Arquivo mensal: Março 2020

Domingo à tarde.

O que estou a ouvir? A um domingo à tarde é essencial ouvir um sheik. Eu vou para o sheik. Há quem vá para outras cenas musicais… Gostos não se discutem! Não tem importância. O importante mesmo é que estamos num domingo e é essencial manter alguma espécie de rotina. É o que mais me está a custar. Ontem fiquei pelo quarto durante quase todo o dia… foi estranho. Ok, que vi uma temporada quase toda “zero, zero, zero” era o seu nome e gostei de estar isolado a ver episódio atrás de episódio mas… não é lá muito saudável. E não, nem sequer pensem que estou maluquinho de todo que nem sequer saio do meu pijama… Nem pensar! Isso seria mesmo muito mau. Banhinho e vestimenta a condizer para o dia que começa é um ritual que não vou conseguir abdicar. E antes do banhinho… abdominais, pernas e flexões. Faço trinta de cada… porque já sou velhinho e não quero ficar sem uma perna ou um braço à custa de tanto exercício… Mas apesar de manter o mínimo de rotinas… acabei por ficar no quarto enfiado, longe da minha realidade familiar. Ok. Toda a gente anda com graçolas sobre as qualidades e o virtuosismo da vida de casal… e eu confesso que, no início, ainda perdia algum tempo a rir-me com as piadas que os portugueses tão bem constroem em cima da desgraça… é que este povo sempre teve essa capacidade, a de brincar com o que de pior acontece… lá isso é verdade.

Hoje, passados não sei já quantos dias de confinamento voluntário, começo a pensar que devemos levar as nossas relações muito a sério. Não cometer erros que se possam vir a revelar fatais é fundamental. Cá em casa, como em muitas outras casas, temos que encontram um equilíbrio geracional… porque somos dois adultos e duas adolescentes… e não é fácil. Apesar de sermos ambos professores e, por isso mesmo, termos algum traquejo em lidar com seres humanos de idade inferior e experiência reduzida… em casa, tudo aquilo que vivenciamos diariamente numa escola… de pouco serve porque numa escola temos sempre um intervalo ao fim de noventa minutos… em casa…?

Não é fácil. Se já não era, agora muito menos…

Pois, o raio do título! (metido em casa 24/7, pode ser?)

Começar um texto e ter que lhe dar um título… não faz nada o meu género. Sim, porque toda a gente tem um género… O meu ainda não percebi qual é. Ao fim de praticamente cinquenta e nove anos ainda não percebi o que ando por aqui a fazer, do que ando à procura, para onde vou… Mas isso, agora, não interessa nada.

Estamos todos há demasiado tempo em casa. Começamos a perder a lucidez. Começamos a entrar num estado de realidade virtual. Não é fácil estar enfiado numa casa. E cada um tem a sua casa. Com as pessoas que lá estão enfiadas. O espaço físico também varia mas isso não é o mais importante. Cada casa terá a sua realidade. Viver essa realidade é que é o verdadeiro desafio. O que fazer durante tanto tempo fora das rotinas a que estávamos habituados. Refazer as nossas relações com as pessoas que nos rodeiam. Repensarmos as nossas prioridades.

Tenho vontade de escrever umas caralhadas com as letras todas. Tenho vontade. Mais vontade. E depois respiro com mais força, fecho os olhos e penso: que caralho de texto azeiteiro que estou para aqui a escrever. O balhamedeus.

Sim, eu também tenho os meus momentos difíceis. Não parece, pois não? Pareço um rapagão forte de ideias e cheio de rumo na vida. Mas a realidade é outra. Se calhar como a grande maioria das pessoas que eu não conheço. Mas eu sou um rapaz normal. Sim, um rapaz. Não posso usar a expressão “rapaz”? Vem cá alguém para me bater? És tu, que vens cá para me bater, dar pancada a sério, por ter usado a palavra “rapaz”? Julguei! Hoje estou forte. Sinto-me um rapaz forte. Por isso, cuidado comigo!

Voltando ao que realmente é importante. Sou um rapaz… bem, queres ver… normal.

Ok. Vou mesmo ter que esclarecer esta cena do rapaz.

Rapaz = Homem entre a infância e a adolescência; garoto; moço.

Perceberam?

No meu caso, em plena adolescência.

Sim.

Ora pensem bem o que foi a vossa adolescência.

As vossas emoções eram assim? Ou assim? Se calhar sonhavam assim?

