Mas que raio de título é que eu posso meter aqui (salvo seja)?

tumblr_m1i6b1YXc81qd33kzo1_500

Há dias em que nos arrependemos de acordar. Há outros dias em que somos mesmo obrigados a acordar. Hoje acordei compulsivamente… por assim dizer…

Acordei a dois tempos, para ser mais preciso. Primeiro acordei, se é que lhe posso chamar acordar, com sede. Muita sede. Uma sede desesperada. Eu sei porquê! Ontem ao jantar fiz uma francesinha, que estava puxadinha e que me deixou esgotado só de a comer. Tive o prazer de a anteceder com duas minis, coisa muito rara lá por casa, e acompanhei-a com uma garrafa de espumante, geladinho.

Até aqui nada de especial. Sentia-me nas nuvens e bem preenchido…

O problema é que me fui deitar…

E não, não dá para pensar que na minha idade se consegue pensar naquilo com a barriga daquele tamanho… Fui mesmo para a caminha para ler um pouco e conversar aquelas coisas que se dizem quando se está mais para lá do que para cá, no sono, bem entendido…

E adormeci.

Adormeci até à parte da sede violenta que me assolou o corpo. Eram duas e meia e nem sequer devo ter acabado o primeiro sono…

Mas lá me levantei e fui beber água. Água lisa, sem gás. Bebi de um só trago. Não estava nada, mas mesmo nada, à temperatura normal… estava gelada.

Quando acabei de a beber senti logo que tinha sido um pouco sôfrego com o raio da água. Atitudes de toda uma vida na minha relação com a água… Mas confesso que desta vez, antes de beber o raio da água, ainda pensei em ir lá baixo à cozinha e abrir mais uma mini… mas a minha consciência ditou-me que não o deveria fazer pois a noite era uma criança e depois não ia conseguir dormir mais. Dito e feito. Asneira. Teria sido muito mais feliz, com toda a certeza, se tivesse aberto a pequena mini.

Adiante.

Fui novamente para a cama. Com aquela sensação de absorção… e a achar que qualquer coisita má me iria suceder…

Vira para um lado, vira para o outro e o sono não aparecia a bater à porta violentamente… com a sensação a piorar… durante meia hora. Sim, eu vejo as horas de noite. Tenho um rádio daqueles antigos com os números luminosos…

Esta meia hora foi passada a tentar mesmo dormir e sem estar totalmente acordado… até que tudo se precipitou. De repente, muito de repente mesmo, começaram umas cólicas abdominais insuportáveis, como eu nunca tive e que, acho, devem ser muito parecidas com aquelas que as mulheres sentem quando dão à luz por processos naturais…

Nunca tive dores parecidas. Quer dizer, já tive umas dores indescritíveis quando caí em cima de um ferro, com as pernas abertas, e fui levado para o hospital para levar uns pontitos… Realmente, dessa vez, doeu para chuchu… Mas isso já foi há umas décadas atrás. Ontem vivi o verdadeiro pesadelo…

Comecei a suar abundantemente e a sentir um frio desgraçado. Consegui pensar que poderia ser uma quebra de tensão pois estava todo a tremer e sem força para nada. Mas tinha de fazer qualquer coisa. As dores de barriga não paravam de aumentar e tive o discernimento de me levantar até à casa de banho. Bem, levantar é uma forma de expressão. Foi mais arrastar.

E chegado ao altar, ao trono, ao sítio em que todo o ser humano se sente igual ao seu semelhante… virei uma sumidade do conhecimento anatómico… cada cólica equivalia a tudo aquilo que se consegue imaginar… Posso afirmar que senti este pobre corpo num verdadeiro rebuliço…

Saltando os pormenores sórdidos e bem apessoados, sempre posso afirmar que todo o processo foi acompanhado com tonturas, frio e reações cutâneas abundantes, num completo desespero. Como se não bastasse tudo isto, comecei a perceber que tinha cometido um erro crasso quando entrei para a minha bela suite amarela. Sim a casa de banho do meu quarto está forrada a pastilha amarela, com o chão em pastilha salmão… uma verdadeira emoção para os sentidos quando estão a turbinar… como dizem os meus alunos, vá-se lá saber porquê… Mas o erro? Qual foi o raio do erro?

Ah, pois, o erro!

Quando me arrastei para a suite… mal entrei, não sei porquê, mas fechei a porta à chave. À chave??? Como assim??? Porquê??? Pronto! Não sei! Mas o que é certo é que fechei a porta à chave…

Ninguém vai conseguir sentir a minha angústia. No meio de todo o processo só conseguia pensar que ia morrer enfiado numa sanita, sozinho e que a porta teria de ser arrombada pelos bombeiros… Imaginava a potencial viúva a ter de chamar os bombeiros para arrombarem a porta e resgatarem um corpo inerte…

Sim, porque estava num estado tal que não conseguia esticar o braço para rodar a chave…

Perfeitamente lastimável…

Já imaginava as crianças a acordarem com o barulho das pancadas dos machados a estroncarem a porta e a chorarem com a visão do pai sentadinho na sanita…

Foi muito mau!

Deve ter sido que me levou a reagir. Lentamente, comecei a controlar a respiração, a limpar as reações cutâneas… e a pensar que poderia ter futuro…

Pronto. Foi assim.

Lá me passou tudo e voltei para a cama. Eram três e meia e fiquei por ali. Com um almofadão nas costas, a tentar regularizar a respiração. Às sete da manhã estava novamente a pé para mais um dia de trabalho. Fui levar as crianças, risonhas e cor de rosa, ao Porto e dei meia volta para a minha escola, onde estive até quase as oito da noite.

Leave a Reply