Aquivos por Autor: vaimanticora

Quando me dobro não consigo ver… o quê?

Tenho uma ligeira impressão que nunca escrevi nada aqui, neste meu espaço lúdico, sobre a actualidade portuguesa. Achei sempre que para isso existiam os jornais, as televisões e muitos outros blogues onde se debatiam ideias ou se afirmavam intransigências. Apesar de acompanhar o dia a dia do país, sempre estive mais focado na minha vidinha. Quem nunca? Pois é, o ser humano é egoísta e tem um fascínio muito particular pelo seu próprio umbigo (por falar em umbigo, quem é que nunca ouviu dizer que o mesmo se chama imbide, umbigue, bide e muitas outras coisas?). Eu também consigo confessar que o meu umbigo é, realmente, importante para a minha existência. Todo o ser humano deve pensar assim: ter a consciência que o seu próprio umbigo é a coisa mais importante deste mundo. Parece-me pacífico e legítimo que assim pensemos. O problema não está na adoração que o ser humano tem pelo seu umbigo. O problema centra-se na questão das prioridades. É como o código da estrada. Para pegarmos num carro, mota, bicicleta ou numa trotineta temos que saber as regras, sob pena de conseguirmos meter-nos numa data de trapalhadas se não tivermos em conta essas mesmas regras. O ser humano, português de nascimento, é o espelho de quem não quer saber das regras que regem a sã convivência entre todos os seres humanos e apenas se interessa pelas suas próprias regras e que, na sua modesta opinião, deveriam ser universais e aplicadas a todos os restantes seres humanos que habitam este planeta, chamado Portugal (sim, hoje o planeta deveria chamar-se Portugal porque hoje é o dia da Língua de Camões).

Planeta Portugal mas só hoje. Aliás, todos os países existentes neste planeta deveriam ter um dia consagrado à sua identidade. Do género: dia 10 de junho, dia de Portugal; dia 04 de julho, dia da América; dia 14 de julho, dia da França; dia 30 de setembro, dia do Botswana; dia 07 de agosto, dia da Colômbia e por aí fora. Assim, todos os dias, haveria um país que teria o seu reconhecimento anual e universal, em que as suas virtudes, carências e necessidades seriam “vistas” por sete biliões de pessoas em todo o planeta. Por acaso já pensaram bem no assunto? Imaginem que todos os telejornais diários deste planeta eram “obrigados” a dedicarem cinco minutos do seu precioso tempo às diversas realidades existentes. Se pensarmos um pouco naquilo que vemos diariamente nos ditos telejornais, facilmente percebemos que muitos dos assuntos tratados são do género “eu vou ali e venho já”.

Seria fantástico se todos os humanos percebessem as vantagens de uma ideia destas. Com toda a certeza posso afirmar que todos os habitantes deste planeta iriam ficar mais informados sobre a realidade mundial em que vivem. Seria um processo de relativização das necessidades e vontades dos diversos povos pois as realidades existentes são tão díspares que não nos podem deixar indiferentes.

Agora imaginem a ONU começar a pensar no assunto. Como organizar tudo isto? Realizar uma Assembleia Geral, no edifício de Nova Iorque, e o engenheiro António Guterres subir ao palanque e explicar que todos os países ( deste planeta iriam ter um dia só para si, para comemorarem a sua existência e que, nesse dia, teriam que enviar para todas estações de televisão do mundo cinco minutos com conteúdos sobre o respectivo país. Claro que iria haver batota. Seriam só flores, pelo menos de início, mas com o tempo os países tenderiam a embelezar a coisa… o que poderia ser resolvido com emissões próprias das televisões dos diversos países sob supervisão da ONU… enfim, não seria fácil, mas fica a ideia.

Por falar em ideia, a ideia inicial deste texto era outra mas… depois, pus-me a olhar para o meu umbigo e achei que era o mais inteligente à face da terra e que as minhas ideias são… do outro mundo.

Eu me confesso.

Começo por confessar que não estava a contar com uma pandemia. Sei que há por aí muito boa gente que já sabia que a pandemia ir surgir e que iria acabar com o mundo. Eu não sabia. Aliás, nunca sei de nada e sou sempre o último a saber. Mas, o que é certo, é que o mundo não acabou. Não acabou mas deixou marcas profundas.

Confesso que durante este período de quase um ano e meio tive largos períodos em que quase hibernei. Não quis saber do mundo. Li menos do que queria e podia. Vi filmes e séries mais do que devia. Sempre na perspetiva de empurrar o tempo com a barriga. Para a frente.

E o tempo foi passando sem que eu me apercebesse das marcas que estava a deixar gravadas.

Também confesso que nem vou nem quero queixar-me da vida e das marcas gravadas a sangue… porque… muito simplesmente, consigo conviver com o meu passado tranquilamente e se, eventualmente, me sentir menos energético não há nada como beber uns valentes copos, abrir as janelas, inspirar e gritar a plenos pulmões “caralho, que a vida está difícil”. Normalmente resulta.

É altura de confessar uma outra coisa.

Eu me confesso. O texto está uma seca. Muito sério. Sem piadinha nenhuma. Mas se vos confessar uma berdade, berdadinha, berdadeira vos disser que a bidinha das pessoas (eu incluído) é um balente aborrecimento… e que passamos metade do nosso tempo útil a tentarmos fazer-nos ouvir… é muito triste, ou não é? Pois é. Todos percebemos que numa altura ou outra da nossa vida andamos às voltas a gritar o que sentimos e pensamos mas que ninguém quer ouvir. Sim. As pessoas não são surdas. Só não querem ouvir. E isso adianta de alguma coisa? Continuamos incansavelmente a gritar o que sentimos e pensamos.

