passava na minha escola. A escola onde estou há catorze anos, ou coisa parecida, e como tal tenho o dever e o direito de saber o que se passa. Não é que pretenda tirar proveito do meu estatuto de antiguidade, mas sempre achei que as pessoas que privam comigo, ao longo destes anos todos, me conhecessem minimamente. Enganei-me redondamente. E isso é que me chocou. Não foi o facto de terem ideias diferentes das minhas, foi antes a forma rude e grosseira como me enxovalharam por ter tido uma ideia diferente da delas, uma postura diferente da delas. Porra, que até digo asneiras. Sempre fui muito pacífico naquela escola. Sempre fui uma pessoa que entra bem disposta na escola. Sempre fui uma pessoa que investiu nas relações humanas, no bom ambiente e na maluquice dos espíritos. Tenho consciência de que não deverei agradar a toda a gente da escola, o que para mim é perfeitamente normal pois também eu não gosto de toda a gente da escola  e não sei o nome de muitas pessoas que por lá deambulam há mais anos do que eu. Faz parte do ser humano, ponto final.

Estou para saber. Saber o que é que as pessoas presentes entendem por medo. Muitas delas evocaram o medo. Medo de represálias. Medo que é preciso contrariar com a luta. Mas que medo? Mas que luta? Eu não tenho qualquer tipo de preconceito para com os sindicalistas, nem para com o seu discurso. Já o conheço de cor e salteado há anos. Portanto, não será uma coisa muito enriquecedora para mim. Acho mesmo que será por causa desse mesmo discurso repetitivo que estamos no ponto em que estamos. Mas essa ideia é muito minha, muito fora do contexto actual, por isso, mais vale encarar tudo isto como um sonho molhado. Por falar em sonho molhado, alguém se lembra do último sonho molhado? Não? Bem me parecia. É de outros tempos.

Isto está a ficar comprido. Está a ficar um texto muito extenso. Muito seca, dirão alguns. Eu concordo, mas por outro lado tenho necessidade de escrever o que me vai na alma. Isto já é mais perigoso. A alma. Há quem viva para a música. Eu vivo para a alma. Porquê a alma? Podia-me dar para viver para a sexualidade. Mas não. Deu-me mesmo para a alma. E foi na alma que eu pensei quando senti que a maioria  dos meus colegas (digo meus porque não quero pensar que estou rodeado pelas minhas colegas) ficou com as nalgas mais relachadas (eu sei, é mesmo foleiro, mas não consegui encontrar uma expressão mais conveniente) quando chegaram à conclusão de que teriam BOM e PROGREDIRIAM na carreira, mesmo que não entregassem os ditos objectivos individuais. Aqui, confesso (e a minha senhora que me perdoe) tive uma erecção do tamanho da torre eifell (com letra pequena, porque a nossa torre de belém é bem mais bonita) e fiquei mesmo a achar que o meu encabrunhamento não tinha razão de ser. Mas eu nasci assim, em 1961, que se lê de pernas para o ar, por isso, não há muito a fazer.

Posto isto, poderia sempre dizer (assim, tipo ressabiado) que não gostei de votações em pé, do género paulo portas ou gerónimo sousa, em que as pessoas são linchadas publicamente por terem opiniões diferentes, mas não vou por aí. Chateiam-me pessoas assim, e como tal, vou deixar-lhes um parágrafo, mas é tudo.

5 thoughts on “Daquelas coisinhas, que não lembram ao diabo.

  1. Boss

    … quando chegaram à conclusão de que teriam BOM e PROGREDIRIAM na carreira, mesmo que não entregassem os ditos objectivos individuais …

    As conclusões a que alguns chegam nem sempre concluem o assunto. Muita gente diz muita besteira sobre muita coisa. A que está destacada é, só, mais uma. Consultem o DGRHE, sobretudo no que deve fazer o presidente do CE aos que não entregam os objectivos individuais. Embora o que o DGRHE diz (escreve) continue a ser besteira. Que tempos estes!

  2. carla cerqueira

    Hoje o teu dia foi o chamado ” Dia de Cão”.

    É muito complicado estar a trabalhar num clima desses…mas há uma coisa que se chama liberdade de expressão e democracia!

    Se achaste que devias falar, desabafar acho muito bem.

    Como diriam no nordeste brasileiro…xô stress!não se aperrei!

  3. admin Autor do artigo

    Pois é, independentemente das razões de cada um, a verdade é que se torna complicado expressar outras opiniões. Também posso dizer que tudo isto serviu para separar o trigo do joio, pelo menos para mim.

  4. Rosa guedes

    Parabens pela sua coragem!Tal como o Rui fiquei tristissima, de paixão de nojo( = luto= quando me apercebi que as pessoas que têm opções diferentes das do colectivo são rotuladas de ” furonas”.
    Que a ministra e o sistema nos coarcta ainda vá!!! que os colegas nos coajam com ameaça de rótulos ou com “persuasões” à velha guarda de posições de braço no ar… absolutamente deprimente para uma classe com estudos superiores e que deveria ter a mente mais aberta.
    , amigo Rui, TIVE MUITO MEDO de vir a perder a liberdade de expressão e de pensamento. Ou já não a perdi?

  5. Telmo

    Pois é caro Rui! Em algumas coisas concordo contigo, noutras nem por isso. Acho que não devemos entregar os objectivos já que aparentemente isso não terá repercussões negativas (e mesmo que tivesse acho que deveria defender os meus interesses até ao fim). Por outro lado concordo plenamente com a avaliação, apenas me revolta a forma como está prevista e a distinção entre professores titulares e defs. Quanto à votação em pé, foi o acto mais ridículo a que assisti desde que sou professor. Aliás ridículo é pouco para caracterizar tal feito … Sobre o assunto apetecia-me dizer muitas coisas, mas já tenho dentro da escola inimigos suficientes … e cada vez são mais … e é melhor estar calado.
    Já não aguentava o que ouvia dizer nas tuas costas e como nas costas dos outros vemos as nossas … fui … arejar …

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