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Vou passando o tempo, assim…

Success. Acabei agora de ver esta série Sérvia. Gostei. Apesar de não gostar do povo Sérvio, por razões históricas recentes, pelas imagens adorei a cidade de Zagreb e, por aquilo que vi, não me importava de viver lá. Estive lá há quarenta anos atrás. Dizer que estive lá…é uma força de expressão pois estive em trânsito para Belgrado para participar numa Taça de Clubes da Europa em Atletismo. Outros tempos. O muro de Berlim ainda não tinha caído e nem sequer se sonhava com isso e, apesar da antiga Jugoslávia não ser um país alinhado, notava-se uma grande influência de leste. Belgrado, daquilo que me foi permitido ver naquela altura também tinha aquelas avenidas largas, construções de edifícios altos onde moravam pessoas, com amplos espaços verdes envolventes. Pareceu-me uma cidade quase criada de raiz e devidamente pensada e ordenada. Estou a falar da parte nova da cidade. Enfim, outros tempos.

Hoje, enfiado em casa, vou-me limitando a viajar agarrado a um ecrã…

Florbela Espanca Espanca

Eu quero foder foder

achadamente

se esta revolução não me deixa

foder até morrer

é porque

não é revolução nenhuma

a revolução

não se faz

nas praças

nem nos palácios

(essa é a revolução

dos fariseus)

a revolução

faz-se na casa de banho

da casa

da escola

do trabalho

a relação entre

as pessoas

deve ser uma troca

hoje é uma relação

de poder

(mesmo no foder)

a ceifeira ceifa

contente

ceifa nos tempos livres

(semana de 24×7 horas já!)

a gestora avalia

a empresa

pela casa de banho

e canta

contente

porque há alegria

no trabalho

o choro do bebé

Adília Lopes – Obra

Herberto Helder. Flash.

Há dias em que basta olhar de frente as gárgulas

para vê-las golfar sangue. É quando

a pedra está a prumo, quando a estaca

solar se crava atrás das casas e amadurece

como uma árvore.

Mas também ouvi a água bater directa

nas trevas. Por um abraço do sangue eu estava

condenado

ao extravio mortal. Era um dom que me fundia

à substância primária

do terror.

E à riqueza e energia. E à tremenda

doçura humana. Vejo algerozes escoando a massa

das cúpulas, a forma, supremas rosas de pedra

rotativa.

 

E que leão me beijou boca a boca, juba e cabelo

trançados numa chama única?

Esse beijo afundou-se-me até às unhas.

Aparelhou-me para besta

soberba, para o sono, o brilho, a desordem

ou a

carnificina. De que leite ardido, de que matriz

ou opulência terrena,

nos vem a danação? Se a pedra

tem uma raiz buscando a vida em que teias de carne,

há em cima um Deus agudo,

de fenda no casco, e braços tão abertos que apanha todo o basalto,

como uma estrela elementar. Atrás

das rosáceas

desabrochadas. Do movimento de estátuas

arcangélicas plantadas no refluxo

da pedra. Boca:

bolha de sangue.

 

E há uma palpitação soturna, uma

delicadeza no cerne: o osso vertebral que assenta

ao meio, no ânus:

o falo — e em torno

gira a catedral. Lenta dança de Deus, da escuridão

para o alto.

 

O leve poder da lua apenas queima os olhos.