É estranho. E é tão estranho escrever isto mesmo sabendo que é precisamente isso que estou para aqui a fazer. Sim ou por acaso alguém teve a veleidade de pensar que eu seria um ser humano diferente de todos os outros seres humanos que habitam este planeta? Nada disso. Tenho dois pés bem torneados, duas pernas ainda musculadas, um tronco proporcional, dois braços que ainda seguram a pasta do trabalho, duas mãos que agarram tudo aquilo que mais gosto de agarrar, um pescoço nem fino nem grosso nem curto nem comprido, uma cabeça redonda que aguenta um cabelo rapado, uma boca que já beijou bem e mal vezes sem conta, um valente nariz, uns olhos de carneiro mal morto que já me trouxeram muitas preocupações. Ah, e já me esquecia. No meu caso, chamo-me Rui, Rui Manuel, como era usual naquele tempo e tenho um pila. Como dá para perceber, sou um ser humano como tantos outros. Não tenho nada que sobressaia. Por isso, tenho as mesmas necessidades de gritar o que sinto, na esperança de algum distraído me ouvir.

Tenho que confessar que esta introdução se estendeu. Tanta justificação para poder gritar? Obalhamedeus.

Pronto. Vou gritar:

Não sei o que se passa nas outras casas mas cá em casa a hora de jantar é tempo de faladura. Agora menos porque a borboleta que era minhoca está a estudar em Vila Real e só pode dar o seu intenso contributo ao fim de semana quando está cá. Mesmo assim, o jantar é um momento em que toda a família fala sobre os mais diversos assuntos e em que, normalmente, eu fico calado porque não consigo fazer-me ouvir. É normal. São três contra um. Não me aborreço com isso. Vou ouvindo e vou tentando perceber o que se passa. Sim, vou tentando perceber porque não é fácil conseguir entender o que elas dizem. Confesso que metade do que dizem eu não ouço. E como não ouço metade das histórias nunca sei os nomes de alguns personagens, locais onde se desenrola a ação e por aí fora. Com as datas nem sequer me consigo concentrar. Só me preocupo mesmo é com os sinais que possam evidenciar de tristeza, revolta, rudeza ou qualquer outro sintoma preocupante que eu note. É um misto de pés no chão e cabeça no ar. Estou sempre num limbo. Confesso que me faço valer do meu estatuto de sexagenário. Só ouço o que me apetece que não coincide propriamente com o que lhes apetece. Um clássico das relações humanas.

E isto tudo porquê?

Respirem fundo porque vai ser longo.

A minha rica senhora quer ir trabalhar para Timor. Sempre quis. A nossa vida seguiu outro caminho. Tivemos duas crianças e, na altura, achamos que seria melhor criarmos as raparigas com as melhores condições possíveis que conseguíamos dar-lhes, em Portugal, proporcionando-lhes amor, tranquilidade, divertimento, sabedoria e saúde. Tudo aquilo que um pai e uma mãe desejam para os seus filhos, certo? Pois foi assim a nossa vida. O tempo foi passando e as raparigas foram crescendo. Passaram de minhocas para borboletas e estão quase a voar sozinhas, de todo. É a lei da vida. Em breve irão viver a vida delas e, com um pouco de sorte, vêm almoçar com os pais ao domingo se não estiverem com uma cabeça do tamanho de um camião TIR com atrelado devido aos copos que beberam no sábado. Quem nunca?

Mas voltando ao assunto. Independentemente do final, a conversa girava à volta do passo enorme que seria necessário dar porque Timor não fica propriamente ao virar da esquina. É um dia inteiro a viajar só para lá chegar e um dinheirão em passagens aéreas. A logística ficou logo ali resolvida. A mãe das borboletas iria um ano. Um ano seria suficiente para satisfazer o desejo antigo. A borboleta mais nova iria com a mãe para terminar o décimo segundo ano na escola Portuguesa de Dili. Pareceu-me bem. Eu ficava cá. A dar algum apoio à outra borboleta que está a estudar em Vila Real e precisa de vir ao fim de semana para respirar e comer sushi, como se não houvesse sushi por aquelas bandas. A ideia era essa. Pareceu-me razoável. Um ano passa muito depressa e as férias de Natal ou da Páscoa seriam para nós, os que ficaríamos em Portugal, viajarmos até àquelas terras longínquas para também as conhecermos. Tudo tranquilo, certo? Também me parecia mas… e há sempre um mas… a conversa evoluiu para um outro patamar. E que tal o pai das borboletas também ir?

Oi? Eu? Como assim? Oi?

É nestas alturas que eu fico a ouvir. Saber ouvir e perceber aquilo que nos estão a dizer não é para todos. Também não será só para mim. Não sou o inteligente. Apenas ouço as musiquinhas e percebo que o tempo foi passando e que estou mais velho (na minha escola sou mesmo tratado por belhinho) e vou tendo mais perceção do que é realmente importante reter.

Mas porque é que eu tenho que ir? Já perceberam que foi a minha pergunta. Eu não tenho o mínimo interesse em ir para Timor. Esse é um desejo da vossa mãe, da mãe das borboletas. O que é que eu tenho a ver com o assunto? Ah e tal, és sempre o mesmo, nunca queres ir para lado nenhum. Estás demasiado acomodado à tua vida. Nunca arriscaste nada na tua vida. Pareces um velho.

A parte do velho eu percebo. Não há como fugir. Sou um sexagenário e não dá para tirar uns anitos, o que é uma pena. Agora acomodado? Obalhamedeus.

