Oportunidades perdidas? Na generalidade.

Podia começar o texto assim: “Sou rapaz para ter desperdiçado uma data de oportunidades na minha vida”. Podia, não podia? Se calhar podia. Mas não consigo. Porquê? Porque a palavra rapaz tem uma conotação muito forte. Tão forte que me deixa desorientado. A verdade é que já não sou um rapaz. Quem diria. Nem tão pouco penso como um rapaz. Felizmente, digo eu. Não é que ser um rapaz seja mau. Pelo contrário. Até porque eu também já fui um rapaz, perdido no tempo, mas um rapaz. E ser um rapaz é tão bom. Sim, é bom ser um rapaz. Quem não se lembra quando era um rapaz? A vontade de mudar o mundo de um rapaz não tem classificação. Mas adiante. O título tem duas palavras. Oportunidades perdidas. Oportunidades? Perdidas? É mau de mais escolher um título destes e eu sei que fui eu que o escolhi. Mas é mau porquê? Vamos por partes. Comecemos pela primeira palavra. Oportunidades. O seu significado tem sempre dois lados. Positivo e negativo. Venha o diabo e escolha…o negativo… Claro que estou a ser tendencioso porque gosto de tecno, ouço regularmente tecno e, claro está, gosto do diabo, vestidinho de vermelho e com o rabinho a dar a dar. É por isso que acho que a palavra oportunidade tem sempre um significado negativo. A palavra está intimamente ligada a aproveitamento e, quando se pensa em aproveitamento…

Perdidas?

Oportunidades perdidas? Não sei como me lembrei desta associação de palavras. Não se aplica à minha vida. Acho que nunca me senti a perder uma oportunidade, daquelas que surgem uma vez na vida. Pelo contrário. Estou muito feliz com o rumo que a minha vida tomou. Eu sei que a minha vida não interessa a ninguém, apenas a mim e a todos aqueles que gostam de mim, mas consigo pensar o meu percurso de uma forma tranquila, sem sobressaltos e sem frustrações motivadas por… oportunidades perdidas… Isto tudo é muito lindo de escrever, pensam vocês e penso eu, mas é mesmo verdade. Claro que sempre tive os meus desejos, como todo o ser humano. Adorava viver outras situações, outras vidas. Por exemplo, gostava de ter sido cantor. Este é um desejo, o primeiro desejo de uma longa lista, que gostava imenso de concretizar apesar de me rir imenso só de pensar no assunto. É que eu gostava de ser cantor de uma coisa qualquer. Podia ser pimba, rocalhada, o que aparecesse à frente, tanto fazia. O que eu gostava mesmo era de estar a cantar com um microfone na mão e a ouvir a minha voz. Não tenho grande voz, é certo, mas não há nada melhor do que ouvir a nossa voz numa perspectiva diferente (aquele que está aos berros, sou eu?). Quem nunca teve curiosidade de ouvir uma gravação da sua voz, que atire a primeira pedra. Enfim, gostava de ser cantor. É uma cena que já vem de longe. Quando era pequenito e vivia feliz no meu bairro, com os meus amigos, era conhecido como “O sonhador”, foi a alcunha que me calhou… todos tínhamos alcunhas e a minha deve ter tido uma qualquer razão obscura… Por acaso lembro-me. Entre as idas aos pomares de fruta, à pancadaria quando calhava, às idas à escola com a pasta de couro a cheirar a banana misturada com aparas de lápis, lá sobrava um tempinho para cantar e fazer umas lutas de espadachim, contra o vento, e assim foi ficando a alcunha. E agora que me lembrei das alcunhas da minha infância, a memória (sim, essa cena fantástica que habita dentro de nós) leva-nos por caminhos nunca antes navegados… e para além de “O sonhador” também era conhecido por “Preto” e ” China” vá-se lá saber porquê… mas o que me assalta eram as horas que passava a lutar contra a parede do meu prédio???, com uma espada feita por mim, em verdadeiros duelos… Eu sei, ninguém deveria lutar contra uma parede de um prédio…

E cantar? Cantar, cantar, não me lembro de estar a cantar enquanto lutava contra uma parede… lembro-me que falava imenso, vociferava autênticas palavras guerreiras contra a parede do prédio, se calhar como forma de intimidação… Naqueles tempos, a intimidação era uma arma. Eram tempos de rua. Toda aquela geração cresceu na rua. Nas férias era uma loucura. Saímos de manhãzinha, vínhamos almoçar, tornávamos a sair e só regressávamos a casa por volta das oito da noite para jantar. Lavávamos as patinhas para comer e depois de terminada a refeição íamos direitinhos para o banho tirar o surro. À noite saíamos para a rua mas a coisa era mais calma, ficávamos na conversa porque não dava para dois banhos diários nem duas mudas de roupa… Mas também não foi nessas alturas que o desejo de ser cantor me assaltou. O meu bairro era tranquilo. Tínhamos uma parede de um bloco (bloco habitacional – do arquitecto Fernando Távora) onde nos reuníamos e ficámos por ali a conversar até passarem os habituais dois polícias, nas suas fardas cinzentas, completamente cheios de copos mas sempre muito simpáticos connosco, e a seguir íamos para casa. Por isso não terá sido nessa altura que me terá dado a vontade de cantar. Também não interessa muito. Sim, o que interessa saber a altura exacta em que um ser humano desejou ser cantor? Não me parece relevante.

Voltando ao assunto. Gostava de ter sido um cantor.

(to be continued)

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