Arquivo mensal: Maio 2020

Pode não ter interesse. É sobre a minha vida.

Meio litro de cerveja. Fresquinha e a borbulhar. Depois de duas horas ao sol, a torrar, não há nada melhor do que uma cerveja muito fria. Nos dias anteriores andei a beber limonada. Também não desgosto. Mas hoje… hoje estive ao sol e a ouvir música. Música dos anos oitenta. Sim, toca a todos. Momentos de nostalgia, quem nunca os teve? Pois, bem me parecia. Mas adiante. Como trabalhei da parte da manhã, agora a ideia era mesmo esticar-me na espreguiçadeira e ficar por ali a ouvir música. O problema consistia em conseguir ter acesso às músicas que me apeteciam ouvir. Nada de muito especial (Cure, Cramps, Sound, Carmel, Virgin Prunes, Fall, Phsycadelic Furs, Cult, Talking Heads e por aí fora) e a solução foi o Spotify, o dos tesos como eu, com publicidade pelo meio e que só dá mesmo com acesso à internet. Para já foi assim, depois logo se verá se vale a pena passar para a conta premium.

E gostei. Aliás, gostei muito de estar ali esticado, com os phones, alheado do mundo e a pensar na minha vida. Na minha vida desta altura. Eu não posso dizer que tive várias vidas, como os gatos. A minha vida é que teve várias vidas, todas elas muito boas. Do passado ao presente, não me posso queixar pois sou um ser humano com muita sorte na vida. E não estou a falar de dinheiro ou sucesso social ou o que quiserem chamar. Estou mesmo a falar da vida, vivida com intensidade e sempre muito bem acompanhado por pessoas que me marcaram intensamente. Praticamente não tive momentos negros na minha vida. Tirando a morte do meu pai, não me lembro de nenhum período mau e a vida foi sempre decorrendo com maior ou menor dificuldade (sim, eu nunca vou ter uma vida desafogada em termos financeiros) e tudo se foi compondo com o tempo. Mas voltando atrás, esta vida vivida nos anos oitenta, foi uma rica vida.

Eu nasci em 1961, sim esse número mágico que se lê das duas maneiras: direito e de pernas para o ar. E quem não sabe, o próximo ano em que tal voltará a acontecer será o de 6009, um pouco distante mas que, para aqueles que acreditam na reencarnação, poderá vir a ser o seu ano de eleição… Mas o meu ano de nascimento basta-me para saber que a minha vida vai ser uma vida em cheio… Quando fiz vinte anos era um rapaz que corria, saltava barreiras e era bom naquilo. Só fazia atletismo e sonhava fazer vida daquilo. Era treino pela manhã e novo treino pela tarde. Raramente faltei a um treino e era, como ainda sou hoje, muito disciplinado e organizado nas tarefas que me proponho realizar. Não parece, pois não? Mas sou. E podia ter ido longe se não fosse um conjunto de circunstâncias que me deixaram desapontado e saturado (fui obrigado a ir para a tropa, treinava na terra e tinha que ir a Lisboa para correr na borracha…e não evolui por causa disso tudo) e desisti. Não me arrependo de ter desistido. Trabalhei como fiel de armazém na Pelikan, a das canetas, e que já não existe. De seguida fui para Londres, trabalhar. Regressei e estive um ano na companhia de teatro “Os Comediantes” que me encheu as medidas pelas diversas experiências que vivi, de terrinha em terrinha (Portugal e Espanha), a montar e desmontar o espectáculo, a viver com pouquíssimo dinheiro, mas feliz. Foi nesta época que foram lançadas as bases do meu primeiro casamento… conheci a artista plástica Isabel Padrão, que nesta altura ainda era estudante, e casamos uns anos mais tarde. Não durou muito. Foi mesmo um casamento curto. Coisas da vida. Foi um relacionamento completamente diferente de todos os que tinha tido pois passei a ter contacto com um outro mundo, completamente desconhecido para mim. Já não me bastava ter tido aquela vivência arrebatadora do mundo do teatro e passei para o mundo dos artistas plásticos, com as suas taras e manias… como canta o nosso Marco Paulo…

