Falta-me um bocadinho assim…

My beautiful picture

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Começou tudo por me ter calhado uma música que eu já nem me lembrava que existia. Uma musiquinha que já não lembra ao diabo, se bem que na época nos deixava com o diabo no corpo… A vida tem destas coisas. Um dia, tudo nos parece o fim do mundo e no seguinte… já nada interessa. A seguir à musiquinha de há uns minutos atrás, surgiu outra, aparecida pela mão do youtube… Na altura, também foi a mais ouvida. Hoje, confesso que já não ouço nada disto.

Sou uma pessoa diferente…

Para pior.

Hoje é mais bolos. Com creme. La créme de lá créme, ou coisa que o valha, que o francês sempre foi muito difícil para mim.

Hoje.

Ai, hoje.

Como sinto que a minha vida me fugiu, por entre os dedos, como qualquer outro lugar comum.

Espaço.

Espaço.

Espaço.

E como eu gostava disto.

Depois.

Bem.

Depois.

Comecei a inventar.

Eu sou bom a inventar. Muito bom mesmo.

Se me derem um espacinho, eu invento.

Sou rapaz para inventar o que me der na real gana.

Eu sei! Fica-me mal estar para aqui a dizer isto e aquilo da minha personalidade…

Fica, não fica?

Eu sei bem que sim mas não quero saber. Ponto!

Assim como assim vou levar por tabela. Aliás, passo a vida a levar por tabela. Sim, as pessoas acham que eu existo, que ando neste mundo, para as aturar. Eu até as percebo. Há muitos anos atrás, tive uma amiga minha que me disse que eu tinha uns olhos de cão.

De CÃO???Perguntei eu.

SIM, de cão, porquê?

Como assim, de CÃO???

Caramba, o que é que isso tem de mais?

Rapidamente pus-me a pensar em todos os cães que tinha tido até à data. Como é que seria ser cão. Boa questão à qual eu não tinha resposta porque até à data nunca tinha tido um canito…

Sem alternativa, voltei a perguntar o que queria ela dizer com UM CÃO?

Fiquei com a ligeira impressão que ela decidiu fazer uso da pedagogia… ora bem, um cão é conhecido porquê? Qual é a qualidade mais conhecida do CÃO?

Amiguinho?

Digo eu, meio na ignorância, meio convencido.

Não é bem isso.

Amoroso?

Digo eu, cheio de esperança em fazer um brilharete.

Também, mas não só.

Caramba, eu já tenho vinte e nove anos e não consigo perceber que raio de qualidade é que um CÃO tem… pensava eu com os meus botões… só possso ter um problema qualquer de compreensão que fica mesmo abaixo de CÃO…

Tive que desistir!

Não sei, porra!

Nunca tive um CÃO e não sei que raio de qualidade ou defeito é que um CÃO tem que eu não possa ter ou imaginar ter!

Estive quase para a mandar ir ouvir os maiores exitos da Donna Summer mas respirei fundo, pensei no meu orgulho,  acariciei e repuxei os meus mamilos e supliquei para que me fosse explicado o raio do olhar de CÃO.

Confesso que não me custou muito a parte dos mamilos mas também tenho de admitir que estava com um pressentimento secreto de que o olhar de CÃO fosse uma cena qualquer positiva.

É triste pensar assim?

Ok.

Fazer o quê?

Adiante.

O raio do olhar de CÃO não era mais do que um olhar fiel!!!

Fiel???

Como, fiel???

Fiquei destroçado.

O CÃO é um animal fiel? O meu olhar é o de um CÃO fiel?

Já não bastava ter o olhar de um  CÃO e ainda por cima ser fiel…

Claro que me pus a pensar. O que se passa comigo? Porque é que as pessoas pensam assim?

Devo ter qualquer coisa, algum aspecto físico que me identifica com um CÃO. Só pode!

E então perguntei.

Mas porque é que dizes que eu tenho um olhar de CÃO?

Podia ser de um pónei. Ou de um bambi (que faz mais o meu género…). Agora de um CÃO?

Achas que eu sou um rapazito fiel e submisso?

(Na altura, como nunca tinha tido cães, expressei a minha ideia sobre o conceito de fidelidade canina)

Acho. Quer dizer, mais ou menos!

Bem, se estás indecisa daqui a pouco estás-me a dizer que em vez de CÃO, o meu olhar pode ser parecido com uma joaninha, às pintas e pequenina…

Não, não era bem isso que eu queria dizer…

Então?

Era uma cena mais positiva (até porque o texto começa a ficar muito extenso), que o teu olhar era o de uma PESSOA fiel aos seus.

Estremeci. Confesso. Estremeci porque ela era gira e me estava a classificar como sendo uma pessoa. A coisa prometia…

Desde esse dia que a minha vida funcionou sempre em função da fidelidade. Do grau de fidelidade. Tive de pensar no assunto e tomar uma decisão. Não me adiantava nada passar o resto dos meus dias a pensar no choque que a ideia de ter um olhar de CÃO poderia trazer à minha vida. Pelos vistos ia ser assim.

E foi.

Continuo com um olhar de CÃO.

Fiel.

E depois, volto a pensar no assunto. A pensar no sentido de ser fiel.

E a pensar no erro. No meu erro. Nos meus erros ao longo da minha vida.

Um dia destes vou morrer. Como todos nós.

Como todos nós também eu deixo assuntos mal resolvidos.

Assuntos que gostaria de ter conseguido resolver.

Não fui capaz.

PS: Este texto acabou por ser um texto que eu não queria escrever. Pretendia escrever outras coisas que me atormentam a alma. Não foi possível. Estou esperançoso de que um dia o vou conseguir fazer.

PS 2: Esta imagem é minha. Sou eu. Há quatro anos atrás mas sou eu.

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