Quando tenho de pensar no título, tenho de perceber que melhores dias virão!

Ritaerenata

Os dias que correm estão-se a tornar patéticos. Para muitas pessoas não passará de uma palavra branda. Para mim tem o sentido da patetice em que o nosso mundo se está a tornar. Uma patetice abrangente, que nos está a invadir lentamente, muito lentamente.

Que conversa é esta?

Ao fim da tarde, num dia de chuva pode parecer um prenúncio de que a minha cabeça não está a funcionar bem. Podia ser. Mas não é.

Estou com esta conversa porque hoje fiquei chocado com uma reportagem, em directo, que passou ao final da manhã. Como foi em directo, não houve a possibilidade das imagens serem editadas… como é prática comum… nas nossas maravilhosas estações de televisão.

Passo a explicar:

Hoje houve um incêndio num apartamento da Amadora. Morreu uma criança de treze anos. Tinha mais um ano do que a minha filha mais velha. Morreu asfixiada. Antes de morrer asfixiada conseguiu trazer os irmãos todos para a segurança da rua e, na última ida ao apartamento em chamas, sabe-se lá fazer o quê, ficou lá. Uma verdadeira tragédia. Uma criança com aquela idade não devia ser a responsável por não sei quantos irmãos. Portou-se como uma verdadeira heroína. Sim, heroína, é a palavra certa para descrever esta capacidade que a criança teve para actuar, salvando os irmãos mais pequenos.

É revoltante saber que estas situações acontecem.

Como se não bastasse a descrição desta tragédia, a repórter de serviço decide entrevistar algumas pessoas que estavam nas imediações do prédio onde tudo aconteceu. Pergunta a uma mulher o que se tinha passado (uma daquelas perguntas combinadas antes do directo…) e a mulher explica que não conseguia descer por causa do fumo e que teve de ir para o telhado do prédio e que entretanto foi ligando para os bombeiros que, por sinal, demoraram algum tempo a chegar… E a repórter pergunta o que pensa de toda esta situação? Se a sua casa também tinha sido afectada? Que sim, diz a mulher, ficou com uma persiana toda queimada e que a sua mãe não pode dormir sem a persiana. Que já falaram com a CMAmadora para lhes resolver o assunto e que “eles” não iam fazer nada para já, que havia outras situações mais importantes…

A repórter não estava satisfeita e vai ter com outra mulher e pergunta-lhe porque estava tão exaltada há poucos minutos atrás? Responde-lhe a mulher que nem sequer mora no prédio mas que estava solidária com uma amiga que lá vive e que também viu as suas persianas serem derretidas pelo fogo e isso seria um problema que a CMAmadora não ia resolver imediatamente…

Foi isto que me chocou!

Eu percebo que a miséria humana existe, que não está relacionada com o facto de ter ou não dinheiro para o dia a dia mas não nos podemos comportar como verdadeiros animais. A criança que salvou os seus irmãos e que acabou por morrer porque foi uma verdadeira heroína já não interessava para nada. Aquelas pessoas não queriam saber do sofrimento daqueles que perderam uma criança. Estavam preocupados com as persianas.

Eu sei que não fui feito para isto.

Não sou mais do que os outros.

Mas não posso aceitar que estas situações aconteçam e que toda a gente ache normal.

É mau de mais para ser verdade!

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