Em jeito de balanço.

Passados uns dias após o lançamento do livro, é inevitável pensar no que se passou. Sem brincadeiras mas sem querer parecer ser sério… consigo chegar à conclusão que a vida das pessoas deve correr ao sabor do vento. Pessoalmente, sempre levei a minha vida para onde estava virado no momento. terei feito boas e más escolhas, como toda a gente, mas nunca as programei. Visto assim, pode parecer um pouco banana, bananinha, mas a vida correu-me sempre de feição: andei muitos anos no atletismo porque me levaram para lá e eu gostei daquilo; tive uma hepatite e curei-a, com muita paciência, porque tinha de ser; namorei e perdi a minha virgindade numa altura em que os meus amigos todos só pensavam em subir às árvores (como eu, aliás…) e gostei tanto daquilo…; entretanto, mudei de clube e fui correr para o tal das gaivotas… e nesta altura, eu era mesmo bom a correr e a saltar barreiras, mas continuava a gostar daquilo e era uma verdadeira canseira…; depois, mandaram-me para a tropa e tive que me esforçar para ser o primeiro do curso para poder escolher o quartel onde desejava passar o resto dos meus dias em autêntica peluda… fiquei no Porto; acabada a tropa ainda andei a correr por mais dois anos mas tinha perdido toda a motivação…; fiz as malas e fui para Londres, lavar pratos, mas ao fim de uns meses regressei porque a minha namorada estava num período difícil; com o dinheirinho que trouxe ainda consegui tirar um curso de programação Cobol… que na altura era o futuro…;  um dia, o meu amigo Óscar Branco lembrou-se de me convidar para aparecer na companhia de teatro onde ele estava na altura e que já não existe, “Os Comediantes”, pois estavam a precisar de um moçoilo para um dos papeis… e lá fui eu… e fiquei por lá um ano… foi uma experiência muito boa… e daquilo que continuava a gostar… não falo…; no meio destas andanças, conheci uma jovem com quem viria a casar mais tarde e que andava em Belas Artes, um belo curso para eu tirar… e tirei-o… mas antes fui para Londres, novamente, ganhar um dinheirinho para poder sustentar os custos do curso…; enquanto andei a tirar o curso de pintura muitas coisas foram acontecendo… casei-me, divorciei-me, fui trabalhando numa secretaria de uns Bombeiros para ganhar uns cobres, depois fui dando aulas com horários pequeninos, diverti-me imenso e foi uma época de grandes exageros…; entretanto casei novamente, mudei de cidade e passei a dar aulas na mesma escola onde ainda hoje estou, tinha uma vida tranquila e muito boa mas, como em tudo na vida, acabou e divorciei-me novamente, tendo ficado com uma excelente recordação desses tempos; continuando, conheci a jovem moçoila que é hoje a minha rica senhora eque merece um parágrafo muito especial…