A minha vida TODA esteve sempre em movimento. E quando digo movimento, digo mudança. Não sou o mais corajoso deste mundo. Posso ser o segundo mais corajoso deste mundo… Mas nunca deixei de fazer aquilo que na altura achei que seria o melhor, independentemente do juízo de valor de algumas decisões. Fui um adolescente que teve que se adaptar a um divórcio dos pais numa época em que se contavam pelos dedos os amigos/conhecidos que tinham os pais divorciados. Fui um jovem atleta profissional que não pensava noutra coisa senão correr e saltar barreiras para além de namorar intensamente. Fui um jovem imigrante. Fui um jovem ator numa companhia de teatro itinerante. Fui novamente imigrante mas menos jovem. Fui um trabalhador por conta de outrem em Portugal. Fui um estudante universitário que trabalhava à noite. Fui um trintão que concluiu os seus estudos. Tornei-me professor. No meio disto tudo casei uma vez e divorciei-me. Casei novamente e tornei-me a divorciar. Tornei a casar e aqui estou. Isto tudo sem pensar nas consequências. Nunca pensei duas vezes. Segui sempre o meu instinto. É ridículo, eu sei. Seguir o instinto, mas eu não sei fazer de outra maneira.

Um dia vão perceber tudo.

O que ando a ler. Bill Bryson: O Corpo: Um guia para ocupantes.

SINOPSE

“Uma extraordinária investigação do corpo humano.

A vida toda habitamos um único corpo, mas quantos de nós entendemos o que se passa cá dentro? No bestseller premiado Breve História de Quase Tudo, Bill Bryson fez o quase-impossível: tornou a ciência simultaneamente compreensível e divertida para milhões de pessoas em todo o mundo. Agora, volta a sua atenção para o corpo humano, como funciona e como consegue a extraordinária proeza de crescer, reproduzir-se e curar-se a si próprio.
O Corpo: Um Guia para Ocupantes está cheio de histórias verídicas e factos incríveis, servidos numa linguagem acessível, por um autor que faz toda a pesquisa – para que nós não tenhamos de o fazer. Um mergulho profundo e muito bem-humorado na Biologia e na história da investigação sobre o corpo humano, para ficar a saber tudo o que precisa de saber sobre este invólucro mortal que ocupamos.”

Porque hoje é dia!

O meu dia.

Começar com E@A tentando o melhor possível!

Se já são difíceis as aulas à distância, quando têm mesmo que ser, agora imaginem quando estamos a queimar os últimos cartuchos. Sim, na próxima semana já deveremos retomar a normalidade. Felizmente! A ver vamos!

Almoço!

Dourada no forno, com batatinhas, alface e rúcula. Até pareço um bocadito obcecado com as dietas. Mas não sou!

O branco geladinho acompanhou.

Tarde!

The Chemical Brothers. Na bela da coluna. Sim, a minha rica senhora ofereceu-me uma coluna nova que é maravilhosa. Deixei os fios todos da aparelhagem antiga!

E vai ser toda a tarde nisto!

Mais logo…

Um entre muitos… sexagenários.

Quando fiz cinquenta anos fui comemorar. Foi a minha primeira vez. Nunca liguei muito a aniversários. Digo. Aos meus aniversários. A vida foi correndo como tinha que correr. Digo. Sem tirar nem meter. Foi assim que correu e os aniversários nunca me disseram nada até… chegarem os cinquenta. Nessa altura tive um choque psicológico. Foi mais um choque que eu deixei que me passassem pois, na altura, não me tinha apercebido que fazer cinquenta anos é um marco na vida das pessoas, tal e qual fazer cinquenta nos de casado ou cinquenta anos de vinte e cinco de abril. Reconheço que poderá ser um número icónico. Mas na altura não sabia disso. Fiz, realmente, cinquenta anos de existência mas a minha cabeça estava noutra galáxia e muito longe destes problemas terrenos. Coisas da minha vida, da minha existência e que não passam pelo lugar comum da existência humana.

Enfim. Uma ocorrência insignificante. Nada que um GNR não possa tomar conta.

E passaram alguns anos. Nem muitos, nem poucos. Dez, para ser mais preciso. Sim! É verdade. Cinquenta mais dez faz sessenta! Eu acho um número mágico. Claro que se fosse um seiscentos e sessenta e seis seria outra coisa mas, no que diz respeito ao assunto que me trouxe hoje a este espaço lúdico não faz muito sentido. Sessenta é o número. O número da realidade. E não, não vou acrescentar “da triste realidade” porque eu não sou nenhum triste. Não fico triste por estar associado a um número destes. Como poderia?

Claro que os meus amigos sabem o que este número quer dizer para mim (mas aqueles que só aparecem de vez em quando para lerem o que me vai na alma e não me conhecem de lado nenhum… podem não ter percebido que estou prestes a ser um sexagenário. Sim, calha a todos.) ponto. Os meus amigos também sabem que eu sou um ser positivo, sem grandes complicações de funcionamento, que gosto da prática, da resolução dos problemas, da sua execução e que não costumo fazer grandes dramas perante situações adversas. Também sabem do meu passado e não me levam a mal.

Por falar em passado. Há uns anos atrás eu ouvia The Cure. Adorava. Estive neste concerto em Londres e foi uma sensação fantástica, como não podia deixar de ser para quem se prezava em acompanhar o que de melhor se fazia naquela época. Entretanto a vida continuou e eu deixei de ouvir violas e guitarras com pessoas a cantar. Cansou-me. Aquela coisa das bandas, com as cenas dos músicos… não fazem mais parte da minha existência. Fiquei assim há muitos anos, antes, muito antes dos quarenta e assim me irei manter. Só gosto de ouvir música eletrónica, muito particularmente de trance psicadélico, mas confesso que por vezes dou comigo à procura de versões eletrónicas de êxitos de outros tempos… digamos que é uma fraqueza “nostálgica” da minha pessoa. E sim, todos os seres humanos têm fraquezas, sejam eles trintões, adolescentes ou sexagenários, belos sexagenários.

