Arquivo mensal: Abril 2020

A ver vamos…

Nova etapa se avizinha com o início das aulas online. Vai ser uma nova experiência para a qual a maior parte dos alunos e professores não estavam preparados e que vai exigir uma dose enorme de bom senso porque os condicionamentos técnicos vão ser constantes. As experiências que se foram realizando ao longo destes dias foram úteis para se perceber que é impossível dar uma aula inteira online. Terão de existir pausas, o chamado trabalho assíncrono para que as tarefas possam ser realizadas offline pelos alunos e retomadas mais tarde para correcção e discussão das matérias. A ver vamos…mas que não vai ser fácil, lá isso não vai.

Nos entretantos fui descansando, dentro do possível porque a cabeça, nestas circunstâncias, não pára e é necessário conseguir encontrar algum equilíbrio para não ficarmos todos chéchés. Cá em casa somos quatro. Não é fácil encontrar algum sossego com duas adolescentes em casa. Felizmente elas, à semelhança de grande parte dos adolescentes deste país, viveram este período mais pela calada da noite. A vida delas tem vindo a começar quando a minha acaba. Vou para a cama relaxar e de seguida dormir e é quando elas começam a bombar, naquelas tretas de adolescentes… e depois? Depois, tenho dormido que nem um cuco e acordado cedo, bem cedinho, pelas sete da manhã e é o silêncio, silêncio absoluto. É nesta altura do dia que mais me rende. Leio ou vejo uns episódios das séries que ando a ver. E ultimamente ando a ver muita coisa HBO Europe. Séries fora da americanice do costume. Vi uma Israelita, uma Sérvia e uma Checa. Gostei muito, completamente diferentes no ritmo, na fotografia e no enredo. Depois vi uma sobre a vida do Saddam, estou a ver The Deuce e ao mesmo tempo vou vendo Tiger King. Tenho para uns tempos. Tirando isso, vou mantendo a forma física com abdominais, agachamentos e flexões, trinta de cada e chega, antes do banho. A treta da forma física é uma expressão de auto-convencimento porque o físico já está na fase descendente e não vou ser nenhum Sandokan, cheio de músculos. Se na juventude nunca quis trabalhar esse lado, por opção, agora, nem que quisesse a coisa lá ia. Mas convivo diariamente com o assunto de uma forma pacífica.

E lá vai passando a minha quarentena, igual a tantas outras, com música assim e assado. Fiquem bem.

Vou passando o tempo, assim…

Success. Acabei agora de ver esta série Sérvia. Gostei. Apesar de não gostar do povo Sérvio, por razões históricas recentes, pelas imagens adorei a cidade de Zagreb e, por aquilo que vi, não me importava de viver lá. Estive lá há quarenta anos atrás. Dizer que estive lá…é uma força de expressão pois estive em trânsito para Belgrado para participar numa Taça de Clubes da Europa em Atletismo. Outros tempos. O muro de Berlim ainda não tinha caído e nem sequer se sonhava com isso e, apesar da antiga Jugoslávia não ser um país alinhado, notava-se uma grande influência de leste. Belgrado, daquilo que me foi permitido ver naquela altura também tinha aquelas avenidas largas, construções de edifícios altos onde moravam pessoas, com amplos espaços verdes envolventes. Pareceu-me uma cidade quase criada de raiz e devidamente pensada e ordenada. Estou a falar da parte nova da cidade. Enfim, outros tempos.

Hoje, enfiado em casa, vou-me limitando a viajar agarrado a um ecrã…

Florbela Espanca Espanca

Eu quero foder foder

achadamente

se esta revolução não me deixa

foder até morrer

é porque

não é revolução nenhuma

a revolução

não se faz

nas praças

nem nos palácios

(essa é a revolução

dos fariseus)

a revolução

faz-se na casa de banho

da casa

da escola

do trabalho

a relação entre

as pessoas

deve ser uma troca

hoje é uma relação

de poder

(mesmo no foder)

a ceifeira ceifa

contente

ceifa nos tempos livres

(semana de 24×7 horas já!)

a gestora avalia

a empresa

pela casa de banho

e canta

contente

porque há alegria

no trabalho

o choro do bebé

Adília Lopes – Obra

Quase de férias?

Tempos estranhos. Acabei a última reunião de avaliação online… Em tempos normais estaria aos saltos e aos abraços a todos aqueles que conseguisse apanhar porque… estaria a entrar num período de descanso… e desta vez… quem me dera estar a trabalhar. Nunca me passaria pela cabeça viver uma situação destas. Nem a mim nem a ninguém.

Todos aqueles que conseguirem ultrapassar este momento difícil vão viver a vida de uma forma diferente. Tenho a certeza que toda esta experiência vai marcar positivamente todos aqueles que não vivenciarem uma morte próxima, de um parente ou de um amigo. Para esses vai ser muito difícil.

Esta experiência, se não fosse trágica seria digna das mais aventuranças e transmitida de pais para filhos, mas tenho a impressão que vamos querer esquecer uma parte disto tudo. O que irá ficar nas nossas memórias? Pois, essa é que é a questão. O ser humano é pródigo em esquecer muito facilmente as experiências passadas. Para o bem e para o mal. Basta olharmos para a história e percebemos que nunca aprendemos com os erros e raramente sabemos valorizar o que de realmente positivo vivenciamos. Uma pena.