Casei-me novamente, regressei às origens mas continuei a trabalhar no mesmo sítio; praticamente sem saber ler nem escrever, estou na sala de espera da clínica onde nasceu a primeira das minhocas e pegá-la nos braços foi uma felicidade que não consigo descrever; como a vida é assim mesmo, e para grande infelicidade, o meu pai faleceu dois dias depois do nascimento da minha filha sem nunca a ter visto… foi difícil… e ter que dar leitinho, mudar fraldas e toda a rotina de cuidar de uma bebé ajudou-me a ultrapassar esse momento difícil; a casa onde vivíamos estava a ficar pequena e viemos para esta casinha, onde ainda estamos, a pensar no jardim e no espaço que a criancinha poderia usufruir…; e como a vida continua, aparece uma outra minhoca cá por casa… e foi mais um momento maravilhoso pegar naquela bebé, com a mana ao lado a fazer-lhe festinhas… não tem preço e fez-me sentir a pessoa mais feliz do mundo; as minhocas foram crescendo e eu envelhecendo… dei cabo das minhas costas de tanto banho lhes dar…  cabelos brancos começaram a aparecer e vão continuar a sua longa caminhada até à alvura total… fui um pai tardio porque… tinha que ser assim… mas as minhocas não devem achar lá muita graça por eu ser sempre o mais velho nas reuniões de pais e deve ser por isso que me incentivam a pintar o cabelo… assim como quem não quer a coisa…; com as mudanças todas que foram acontecendo na nossa sociedade fui aprendendo a lidar com as dificuldades financeiras e a tirar partido do que existe, mas esse é um capítulo encerrado que não deve atormentar a nossa relação como família; pensar em problemas financeiros quando uma das minhocas tem um problema de saúde faz sentido? não, pois não? bem me parecia! felizmente o problema foi resolvido e bem resolvido e a minhoca mais pequena cá de casa tem uma vida normal e cheia de vida mas, tenho que o confessar, ainda choro só de me lembrar daqueles tempos de medo, daquela operação interminável e de a ver toda entubada… foi a situação mais difícil porque passei e não desejo a ninguém a mesma vivência, mas já lá vai; e as minhocas foram para a escola, para a natação, às festinhas de aniversário (já começaram nas de pijama…), estão enormes e qualquer dia estão a sair de casa e eu internado num lar… é assim a vida… que vai correndo, umas vezes melhor e outras pior…; também tenho de confessar que sempre fui muito destrambolhado em relação à família, aos laços familiares, mas hoje em dia acho fundamental que a família seja o núcleo central do crescimento das minhocas ( e isto tudo sem o lado religioso do conceito de família…) e fomentar a união familiar é uma prioridade.

Por outro lado, e para terminar… tenho sempre a sensação de que não sendo uma pessoa popular, tive a sorte de ir conhecendo muita gente boa, muita gente que acrescentou algum sentido à minha vida e me tornou melhor pessoa. Que melhor manifestação de carinho e amizade poderia eu querer, quando me apareceram todos pelo café Vitória adentro para me darem um abraço ou um beijinho naquele momento tão especial para mim? Não tenho palavras para agradecer a todos os que lá estiveram e a todos os outros que eu sei que não puderam estar presentes mas que gostavam de  lá ter dado um saltinho. Ilustrar um livro, escrito pela minha rica senhora, sobre um problema de saúde de uma das minhocas, nunca me tinha passado pela cabeça e ser acolhido daquela forma… só me deixa livre uma palavra: OBRIGADO.

PS. No final deste texto tão… fatigante… ia-me esquecendo de dizer que continuo a gostar daquilo…

6 thoughts on “Em jeito de balanço.

  1. admin Autor do artigo

    Ehehehehehe aquilo que eu gosto… fica para segundas núpcias… pode ser que ganhe balanço para me aventurar…
    Abraço Zé Maria 🙂

  2. boss

    Texto muito bom (mas longo, parece um dos meus). Se a tua rica senhora desenhar alguma coisa, troquem papéis, agora – estou a falar daquilo que gostas mas não falas. Ou daquilo que escreves e não dizes. Ah, já me esquecia – não se agradece quando se dá tanto ou mais (como foi o caso) do que se recebe. E deu para te ver, neste texto. Faltou, talvez, a outra, que te leva e traz ao sabor do vento.
    Abraço e até um destes dias.

  3. admin Autor do artigo

    Ehehehehehehehe, a minha rica senhora também me chamou a atenção disso mesmo… que merecia um parágrafo especial e depois… só minhocas para a frente e para trás… Esse parágrafo ainda é um passado muito recente e ainda está a ser vivido… por isso, fica para a próxima:))
    Abraço

  4. José

    Curioso ai na tua autobiografia, o facto do capitulo mais longo ser o das minhocas quando na realidade o povo esperava era muita dissertação sobre aquilo que realmente gostas, para apimentar…
    Quando escrever a minha autobiografia vou escrever muito sobre aquilo que gosto, mas só publico na condição de já ser viúvo!
    abraço

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