Já chega de musiquinhas porque não foi para escrever sobre os meus gostos musicais que eu decidi ressuscitar vinte e oito dias depois da última aparição. Eu sei que mais ou menos há dois mil e vinte e um anos atrás também houve um personagem que ressuscitou, mas esse era muito diferente de mim. Dizem que era loiro em terra de morenos, que era tão alto e forte que até conseguia levar uma cruz de madeira, pesada, por montes acima, sem pestanejar e que usava o cabelo solto, pelos ombros, envergando uma túnica de linho, sem mais nada por baixo. Já eu, nem nos meus tempos de verdadeiro atleta, conseguiria arrastar uma cruz com aquele peso todo, muito menos vestidinho com uma túnica, com tudo a abanar. Não, a bela cueca é fundamental para manter a compostura.

Pormenores à parte, importa aqui realçar que o que me trouxe de volta a este privilegiado espaço foi eu saber que tenho uma outra vida pela frente. Pelo menos uma porção de vida, uma porção de uma outra vida e que esta porção seja, espero eu, maravilhosa.

Eu tenho muitos amigos. Uns mais velhos e outros mais novos. Não sou, portanto, aquele que vai com a cruz na frente da procissão. A vida corre naturalmente e uns já passaram por isto, outros ainda irão passar. Quando olho para o passado emociono-me sempre (imaginem tudo isto, toda esta potência vocal, este aparelho fonador, num balada dos Xutos e pontapés, em vez da xaropada que é a voz do Tim) e pergunto-me como foi possível ter tido o privilégio de me relacionar com pessoas assim, maravilhosas? A minha vida tem sido rica em emoções e em relacionamentos. Não me lembro de pessoas más que tenham passado pela minha vida. Com toda a certeza que já devo ter passado por situações menos boas mas delas não me lembro e não escrevo isto para ficar bem na fotografia. Não, não me lembro mesmo de me ter relacionado com pessoas que não tenham valido a pena conhecer. Um sortudo, portanto.

E o futuro, senhores, o futuro?

Depois se verá.

Há dias e dias.

Por hoje já trabalhei o que tinha que trabalhar.

Esta é uma frase fraquinha para começar um texto, mas nem todos nasceram com uma veia poética e, muitos mais (nos quais me incluo) não nasceram sequer para escrever, seja o que quer que seja.

Mais uma frase daquelas que vou ali e venho já, mas hoje vai ser conforme sair. Não quero saber. Porque haveria de querer saber? Afinal de contas ninguém vem ao estaminé ler o que vou para aqui escrever e, sendo os que o fazem meus amigos, já me conhecem de ginjeira e não se vão zangar comigo por causa de uma frase mal construída, uma vírgula mal atirada ou uma caralhada no meio de muitas outras palavras bonitas que eu sou capaz de espetar num texto. Não quero mesmo saber e eles também não.

Por isso, vamos a isto.

Hoje está um dia de sol. É bom sentir o sol. Cá em casa temos andado a tentar evitar o contacto visual. E não é fácil, nada fácil apesar de termos espaço individual suficiente para não nos cruzarmos mas… há sempre aquela hora em que temos que almoçar… jantar… e aí não há nada a fazer. Como nós, milhares de outras casas neste Portugal devem estar com o mesmo problema. A sanidade mental é um assunto sério, muito sério e que devemos encarar numa perspetiva de futuro porque hoje não temos consciência da forma como tudo isto nos está a afetar nem percebemos como poderemos vir a ficar. Apenas nos vamos apercebendo que as nossas reações e as nossas relações estão ligeiramente diferentes.

Será que é normal eu começar a estufar uma carne para o jantar às cinco da tarde? (bem, comecei com um exemplo ainda mais palerma do que todo o texto porque o fêcêpê joga hoje e o jantar tem mesmo que estar pronto a tempo de eu ver aquele conjunto de pessoas atrás de uma bola) (e que ganhe quem tem que ganhar e que vocês sabem qual é, ou não sabem? Pensei que não!).

Será normal que as pessoas passem um tempo infinito agarradas a um ecrã (pequenino, maior um bocadinho, normal mas com teclas em três dê ou um qualquer que esteja encostado a uma parede e que tenha um comando?) (obalhamedeus que este também é um exemplo típico de quem não pensou muito no assunto porque se pensarmos bem nesse bocadinho assim, que está em falta, percebemos que não faz sentido pegarmos num conjunto de folhas, todas juntas, com muitas letras, palavras, impressas e que dão uma trabalheira imensa a juntar… e é muito mais fácil estarmos a olhar para algo que brilha).

O texto está difícil de sair. Estou com a impressão de que não acerto uma.

E questiono-me. Porquê?

Afinal de contas esforço-me por acertar. Como todos os professores, tenho que tentar e saber chegar aos meus alunos. Tenho mesmo que saber comunicar, não é verdade? Pois, mas isso é com os meus alunos.

Por estas bandas a coisa funciona de forma diferente.

E bem que podia perguntar se é normal enfiar na cabeça tudo aquilo que existe nesta casa? Chapéus, bonés à guna ou lenços coloridos? (porque eu não gosto de nada que me faça lembrar esta vida a preto e branco que andamos a viver, ultimamente). Ia acrescentar repolhos, folhas de alface ou cenas a três velocidades com vinte e três centímetros de autêntica profundidade mas isso outros cinquenta.

