Eu me confesso.

Começo por confessar que não estava a contar com uma pandemia. Sei que há por aí muito boa gente que já sabia que a pandemia ir surgir e que iria acabar com o mundo. Eu não sabia. Aliás, nunca sei de nada e sou sempre o último a saber. Mas, o que é certo, é que o mundo não acabou. Não acabou mas deixou marcas profundas.

Confesso que durante este período de quase um ano e meio tive largos períodos em que quase hibernei. Não quis saber do mundo. Li menos do que queria e podia. Vi filmes e séries mais do que devia. Sempre na perspetiva de empurrar o tempo com a barriga. Para a frente.

E o tempo foi passando sem que eu me apercebesse das marcas que estava a deixar gravadas.

Também confesso que nem vou nem quero queixar-me da vida e das marcas gravadas a sangue… porque… muito simplesmente, consigo conviver com o meu passado tranquilamente e se, eventualmente, me sentir menos energético não há nada como beber uns valentes copos, abrir as janelas, inspirar e gritar a plenos pulmões “caralho, que a vida está difícil”. Normalmente resulta.

É altura de confessar uma outra coisa.

Eu me confesso. O texto está uma seca. Muito sério. Sem piadinha nenhuma. Mas se vos confessar uma berdade, berdadinha, berdadeira vos disser que a bidinha das pessoas (eu incluído) é um balente aborrecimento… e que passamos metade do nosso tempo útil a tentarmos fazer-nos ouvir… é muito triste, ou não é? Pois é. Todos percebemos que numa altura ou outra da nossa vida andamos às voltas a gritar o que sentimos e pensamos mas que ninguém quer ouvir. Sim. As pessoas não são surdas. Só não querem ouvir. E isso adianta de alguma coisa? Continuamos incansavelmente a gritar o que sentimos e pensamos.

É estranho. E é tão estranho escrever isto mesmo sabendo que é precisamente isso que estou para aqui a fazer. Sim ou por acaso alguém teve a veleidade de pensar que eu seria um ser humano diferente de todos os outros seres humanos que habitam este planeta? Nada disso. Tenho dois pés bem torneados, duas pernas ainda musculadas, um tronco proporcional, dois braços que ainda seguram a pasta do trabalho, duas mãos que agarram tudo aquilo que mais gosto de agarrar, um pescoço nem fino nem grosso nem curto nem comprido, uma cabeça redonda que aguenta um cabelo rapado, uma boca que já beijou bem e mal vezes sem conta, um valente nariz, uns olhos de carneiro mal morto que já me trouxeram muitas preocupações. Ah, e já me esquecia. No meu caso, chamo-me Rui, Rui Manuel, como era usual naquele tempo e tenho um pila. Como dá para perceber, sou um ser humano como tantos outros. Não tenho nada que sobressaia. Por isso, tenho as mesmas necessidades de gritar o que sinto, na esperança de algum distraído me ouvir.

Tenho que confessar que esta introdução se estendeu. Tanta justificação para poder gritar? Obalhamedeus.

Pronto. Vou gritar:

Não sei o que se passa nas outras casas mas cá em casa a hora de jantar é tempo de faladura. Agora menos porque a borboleta que era minhoca está a estudar em Vila Real e só pode dar o seu intenso contributo ao fim de semana quando está cá. Mesmo assim, o jantar é um momento em que toda a família fala sobre os mais diversos assuntos e em que, normalmente, eu fico calado porque não consigo fazer-me ouvir. É normal. São três contra um. Não me aborreço com isso. Vou ouvindo e vou tentando perceber o que se passa. Sim, vou tentando perceber porque não é fácil conseguir entender o que elas dizem. Confesso que metade do que dizem eu não ouço. E como não ouço metade das histórias nunca sei os nomes de alguns personagens, locais onde se desenrola a ação e por aí fora. Com as datas nem sequer me consigo concentrar. Só me preocupo mesmo é com os sinais que possam evidenciar de tristeza, revolta, rudeza ou qualquer outro sintoma preocupante que eu note. É um misto de pés no chão e cabeça no ar. Estou sempre num limbo. Confesso que me faço valer do meu estatuto de sexagenário. Só ouço o que me apetece que não coincide propriamente com o que lhes apetece. Um clássico das relações humanas.

E isto tudo porquê?

