Jaime Gama. À cata do macaco.

Confesso que nunca gostei do personagem. Podem dizer que é um estadista, um homem sério, tudo o que quiserem. Para mim vai ser sempre aquele que, em plena Assembleia da República, foi apanhado, e reproduzido em foto, a tirar macacos do nariz. Nunca mais me esqueço dessa fotografia. Tem vários anos e não sei como encontrá-la, mas tenho uma vaga ideia de ter saído num jornal, a preto e branco, por volta dos anos oitenta. Já lá vão, portanto, uns anitos, mas aquele afinco com que o homem procurava apanhar o macaquito ficou gravado para todo o sempre. Depois disso passaram-se vários anos sem que, para mim, o personagem tenha feito alguma coisa de relevante, foi sendo mais um daqueles a que nos fomos habituando ao longo das nossas vidas, sempre com o seu Bokassa escondido, refreado, mas pronto a saltar ao primeiro sinal.

Mas hoje, tudo mudou. Não sei se por influência de mais um dia de chuva, se ontem comeu qualquer coisa que lhe fez mal. Não sei explicar o porquê e só ele o saberá dizer. Mas o senhor hoje acordou mal disposto. E como estava mal disposto desatou a cascar em quem podia. Em quem estava mais a jeito. Na Assembleia da República, claro está. Que ele é que é o Presidente daquela cena. Então não é que o senhor obrigou um desgraçado de um Secretário de Estado, por sinal da Educação, a repetir o início da sua intervenção por três vezes? Sim, três vezes. Não são duas! O Secretário também era lerdinho. Não perceber à segunda que tinha de seguir o protocolo… convenhamos… devia saber estas coisas de trás para a frente e da frente para trás. A piada está na insistência da correcção, doa a quem doer e se conseguirem ouvir as notícias do dia de hoje, vão perceber melhor a piada disto tudo.

Como se não bastasse, o senhor Presidente da Assembleia desancou nos deputados do Partido Socialista que começaram a espingardar com os jornalistas que estavam a tirar fotografias aos computadores “deles”, violando (salvo seja) a sua privacidade. O senhor Presidente não tem mais nada. Relembra que os computadores são propriedade do estado e que se destinam a servir a causa pública. Por outras palavras, quis dizer que os senhores deputados devem utilizar os computadores apenas para trabalho e não para consultarem páginas de mulheres nuas ou homens nús, consoante o gosto e preferência sexual, e para trabalharem com os benditos computadores. A piada disto tudo está no facto dos deputados indignados terem feito beicinho e fecharam os computadores abruptamente, em sinal de protesto.

Pronto, era isto mais o seguinte. O senhor Presidente da Assembleia da República subiu na minha consideração e pode continuar a tirar os pobres coitados dos macacos do nariz, que eu já não me importo nada. Tudo é relativo nesta vida e o que hoje é imprescindível, amanhã pode não o ser. É fraquinho, não é? Mas não consigo arranjar melhor final.

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