Após este pequeno texto introdutório, passemos então to the main course.

Eu não sou rapaz para andar 7/24 nas redes sociais. Não sou. Quem quiser que o faça. A mim aborrece-me. Ando por lá o tempo suficiente e que eu considero razoável para continuar sem a sanidade mental que todos os frequentadores acham que têm mas, na realidade não têm. Como? Não têm sanidade mental? Só eu é que tenho a dita cuja da sanidade mental? Não (sorriso sonso). Eu tenho mas há muita mais gente que também a tem.

Mas que anda por lá muito boa gentinha que parece que nasceu anteontem com um dentinho de fora, lá isso parece. Anda muita azia a pairar no ar. Não acham? Eu acho. Por qualquer coisinha que se possa dizer menos acertada há um conjunto de vozes vindas dos céus que nos paralisam e nos deixam desconcertados. Não é que eu ande por aí a comentar isto e aquilo. Sim, porque eu não sou desses… e sim, gosto mais de ler e ver como param as modas. Algum problema com isso? (até parece uma resposta típica do tom com que eu me costumo escandalizar…) As redes sociais são amargas. Anda meio mundo zangado com a outra metade e eu não tenho paciência. Tenho pena por ser assim mas acho uma perda de tempo.

O texto prometia, não prometia?

Pois.

A vida não está fácil. Nada fácil.

Estou sem energia. Aliás, estamos todos sem energia cá em casa. Imagino que, em muitas outras casas de Portugal, se passe a mesma coisa. Uma verdadeira chatice. Andamos a tentar evitar o contacto uns com os outros. Já basta a hora das refeições em que temos que estar todos na mesa ao mesmo tempo. É uma questão de princípio. Estarmos todos reunidos à volta da mesa. É um princípio que não lembra ao diabo mas, olha, é o que temos e sempre comemos a paparoca quentinha, acabadinha de fazer. Ainda não chegamos àquele estado em que cada um desce para comer qualquer coisa, fria, mal amanhada, preparada na hora, sem qualquer tipo de preocupação nutricional…

Nem com o irish… a ajudar…

Custa-me a crer que irei acrescentar algo de criativo à minha vida ou de todos aqueles que costumam ler os textos que vou deixando espalhados por aqui. Não sei porquê mas tenho a leve sensação que andamos todos a encher balões. Se ao menos tivéssemos uma botija de hélio à mão… a coisa ainda poderia virar divertida. Assim, é mais do mesmo. Uma falta de energia assustadora. Pelo menos é isso que eu sinto. Estar em casa, com imenso tempo para fazer uma data de coisas que estão pendentes e… nada. Não consigo ser produtivo. Não tenho trabalho porque vim de férias compulsivas e nem sequer aulas online tenho, para já. Bem sei que posso ser mal interpretado porque muitas pessoas estão mesmo sem trabalho, nem em casa nem em lado nenhum. Todos estamos a viver situações difíceis, umas mais assustadoras do que outras mas todas elas marcantes.

Gostaria que fosse diferente. Quem não?

Cansado e às voltas.

As oportunidades surgem na vida. Quero dizer, há oportunidades que surgem nas nossas vidas sem estarmos a contar, mas também há umas quantas oportunidades que aparecem à nossa frente porque se trabalha para que tal aconteça. Para além das oportunidades, há o desejo, o desejo de se conseguir ter uma determinada oportunidade…

Vamos deixar de lado as oportunidades e passemos para os desejos. Não é fácil porque a palavra desejo está, de certa forma, ligada ao sexo. É sempre com alguma dificuldade que não associo a palavra desejo à palavra sexo. Desejo sexual. Claro que na prática, no dia a dia, acabo sempre por proferir a palavra noutros contextos completamente opostos à cena sexual: “Por favor, desejo um cimbalino curto”; “Estou com um desejo…de comer uvas sem grainha”; ” O que é que eu desejo? Desejo que o Trump escorregue numa casca de banana”. Podia estar aqui numa sequência de desejos incógnitos, sem qualquer conotação com o desejo sexual. Conhecem alguém que, durante a deglutição das doze uvas passas que se comem na passagem de ano e que são acompanhadas pelos respectivos desejos, tenha pedido um desejo sexual? Quer dizer, se calhar até há uns seres humanos que desejem: a vizinha de cima; o vizinho de baixo; os dois ao mesmo tempo; orgasmos violentos e sonoros, como se não houvesse amanhã; uma festa sexual na Comporta; a boca, as mamas, o rabo de uma qualquer personagem famosa… enfim, se é para o deboche em forma de desejo… podia ficar aqui o resto da tarde, com diversas alternativas e algumas manias, mas não é esse o caminho, el caminõ…

Já deu para perceber que este blogue está um bocadinho, só um bocadinho, direccionado para a minha pessoa. Também não será de admirar pois, afinal, sou eu que o escrevo e lhe dou vida… e se encontrarem alguém que escreva num blogue pessoal e que não tenha como assunto principal a sua vida, eu ficaria muito admirado. Anda meio mundo em bicos de pés para se fazer ouvir e a outra metade usa uns estratagemas diferentes, que não as patinhas esticadas, para se fazer ouvir. Agora pensem. Pensem em vocês. Como é que fazem para se fazerem ouvir? Claro que ninguém se vai meter aos berros a afirmar que se mete em biquinhos de pés… Cada um sabe de si, isso é certo, tão certo, tão certo, como eu afirmar que nem sequer me dou ao trabalho de querer ser ouvido. Este blogue é pessoal. Tem uma afluência reduzidíssima. Só cá vem espreitar quem me conhece e, para esses, eu não tenho necessidade de me pôr em biquinhos de pés. E assim fica resolvido o assunto, que foi sempre um não assunto.