Respirem fundo porque vai ser longo.

A minha rica senhora quer ir trabalhar para Timor. Sempre quis. A nossa vida seguiu outro caminho. Tivemos duas crianças e, na altura, achamos que seria melhor criarmos as raparigas com as melhores condições possíveis que conseguíamos dar-lhes, em Portugal, proporcionando-lhes amor, tranquilidade, divertimento, sabedoria e saúde. Tudo aquilo que um pai e uma mãe desejam para os seus filhos, certo? Pois foi assim a nossa vida. O tempo foi passando e as raparigas foram crescendo. Passaram de minhocas para borboletas e estão quase a voar sozinhas, de todo. É a lei da vida. Em breve irão viver a vida delas e, com um pouco de sorte, vêm almoçar com os pais ao domingo se não estiverem com uma cabeça do tamanho de um camião TIR com atrelado devido aos copos que beberam no sábado. Quem nunca?

Mas voltando ao assunto. Independentemente do final, a conversa girava à volta do passo enorme que seria necessário dar porque Timor não fica propriamente ao virar da esquina. É um dia inteiro a viajar só para lá chegar e um dinheirão em passagens aéreas. A logística ficou logo ali resolvida. A mãe das borboletas iria um ano. Um ano seria suficiente para satisfazer o desejo antigo. A borboleta mais nova iria com a mãe para terminar o décimo segundo ano na escola Portuguesa de Dili. Pareceu-me bem. Eu ficava cá. A dar algum apoio à outra borboleta que está a estudar em Vila Real e precisa de vir ao fim de semana para respirar e comer sushi, como se não houvesse sushi por aquelas bandas. A ideia era essa. Pareceu-me razoável. Um ano passa muito depressa e as férias de Natal ou da Páscoa seriam para nós, os que ficaríamos em Portugal, viajarmos até àquelas terras longínquas para também as conhecermos. Tudo tranquilo, certo? Também me parecia mas… e há sempre um mas… a conversa evoluiu para um outro patamar. E que tal o pai das borboletas também ir?

Oi? Eu? Como assim? Oi?

É nestas alturas que eu fico a ouvir. Saber ouvir e perceber aquilo que nos estão a dizer não é para todos. Também não será só para mim. Não sou o inteligente. Apenas ouço as musiquinhas e percebo que o tempo foi passando e que estou mais velho (na minha escola sou mesmo tratado por belhinho) e vou tendo mais perceção do que é realmente importante reter.

Mas porque é que eu tenho que ir? Já perceberam que foi a minha pergunta. Eu não tenho o mínimo interesse em ir para Timor. Esse é um desejo da vossa mãe, da mãe das borboletas. O que é que eu tenho a ver com o assunto? Ah e tal, és sempre o mesmo, nunca queres ir para lado nenhum. Estás demasiado acomodado à tua vida. Nunca arriscaste nada na tua vida. Pareces um velho.

A parte do velho eu percebo. Não há como fugir. Sou um sexagenário e não dá para tirar uns anitos, o que é uma pena. Agora acomodado? Obalhamedeus.

A minha vida TODA esteve sempre em movimento. E quando digo movimento, digo mudança. Não sou o mais corajoso deste mundo. Posso ser o segundo mais corajoso deste mundo… Mas nunca deixei de fazer aquilo que na altura achei que seria o melhor, independentemente do juízo de valor de algumas decisões. Fui um adolescente que teve que se adaptar a um divórcio dos pais numa época em que se contavam pelos dedos os amigos/conhecidos que tinham os pais divorciados. Fui um jovem atleta profissional que não pensava noutra coisa senão correr e saltar barreiras para além de namorar intensamente. Fui um jovem imigrante. Fui um jovem ator numa companhia de teatro itinerante. Fui novamente imigrante mas menos jovem. Fui um trabalhador por conta de outrem em Portugal. Fui um estudante universitário que trabalhava à noite. Fui um trintão que concluiu os seus estudos. Tornei-me professor. No meio disto tudo casei uma vez e divorciei-me. Casei novamente e tornei-me a divorciar. Tornei a casar e aqui estou. Isto tudo sem pensar nas consequências. Nunca pensei duas vezes. Segui sempre o meu instinto. É ridículo, eu sei. Seguir o instinto, mas eu não sei fazer de outra maneira.

Um dia vão perceber tudo.

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