O que é certo é que com estes abanões todos a minha vida lá foi continuando, sem grandes pressões, um bocadinho para onde estava virado e consoante as necessidades. Fui novamente para Londres fazer um dinheiro, fui não, fomos os dois e depois eu ainda fiquei por lá mais uns tempos, sozinho, para voltar e começar a trabalhar numa secretaria de uns Bombeiros Voluntários, como escriturário… sim a vida dá muitas voltas e estive por lá três anos. Pelo meio entrei em Belas Artes, para tirar Pintura, estudava de dia e passei a trabalhar nos Bombeiros à noite, todos os dias até à meia noite. Às sete e meia da manhã já estava a apanhar o autocarro para chegar às aulas às oito e meia. E sim, raramente cheguei atrasado porque sou disciplinado… e não gosto de dormir muito, por isso, saltar da cama não me custa.

Nesta altura, com vinte e tal anos, achamos que temos o rei na barriga e o mundo aos nossos pés. Era um rapaz um pouco extravagante. Tanto andava com o cabelo todo esticado para o céu, como cheio de brilhantina. Tanto usava umas calças coloridas com um blazer aos quadrados que não correspondia minimamente, como andava de preto ou fato e gravata. Era para onde estava virado. E eu virava-me bem. Não tinha, nem tenho, manias, mas já nessa altura me esforçava por não julgar ninguém por aquilo que aparenta mas dava-me gozo aparecer desalinhado… coisas da juventude. E dançava. Dançava como se não houvesse amanhã e da maneira que só um corpo jovem, atlético e saudável consegue. E vibrava com as músicas… que estive a escolher hoje… daí a nostalgia. E não é que ache que ser nostálgico seja mau. Para mim sempre foi bom recordar o que vivi pois não vivo preso ao passado.

Equilíbrio, precisa-se!

Primeiro dia de trabalho presencial. Depois de dois meses a trabalhar em casa, finalmente fui para a escola. Não quero parecer irresponsável mas estava a precisar de sair de casa para ir trabalhar. Fui na minha bela Scarabeo, com a borboleta mais velha. Os dois a levarmos com a brisa da manhã, nas calmas, a saborear a estrada. Eu sei que muito provavelmente ela ia a enviar mensagens pelo telemóvel mas como estava nas minhas costas… não vi nada… e por isso vou acreditar que ela estava no mesmo nível do nirvana que eu e que a viagem foi maravilhosa.

Chegado à escola deparei-me com um aparato de medidas que me deixaram tranquilo. Medição da temperatura à entrada, de seguida peguei numa máscara. Isto tudo à vez e com uma distância de dois metros, mais coisa menos coisa. Os alunos foram sujeitos às mesmas medidas e quando entram são logo direccionados para as respectivas salas. Sentam-se espaçadamente e quando entrei na sala ficaram a olhar para mim com a curiosidade de quem nunca me tinha visto com uma máscara… e eu a olhar igualmente para eles com ar de estranheza. Passou rapidamente. Eram os meus alunos e rapidamente quebramos o impasse. Vamos ter mesmo que nos habituar a este tipo de cuidados. Mas custa. Custa dar uma aula de noventa minutos sempre a falar. Sim, não parece, mas eu falo pelos cotovelos e não, não é phalo pelos cotovelos. Aliás, já tinha saudades de falar, falar pelos cotovelos. Como sabido e mais que sabido, cá em casa eu não tenho muitas oportunidades de dizer duas frases seguidas. Não tenho muitas hipóteses, por assim dizer, de expressar os meus sentimentos… elas não deixam.

E quando acabou lá viemos para casa, novamente montados na bela Scarabeo 500 GT, felizes e contentes, com uma bela costeleta do Barroso à espera, para depois passar pelas brasas na espreguiçadeira com uma musiquinha a condizer. Vida difícil.

Era para ser uma crónica. Era.

