Não são horas decentes, mas também ninguém quer saber disso para nada…

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A solidão é uma forma de viver. Não é fácil viver com a solidão a rondar, por perto. Quem disser o contrário é porque não sabe o que é viver com a solidão. Quando muito teve uns episódios em que se encontrou sozinho perante a vida e achou logo que era o fim do mundo. Geralmente, não é o fim do mundo. Apenas se trata da nossa incompetência para lidarmos de forma adequada com os nossos sentimentos. O ser humano tem destas coisas. Tem tendência em confundir tudo. Neste caso, eu não sou um ser humano. Já basta de… ser, ainda por cima, humano… Eu confundo outras coisas, outras cenas. A solidão não me confunde. Sei lidar muito bem com ela. E aqui, que ninguém nos ouve, posso confessar que sempre fui um solitário. Um daqueles solitários que sabe viver no meio dos outros… seres humanos. Sou um rapaz, que gosta de raparigas (e que por vezes gostava de ser rapariga…), que gosta de trabalhar e viver em perfeita harmonia na sociedade onde está inserido. Assim, sem desconfianças, pareço um ser humano (agora sim) perfeitamente normal. Pareço, mas não sou. Também não sou um anormal,  apenas o sou no sentido de fugir à norma. Sou um rapaz solitário, no bom sentido do termo. O que não é bom mas também não é mau.

Passando por cima da conversa meio palerma em que me estava a enredar, é bom perceber, todos nós percebermos, que a solidão pode ser uma vivência muito positiva. Normalmente é encarada como uma desgraça. Eu não vejo as coisas dessa forma, nem de longe nem de perto. Encaro a solidão como uma forma de me conhecer um poucochinho melhor. Foi assim que cheguei à conclusão que gostava de, muito remotamente, ser uma rapariga. É sempre assim. Nos meus momentos de absoluta solidão, consigo perceber melhor a minha vida, os meus gostos, as minhas necessidades, as minhas vontades. Visto e lido desta maneira assusta. É tudo muito meu, minha, centrado em mim. Também, mas não só. O mundo, quer queiramos ou não, parte sempre de nós. Temos que gostar de nós para podermos gostar dos outros. É um clássico que não adianta tentar contrariar. Depois de nós estarmos bem, aparecem os outros, certo? E os outros ocupam um espaço enorme na nossa vida. Às vezes, grande de mais. Em demasia. Mas são importantes. E é nos momentos de solidão que melhor conseguimos pensar nos outros. No que eles representam para nós (outra vez o eu…) e como conseguimos encontrar um ponto de equilíbrio onde encaixar um outro ser humano na nossa vida.

Estou com um discurso muito… embaralhado, parte, reparte e volta ao mesmo? Sinceramente, espero bem que não. É que estou num momento de solidão e se este momento de solidão é confuso… não quero nem sequer pensar na minha vida…

2 thoughts on “Não são horas decentes, mas também ninguém quer saber disso para nada…

  1. Inês

    A solidão é fodida.
    Quando se perde muita gente e muita coisa em pouco tempo, de cada vez que algo ou alguém desaparece, leva um pouco da nossa pele. Ora uma perna, um pé, a nuca, os ombros, gradualmente vamos ficando em carne viva, a arder insuportavelmente, mas como em tudo na vida, somos mutantes e tudo se aguenta porque estamos programados para sobreviver. Tendo os devidos cuidados para não infectar e cobrindo-nos com as vestes adequadas, lá nos vamos safando.
    E quando se perde muita gente e muita coisa é normal querer encher esses espaços vazios, essas marcas das ausências que apenas deixaram um círculo de pó no lugar onde estavam.
    E é muita sede, muita desidratação, não temos pele, perdem-se os líquidos para a atmosfera e qualquer toque dói violentamente, até os abraços têm de ser cuidadosos pois não é recomendável largar linfa que fica agarrada às fibras dos casacos.
    E é preciso esperar, ter paciência, deixar a pele crescer sem arrancar as crostas, sem escarafunchar. Diz que sim. Mas demora tanto. A espera é insuportável.
    E queremos um abraço mas metemos nojo, tanta coisa à mostra, tanta carne, as veias, os tendões, está ali tudo e é suposto estar coberto por uma pele macia, quente e sedosa.
    E quanto mais se tenta, mais se perde. Lá vai mais um bocadinho, desta vez já era pele nova, um bocado do pescoço que estava a sarar tão bem!
    E queremos sentir felicidade outra vez, um bocado de calor que isto de estar sempre húmido é desagradável e faz frio.
    E o tempo passa.
    E nos tempos livres enfiamo-nos numa espécie de poço da morte, forrado a lixa e andamos para lá aos trambolhões. Enquanto dói sabemos que estamos vivos.

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