Olha a volta que o texto foi dando. A palavra era “desejo”. Obalhamedeus tanta falta de objectividade.

To be continued

Oportunidades perdidas? Na generalidade.

Podia começar o texto assim: “Sou rapaz para ter desperdiçado uma data de oportunidades na minha vida”. Podia, não podia? Se calhar podia. Mas não consigo. Porquê? Porque a palavra rapaz tem uma conotação muito forte. Tão forte que me deixa desorientado. A verdade é que já não sou um rapaz. Quem diria. Nem tão pouco penso como um rapaz. Felizmente, digo eu. Não é que ser um rapaz seja mau. Pelo contrário. Até porque eu também já fui um rapaz, perdido no tempo, mas um rapaz. E ser um rapaz é tão bom. Sim, é bom ser um rapaz. Quem não se lembra quando era um rapaz? A vontade de mudar o mundo de um rapaz não tem classificação. Mas adiante. O título tem duas palavras. Oportunidades perdidas. Oportunidades? Perdidas? É mau de mais escolher um título destes e eu sei que fui eu que o escolhi. Mas é mau porquê? Vamos por partes. Comecemos pela primeira palavra. Oportunidades. O seu significado tem sempre dois lados. Positivo e negativo. Venha o diabo e escolha…o negativo… Claro que estou a ser tendencioso porque gosto de tecno, ouço regularmente tecno e, claro está, gosto do diabo, vestidinho de vermelho e com o rabinho a dar a dar. É por isso que acho que a palavra oportunidade tem sempre um significado negativo. A palavra está intimamente ligada a aproveitamento e, quando se pensa em aproveitamento…

Perdidas?

Oportunidades perdidas? Não sei como me lembrei desta associação de palavras. Não se aplica à minha vida. Acho que nunca me senti a perder uma oportunidade, daquelas que surgem uma vez na vida. Pelo contrário. Estou muito feliz com o rumo que a minha vida tomou. Eu sei que a minha vida não interessa a ninguém, apenas a mim e a todos aqueles que gostam de mim, mas consigo pensar o meu percurso de uma forma tranquila, sem sobressaltos e sem frustrações motivadas por… oportunidades perdidas… Isto tudo é muito lindo de escrever, pensam vocês e penso eu, mas é mesmo verdade. Claro que sempre tive os meus desejos, como todo o ser humano. Adorava viver outras situações, outras vidas. Por exemplo, gostava de ter sido cantor. Este é um desejo, o primeiro desejo de uma longa lista, que gostava imenso de concretizar apesar de me rir imenso só de pensar no assunto. É que eu gostava de ser cantor de uma coisa qualquer. Podia ser pimba, rocalhada, o que aparecesse à frente, tanto fazia. O que eu gostava mesmo era de estar a cantar com um microfone na mão e a ouvir a minha voz. Não tenho grande voz, é certo, mas não há nada melhor do que ouvir a nossa voz numa perspectiva diferente (aquele que está aos berros, sou eu?). Quem nunca teve curiosidade de ouvir uma gravação da sua voz, que atire a primeira pedra. Enfim, gostava de ser cantor. É uma cena que já vem de longe. Quando era pequenito e vivia feliz no meu bairro, com os meus amigos, era conhecido como “O sonhador”, foi a alcunha que me calhou… todos tínhamos alcunhas e a minha deve ter tido uma qualquer razão obscura… Por acaso lembro-me. Entre as idas aos pomares de fruta, à pancadaria quando calhava, às idas à escola com a pasta de couro a cheirar a banana misturada com aparas de lápis, lá sobrava um tempinho para cantar e fazer umas lutas de espadachim, contra o vento, e assim foi ficando a alcunha. E agora que me lembrei das alcunhas da minha infância, a memória (sim, essa cena fantástica que habita dentro de nós) leva-nos por caminhos nunca antes navegados… e para além de “O sonhador” também era conhecido por “Preto” e ” China” vá-se lá saber porquê… mas o que me assalta eram as horas que passava a lutar contra a parede do meu prédio???, com uma espada feita por mim, em verdadeiros duelos… Eu sei, ninguém deveria lutar contra uma parede de um prédio…

E cantar? Cantar, cantar, não me lembro de estar a cantar enquanto lutava contra uma parede… lembro-me que falava imenso, vociferava autênticas palavras guerreiras contra a parede do prédio, se calhar como forma de intimidação… Naqueles tempos, a intimidação era uma arma. Eram tempos de rua. Toda aquela geração cresceu na rua. Nas férias era uma loucura. Saímos de manhãzinha, vínhamos almoçar, tornávamos a sair e só regressávamos a casa por volta das oito da noite para jantar. Lavávamos as patinhas para comer e depois de terminada a refeição íamos direitinhos para o banho tirar o surro. À noite saíamos para a rua mas a coisa era mais calma, ficávamos na conversa porque não dava para dois banhos diários nem duas mudas de roupa… Mas também não foi nessas alturas que o desejo de ser cantor me assaltou. O meu bairro era tranquilo. Tínhamos uma parede de um bloco (bloco habitacional – do arquitecto Fernando Távora) onde nos reuníamos e ficámos por ali a conversar até passarem os habituais dois polícias, nas suas fardas cinzentas, completamente cheios de copos mas sempre muito simpáticos connosco, e a seguir íamos para casa. Por isso não terá sido nessa altura que me terá dado a vontade de cantar. Também não interessa muito. Sim, o que interessa saber a altura exacta em que um ser humano desejou ser cantor? Não me parece relevante.