Porque será que me lembrei hoje, logo hoje, de escrever? Por ser dia 13, número do azar? Por ser dia 13 de Maio, o dia mais “religioso” de Portugal? Por ser o dia 13 primo do dia 13 de março e do dia 13 de abril? Quer-me parecer que esta última hipótese é mesmo aquela que me faz acreditar que a vida existe… para além do meu mundo… Sim, este dia 13 marca a minha existência e a de muitos outros portugueses. Faz dois meses que estou enfiado em casa, como tantos milhares de portugueses.

É realmente um dia marcante mas tem sido difícil. Apesar de ser um privilegiado, tem sido difícil. E se começar a pensar a sério no assunto vou ficar deprimido, como já fiquei bastantes vezes durante este período. Tem sido frequente. As lágrimas quererem aparecer. Não deve ser só comigo. Tenho a ligeira sensação que andamos todos mais sensíveis. Mais isolados e descompensados. E mais crus. Pelo menos eu apercebo-me que sou capaz de dizer coisas… de uma forma mais crua, que podem, eventualmente, ser mal entendidas. Quem nunca? Mas nunca atingi ou ultrapassei os limites… mas não é fácil vivermos tanto tempo uns com os outros. O ser humano precisa de espaço.

Escrito há quinze dias… e ficou a meio…

Boys don`t cry . Esta coisa de estar em casa há tanto tempo tem mexido com uma parte do cérebro. Ainda não sei a extensão da mexida mas que tem mexido, lá isso tem. Apenas consigo identificar alguma inércia. Fico danado com o facto de, por vezes, não ser tão perspicaz e activo como gostaria. Não é que seja lá muito perspicaz e muito activo por natureza mas como tenho tempo para pensar gosto de imaginar que o sou. Não é por nada. Mas gosto de me entreter a pensar na vida, na vidinha. Na minha vidinha, porque a dos outros não me diz respeito e quem sou eu para opinar sobre o que as outras pessoas pensam/dizem/escrevem/pintam/cantam ou lá o que quer que seja. Sou pequenino. Mas tenho uma certeza. Somos todos pequeninos. Estamos todos, ou quase todos, enfiados em casa com medo de morrer, a pensar que a vida é tão efémera e que a devemos aproveitar ao máximo. Bem sei que as generalizações são perigosas mas se não for o caso então estou muito enganado acerca do sentido da vida… Oh my god, que só me consigo lembrar da Vida de Brian.

Adiante.

Tenho andado a pensar na minha vida passada. Não quero saber de planos para o futuro. Tenho andado às voltas com o meu passado. Não tenho a percepção que o mesmo esteja a acontecer com as outras pessoas. Frequento algumas redes sociais e não me tenho apercebido deste tipo de preocupações. Também não quero saber, nem me interessa por aí além aquilo que as pessoas pensam em determinados momentos da vida delas e da minha vida. Os tempos são muito personalizados e raramente coincidentes, por isso não há necessidade de fazer grandes filmes sobre o impacto que aquilo que escrevemos tem nas pessoas que nos rodeiam. Já li tanta coisa que na altura em que li não representou nada, nem tiveram impacto na minha vida, e que passados uns tempos tive a oportunidade de reler e aí foi completamente diferente. Acontece. Frequentemente.

Adiante.

Quem nunca “botou” a mão na consciência e ficou a pensar nos períodos menos bons da sua existência? Eu “boto” muitas vezes a mão na consciência. Também “boto” a mão em muitos outros sítios. Uns mais prazenteiros e outros nem por isso. Mas, sim, eu já magoei muitas pessoas. Bem, também não foram assim tantas. Mas as que magoei foram importantes para mim. E nesta altura do texto, convém explicar que a palavra “importância” também não pode ser considerada uma atenuante. São pessoas para as quais até posso nem sequer ter sido importante para elas e por isso aquilo que é importante mesmo, pelo menos para a minha consciência, é que as magoei enquanto seres humanos. Está a ficar tudo muito rebuscado. Aliás, essa é uma característica do ser humano. Complicar. Rebuscar. Tudo para conseguir encontrar um caminho suave. E eu não sou mais do que os outros seres humanos.