Já faltou mais…

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Eu aprendi francês nos meus tempos de liceu. Naquela altura, acho eu, era obrigatório ter a disciplina de francês, não quero teimar mas acho que era mesmo obrigatório. E depois tive inglês. Mas a língua francesa era tida como essencial e estava associada aos movimentos culturais mais vanguardistas, por assim dizer… os intelectuais portugueses seguiam a cartilha francesa. Quem for dessa época, facilmente concordará comigo. Eu estava mais virado para o inglês, o que chegava de Inglaterra… tinha mais a ver comigo… mas não deixava de reconhecer o valor e o mérito do que nos chegava de terras francesas. Habituei-me a pensar que a França era um país evoluído e que defendia aqueles ideais da revolução francesa. Fui a Paris três vezes, todas elas em circunstâncias de vida completamente diversas, mas gostei imenso de lá ter ido. A impressão que me causou mais… impressão foi o facto de visualmente ser muito apelativo. As pessoas eram muito cuidadas e comunicavam imenso através do olhar. Eram olhares cheios de intencionalidade e muito comunicativos. Eu digo isto porque foi mesmo isto que eu senti. Não fui a locais especiais, limitei-me a ser mais um entre milhões mas gostei imenso de ver aquelas mulheres e aqueles homens cheios de boa onda.

Mas os tempos mudam.

Não sei o que se está a passar na sociedade francesa. Para ser sincero, não quero nem saber. E não quero saber porque tenho mais com que me preocupar. Apesar deste distanciamento, ainda vou acompanhando os telejornais e percebendo que alguma coisa de muito grave está a acontecer naquele país. Ontem vi imagens de uma enorme manifestação. Todos juntos rumo à torre Eiffel. Era um maralhar de gente. Uns falavam em oitocentas mil pessoas, outros menos, mas era muita gente. Toda junta num só propósito. Protestar contra a possibilidade de ser aprovada uma lei que possibilite o casamento gay e, como consequência, a possibilidade de adopção por parte de casais gay. Acho que escrevi tudo direitinho. Alguém não percebeu? Casamento gay e adopção por parte de casais gay. Claro, claríssimo. Qual é o problema daquela gente? No nosso país, que fazemos tudo pela metade, foi aprovada a lei do casamento gay mas não foi a da adopção… temos de dar desconto porque foram muitos anos de salazarismo e de ratos de sacristia… mas “prontos” lá demos um passo em frente e reconhecemos o que já deveríamos ter reconhecido há muitos anos. Tem que ver com direitos e deveres e cidadania… Ficamos a meio, é certo, mas lá chegaremos.

Agora em França? País que sempre foi um “baluarte” (palavra bonita e agora inócua…) da democracia e da pluralidade de ideias e formas de estar… fazem manifestações contra o casamento gay? Não querendo ser mauzinho, mas já sendo, acho que estão a ficar influenciados por todos os extremistas que habitam naquele pedaço de mundo e que, lentamente, vão conquistando o seu espaço, sendo eles marroquinos, argelinos, senegaleses ou pura e simplesmente adeptos do Le Pen… Que não se cuidem e qualquer dia o francês deixa de existir… como língua…

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