Voltando ao assunto. Gostava de ter sido um cantor.

(to be continued)

À solta.

É tão bom andar descalço, em casa, claro. Na rua não consigo. Já na terra é outra coisa. Eu lembro-me de andar descalço na terra mas já foi há umas décadas valentes. Adorava chegar a casa e meter-me na banheira, completamente cheio de terra, dos pés à cabeça, literalmente. Agora há uns movimentos, com uns nomes que eu nunca vou conseguir fixar, que transmitem a ideia que devemos andar descalços na terra para sentirmos umas energias… e tal… para nos encontrarmos com… não sei quem… e tal…

É bonito saber que existem pessoas que comungam estas ideias mas eu comecei o texto a falar de andar descalço porque durante o período de confinamento, sempre que alguém saía à rua para fazer algum tipo de compra de bens essenciais, quando chegava a casa deixava os sapatos à porta. Quem nunca? Acho que noventa por cento das casas portuguesas tiveram um amontoado de sapatos junto à porta de saída durante este tempo todo de confinamento e que ainda hoje continua. Os portugueses que têm espaço em casa, com um hall de entrada generoso o que é que fizeram? Investiram numa sapateira, certo? Nas redes sociais só viam modelitos de sapateiras… umas mais apetitosas do que outras. Umas coloridas, outras em madeiras nobres. Algumas sofisticadíssimas e outras feitas com os materiais que estavam mais à mão. Enfim, foi uma ideia que se disseminou e, na minha opinião, ainda bem porque às vezes somos mesmo altamente influenciáveis pelas redes sociais e, neste caso, cá em casa deixamos entrar a ideia muito facilmente. Já andávamos saturados de trazer a rua nos sapatos, cá para casa. Vai daí, encomendamos uma sapateira, daquelas normais, com espaço para dezasseis pares. Somos quatro cá em casa e cada um vai gerindo o espaço que tem disponível na sapateira da casa. É uma sapateira comunitária mas com hierarquia. O pai e a mãe, mais velhotes, têm direito a ficar com as duas prateleiras de cima e as crias, possuidoras de uma pujança lombar muito superior à dos progenitores, ficaram com as prateleiras mais abaixo. E a coisa tem corrido muito bem. Para além da rua ficar à porta, andamos mais tempo descalços, com os pés mais soltos, o que é fantástico. Não é que a infância retorne mas, com as mazelas próprias da idade, sentir os pezinhos soltos e bem apoiados…não tem preço.

Uma canseira.

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Eu vou para velhinho. Não há como negar. É a lei da vida. Não há mesmo como negar. Acontece a todos. O caminho a percorrer é o mesmo para todos. Para brancos, negros, amarelos, vermelhos, pobres, ricos, remediados, boas pessoas, más pessoas, coxos, magros, gordos, altos, baixos, pessoas que usam óculos, pessoas que gostam de ter relações sexuais todos os dias, padres, políticos, vigaristas, assassinos, tresloucados, alcoólicos, viciados na batota, pessoas que andam e saltam, naturistas, moralistas, possuídos, possuídos por trás, possuídos pela frente, vegetarianos, amigos das focas, plantadores de cannabis, arrumadores… e podíamos estar aqui a tarde toda a enumerar todo o tipo de pessoas deste mundo, não podíamos? podíamos, mas não me parece. Apesar de não estar aquele tempo maravilhoso, que esteve na semana passada, que convida ao relaxe, à bebida espirituosa, ao deleite e à conversa descontraída, há toda uma parafernália de palavras que têm de saltar para o teclado… bonito, não? Também acho. Quando é chegada a hora do azeite eu não poupo. Para além de caminhar para velhinho, deslizo em azeite. Puro azeite transmontano, que essa modinha do azeite alentejano é para inglês ver…

Bem, a agulha está sempre a fugir do trilho traçado (faz-me lembrar a minha vida) e não é fácil dar a mão à vida e trazê-la para onde pensamos ser o melhor caminho. OMG, que rebuscado. Não era essa a minha intenção. Apenas pretendia dizer que ando sempre à procura do meu caminho e depois saiu uma frase moralista. E eu esforço-me por não ser moralista, nem paternalista… embora confesse que, com duas filhas adolescentes, me sinta tentado em protegê-las… embora saiba que esse não é o melhor caminho… mas quem nunca? OMG, outro lugar comum???

Esqueçam o parágrafo anterior!

Vou recomeçar.

Eu vou para velhinho. Não há como negar. É a lei da vida. Não há mesmo como negar. Acontece a todos. Lembram-se? Exactamente. Foi como comecei o texto. E sabem porque é que comecei o texto assim? Porque queria continuar a escrever sobre a minha vida. Sim, quem vai para velhinho tem tendência a esquecer o dia a dia e a lembrar-se dos pormenores de há cinquenta anos atrás. Estranho? Não me parece. Quem tem pais mais velhinhos do que eu, percebe o que eu estou a dizer. E eu estou nesse limbo (e não, não estou doente, nem vou morrer em breve), apenas quero deixar registada uma parte da minha vida. E esse registo é complexo. Não aparece assim, do nada. Tem que ser triturado, mastigado, até sair cá para fora. E agora está-me a dar o sono. E ainda tenho que ir ao ginásio, fazer os telefonemas costumeiros, ir ao ginásio (sim, vou pela primeira vez), tomar banho, fazer o jantar, continuar no escocês e finalmente ver um episódio a escolher entre as muitas séries que ando a ver.

Pode não ter interesse. É sobre a minha vida.