As emoções de um adolescente são sempre à flor da pele. As minhas também. Porquê? Porque eu sou um rapaz normal. Continuo com esta energia e com esta vontade de viver. Se é a melhor maneira de viver, se é a melhor maneira de sentir ou, porventura, a melhor maneira de ser companheiro, não sei nem nunca vou saber. Todos vamos acabar por morrer com aquela sensação de que poderíamos ter feito diferente. Ok, ainda não cheguei às portas de Brandemburgo e, quando lá chegar, pensarei no assunto… mas nos entretantos… vou olhando para trás, para a minha vida, com a vontade de perceber o que raio ando aqui a fazer e não querendo ser repetitivo, tenho a consciência de que a minha vida foi o que foi e a mais não sou obrigado… por isso, antes que o nosso amigo alemão me ataque, quero dizer ao mundo que “Não me arrependo de nada“, que consigo viver com os meus fardos e com os meus pesadelos. Há sempre um preço a pagar e o meu chega, invariavelmente, quando me deito e penso naquilo que foi o meu dia.

E agora vou preparar a mesa que hoje, o jantar, foi a minha rica senhora quem teve o privilégio de executar.

Estou de volta.

Já deu para perceber porque é que estou de volta. E não. Não é por causa do confinamento às quatro paredes a que estamos destinados por estes tempos difíceis. Simplesmente concertaram-me o blogue, por dentro… pois estava infectado (nem de propósito) com um vírus e constituía um perigo para quem abria a página. Espero que não tenha mexido o funcionamento dos vossos computadores. Para mim é mais fácil ficar em casa do que concertar estas cenas difíceis da informática ou lá o que lhe quiserem chamar.

Estou em casa. Sim, é verdade. Tal e qual milhares de outras pessoas.

Cá por casa vamos tentando encontrar algumas rotinas. É difícil. Uma das novidades cá por casa é eu não cozinhar todos os dias e a todas as horas. Repartimos as idas à cozinha. É bom para ambos. Quando não é a minha vez posso estar mais relaxado e com tempo para me deixar arrastar naquilo em que me meti. Por exemplo, hoje ao meio dia vai ser a minha rica senhora que vai fazer uns medalhões, com puré e um molho espesso que só ela sabe fazer (eu sou mais bruto no que toca aos molhos…) e acompanha um puré… Vai ser bom.

Entretanto eu estou aqui, no blogue, a tentar escrever o que me vai na alma. Sim, eu sei. O que me vai na alma? São muitos dias em casa e eu também tenho direito aos momentos de verdadeiro azeite. Ser um azeiteirola e começar a escrever palavras fofas. Não sendo cristão, sempre posso acrescentar: seja o que Deus quiser (Deus com letra grande, que o respeitinho é muito lindo. Então nesta hora de aperto…) e espero voltar ao meu normal…

Neste momento, o meu normal passa por estar acompanhado por um copo, pequeno, de vodka, de uma garrafa que comprei no freeshop há cerca de um mês. Sim, foi na nossa última viagem e não se percebe como é que a garrafa se manteve intacta até esta data. Deve ter sido o meu décimo sexto sentido que me levou a guardá-la para momentos mais importantes na minha vida.

Sim, este momento é importante.

Mas vamos continuar a ter vida quando este pesadelo terminar.

Eu desconfio que vou ter uma vida diferente, mais redonda (que é como me sinto porque passo a vida a comer…) com um hálito a álcool (que é como me sinto porque passo a vida a… desinfectar as mãos…) com a preocupação de falar mais baixo (e a perceber que a deformação profissional pode mudar as nossas condições de convivência… porque é isso que as minhas filhas me dizem… que falo alto…) porque sou um afortunado por estar confinado a estas paredes mas na companhia da minha família (para quem está sozinho deve ser muito mais difícil e eu sei do que falo) e depois temos os nossos pequenos prazeres.

Tudo bem. Temos que trabalhar. Eu como todos os outros professores temos que ir fazendo aquilo que conseguimos através das plataformas disponíveis, mas essa é uma outra cumbersa… que não é para aqui chamada.

Eu estou a falar dos nossos prazeres. Daquilo que gostamos mesmo de fazer. Daquilo que fazemos ao longo do dia e, quando estamos com a cabecinha na almofada, nos lembramos de uma doce memória recente. Por exemplo, ontem, quando me virei para a minha rica senhora, poucos momentos antes de adormecer, senti o gosto do merengue de limão que ela fez de sobremesa. Não será a mesma coisa do que fazer o amor, dirão alguns dos puristas que acham que o mais importante é fazer o amor. Fazer o amor bem feito, ainda por cima, que isto de fazer o amor às três pancadas foi no outro tempo. Aquele tempo em que não estávamos confinados às quatro paredes do isolamento e em que…

Fica a interrogação.

E não. Não vale começar a chorar com as oportunidades perdidas. O caminho ainda está para vir. Caminhem.