Meio litro de cerveja. Fresquinha e a borbulhar. Depois de duas horas ao sol, a torrar, não há nada melhor do que uma cerveja muito fria. Nos dias anteriores andei a beber limonada. Também não desgosto. Mas hoje… hoje estive ao sol e a ouvir música. Música dos anos oitenta. Sim, toca a todos. Momentos de nostalgia, quem nunca os teve? Pois, bem me parecia. Mas adiante. Como trabalhei da parte da manhã, agora a ideia era mesmo esticar-me na espreguiçadeira e ficar por ali a ouvir música. O problema consistia em conseguir ter acesso às músicas que me apeteciam ouvir. Nada de muito especial (Cure, Cramps, Sound, Carmel, Virgin Prunes, Fall, Phsycadelic Furs, Cult, Talking Heads e por aí fora) e a solução foi o Spotify, o dos tesos como eu, com publicidade pelo meio e que só dá mesmo com acesso à internet. Para já foi assim, depois logo se verá se vale a pena passar para a conta premium.

E gostei. Aliás, gostei muito de estar ali esticado, com os phones, alheado do mundo e a pensar na minha vida. Na minha vida desta altura. Eu não posso dizer que tive várias vidas, como os gatos. A minha vida é que teve várias vidas, todas elas muito boas. Do passado ao presente, não me posso queixar pois sou um ser humano com muita sorte na vida. E não estou a falar de dinheiro ou sucesso social ou o que quiserem chamar. Estou mesmo a falar da vida, vivida com intensidade e sempre muito bem acompanhado por pessoas que me marcaram intensamente. Praticamente não tive momentos negros na minha vida. Tirando a morte do meu pai, não me lembro de nenhum período mau e a vida foi sempre decorrendo com maior ou menor dificuldade (sim, eu nunca vou ter uma vida desafogada em termos financeiros) e tudo se foi compondo com o tempo. Mas voltando atrás, esta vida vivida nos anos oitenta, foi uma rica vida.

Eu nasci em 1961, sim esse número mágico que se lê das duas maneiras: direito e de pernas para o ar. E quem não sabe, o próximo ano em que tal voltará a acontecer será o de 6009, um pouco distante mas que, para aqueles que acreditam na reencarnação, poderá vir a ser o seu ano de eleição… Mas o meu ano de nascimento basta-me para saber que a minha vida vai ser uma vida em cheio… Quando fiz vinte anos era um rapaz que corria, saltava barreiras e era bom naquilo. Só fazia atletismo e sonhava fazer vida daquilo. Era treino pela manhã e novo treino pela tarde. Raramente faltei a um treino e era, como ainda sou hoje, muito disciplinado e organizado nas tarefas que me proponho realizar. Não parece, pois não? Mas sou. E podia ter ido longe se não fosse um conjunto de circunstâncias que me deixaram desapontado e saturado (fui obrigado a ir para a tropa, treinava na terra e tinha que ir a Lisboa para correr na borracha…e não evolui por causa disso tudo) e desisti. Não me arrependo de ter desistido. Trabalhei como fiel de armazém na Pelikan, a das canetas, e que já não existe. De seguida fui para Londres, trabalhar. Regressei e estive um ano na companhia de teatro “Os Comediantes” que me encheu as medidas pelas diversas experiências que vivi, de terrinha em terrinha (Portugal e Espanha), a montar e desmontar o espectáculo, a viver com pouquíssimo dinheiro, mas feliz. Foi nesta época que foram lançadas as bases do meu primeiro casamento… conheci a artista plástica Isabel Padrão, que nesta altura ainda era estudante, e casamos uns anos mais tarde. Não durou muito. Foi mesmo um casamento curto. Coisas da vida. Foi um relacionamento completamente diferente de todos os que tinha tido pois passei a ter contacto com um outro mundo, completamente desconhecido para mim. Já não me bastava ter tido aquela vivência arrebatadora do mundo do teatro e passei para o mundo dos artistas plásticos, com as suas taras e manias… como canta o nosso Marco Paulo…

O que é certo é que com estes abanões todos a minha vida lá foi continuando, sem grandes pressões, um bocadinho para onde estava virado e consoante as necessidades. Fui novamente para Londres fazer um dinheiro, fui não, fomos os dois e depois eu ainda fiquei por lá mais uns tempos, sozinho, para voltar e começar a trabalhar numa secretaria de uns Bombeiros Voluntários, como escriturário… sim a vida dá muitas voltas e estive por lá três anos. Pelo meio entrei em Belas Artes, para tirar Pintura, estudava de dia e passei a trabalhar nos Bombeiros à noite, todos os dias até à meia noite. Às sete e meia da manhã já estava a apanhar o autocarro para chegar às aulas às oito e meia. E sim, raramente cheguei atrasado porque sou disciplinado… e não gosto de dormir muito, por isso, saltar da cama não me custa.

Nesta altura, com vinte e tal anos, achamos que temos o rei na barriga e o mundo aos nossos pés. Era um rapaz um pouco extravagante. Tanto andava com o cabelo todo esticado para o céu, como cheio de brilhantina. Tanto usava umas calças coloridas com um blazer aos quadrados que não correspondia minimamente, como andava de preto ou fato e gravata. Era para onde estava virado. E eu virava-me bem. Não tinha, nem tenho, manias, mas já nessa altura me esforçava por não julgar ninguém por aquilo que aparenta mas dava-me gozo aparecer desalinhado… coisas da juventude. E dançava. Dançava como se não houvesse amanhã e da maneira que só um corpo jovem, atlético e saudável consegue. E vibrava com as músicas… que estive a escolher hoje… daí a nostalgia. E não é que ache que ser nostálgico seja mau. Para mim sempre foi bom recordar o que vivi pois não vivo preso ao passado.